Talento desperdiçado

O meu amigo escritor e editor Adolfo García Ortega, residente em Madrid, manda-me regularmente coisas que publica na imprensa espanhola ou em sites dedicados ao nosso ofício. E começou de há dois meses a esta parte a fazer um Abecedário do Leitor realmente fascinante; chegada há uns dias a letra «B», fiquei deliciada com o que me contou sobre as irmãs Brontë. Ora vejam: Charlotte, autora do famosíssimo Jane Eyre e, segundo o meu amigo, a mais inteligente da família, morreu aos 39 anos. Emily, que escreveu o por tantos adorado Monte dos Vendavais – adaptado, de resto, ao cinema numa versão muito teatral –, morreu com 30 anos, deixando apenas esse romance de que ainda hoje se fala. A mais nova das três, Anne, morreu ainda mais cedo, com uns meros 29 anos, tendo escrito dois romances considerados bastante modernos para a época: Agnes Grey e The Tenant of Wildfell Hall. As Brontë constituem um raro exemplo de talento familiar (seria dos genes ou coincidência?) – e as suas obras passaram todas no teste do tempo. Agora imaginem: se todas tivessem vivido mais anos, que livros não poderiam ter-nos deixado?…

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda12 de dezembro de 2016 às 01:19

    E se tivessem morrido à nascença, que perda teria sido para todos nós a da sua fugaz passagem pela vida... Cada um deixa o que lhe é permitido, mas também o melhor de si no tempo que lhe é reservado. Seguramente foi o que aconteceu com as irmãs Brontë. Saiba o Mundo valorizar o seu legado.
    Bom dia e boa semana.

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    1. E também há que lembrar o mano Branwell Brontë, poeta e pintor que morreu com apenas 31 anos - os Brontë eram todos talentosos, sem qualquer dúvida.
      Como curiosidade, aqui há tempos fiquei perplexa com uma teoria que circula na net: John Lennon seria a reencarnação do Branwell Brontë - e até eram parecidos e tudo.
      Para quem acredita e queira investigar...
      Antonieta

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    2. Emílio Gouveia Miranda13 de dezembro de 2016 às 07:55

      Uma família de gente talentosa, cujas energias se reuniram neste plano terreno, precisamente para se realizarem através das suas artes.
      «O que faz a jóia rara é a sua escassez», poderíamos assim concluir relativamente à sua exígua criação, sabendo como sabemos também que mais do que a quantidade importa a qualidade. Um momento de genialidade, um simples acto de bravura ou de pura bondade pode justificar uma vida.

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  2. Emílio Gouveia Miranda12 de dezembro de 2016 às 01:21

    Não é o que não fazemos que fala de nós, mas precisamente o que fazemos, o que deixamos feito...

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  3. Tudo leituras obrigatórias... Mas "Wuthering Heights" ficou como preferido.

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  4. Uma reflexão interessante essa a do que poderia ser ou ter sido...
    Lembro-me daquela história, creio que contada por um grande escritor, já não me lembro onde a li ou ouvi, sobre o sacristão que foi dispensado pelo pároco por não saber ler e escrever... o homem saiu da sua aldeia e foi em busca de melhor sorte na cidade, onde fez fortuna nos negócios.
    Muitos anos mais tarde, já riquíssimo e importante, alguém surpreendido pelo seu analfabetismo comentou o que poderia ele ter sido se soubesse ler e escrever, ao que ele retorquiu: Ora, teria sido sacristão lá na minha aldeia!

    Saudações sacristas cá da Cidade Morena!

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    1. Caro Pacheco,
      Essa história é tão boa, que ter sido verdade ou não, é um pormenor sem qualquer interesse! :)
      Um abraço para si,
      Rui Miguel Almeida

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  5. "Abecedário do Leitor" —só o título já me deixa água na boca. Irá ser publicado em Portugal?

    Adolfo García Ortega —"O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS" é um livro absolutamente imperdível!

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  6. "Vilette" por vezes parece ter sido esquecido.
    É um grande romance que merece ser lido e relembrado.

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  7. Que bela prenda ! Que bom ler o abecedário do Ortega, que eu não sabia existir, e que vai na letra C. Li apenas umas entradas, mas já imprimi o texto completo para ler com calma e ir revisitando no futuro. Memórias e reflexões de um homem culto, escritas com elegância e humor. Vou procura o livro dele "O Comprador de Aniversários" recomendado por quem generosamente aqui partilha as suas descobertas literárias.

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  8. Cara MRP, se bem entendi, "Abecedário do Leitor" poderá ser lido no blogue de AGO e não um livro publicado (ou a publicar). É; não é?

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  9. Os humanos geniais provocam a inveja dos deuses que, com muita frequência, os chamam cedo para o seu convívio.

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    1. Uma resposta que se pode dizer clássica, e, própria de um Extraordinário!

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  10. Incrível é estas informações sobre as irmãs Bronte serem tão grande novidade num blogue como este...

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  11. O anónimo acredita que hoje entrei numa biblioteca e olhei para aquelas prateleiras e pensei: mas eu não li nem 0,000000001% destes livros aqui expostos...

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  12. Não sabemos. Penso que por vezes quem morre cedo, ainda que não tenha a premonição da morte, vive a sua vida curta em esplendor, quero eu dizer, é como se haja nessas pessoas singulares uma urgência e pujança vital que as leva a fazer em pouco tempo o que muitos não conseguem com a longevidade. O tempo é e não é o mesmo para todos.

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