Limpar o coração

Javier Marías é considerado um dos grandes escritores actuais da vizinha Espanha. Não é um homem especialmente simpático – há muitos anos, em Lisboa, no Botequim de Natália Correia para o lançamento do seu livro Todas as Almas, disse ao público presente que o seu romance era certamente muito menos chato do que o apresentador (que falara mais de quarenta minutos) fizera crer... Mas um bom romancista não tem obrigatoriamente de ser uma pessoa agradável, claro. Marías tem, de resto, muitos bons livros – e um dos mais emblemáticos e premiados é Coração tão Branco, que tem um arranque notável com uma rapariga regressada da lua-de-mel a acabar com a vida na casa de banho da mesma casa onde decorre um almoço festivo. O narrador é justamente sobrinho dessa noiva infeliz, filho da sua irmã mais nova que, saberemos adiante, se casou com o jovem viúvo, seu cunhado. E é um narrador seguríssimo na sua actividade profissional (intérprete e tradutor que estica muitas vezes a corda em encontros de políticos), mas menos seguro relativamente ao próprio casamento, aos segredos que é preciso manter e partilhar e até ao seu pai, que nunca explicou muito bem porque, antes de se casar com a sua mãe, teve duas mulheres que morreram prematuramente e alguns negócios em torno da arte um tanto escusos. E, já se sabe, um coração que não está limpo pode ser um grande problema... Altamente recomendável.

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda13 de julho de 2016 às 02:26

    A literatura vinda de Espanha a invadir literalmente as nossas livrarias. Que bom que o contrário também acontecesse...

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  2. Aprecio alguns autores espanhóis e só não entendo como os nossos vizinhos, que visitam Portugal com frequência, comem e e bebem satisfeitos e agradados e nem se lembram de nos ler, alimentar a alma de emoção e razão portuguesa. Será porque não somos traduzidos ou porque as traduções que se fizeram não renderam? Há povos que só se lêem a si mesmos, mas o homem é tão igual em todo o lado que talvez tenham razão. E, no entanto, para conhecer um povo, há que saber como e o que escreve.

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  3. Cláudia da Silva Tomazi13 de julho de 2016 às 03:41

    Possivelmente há níveis de romancistas e, qualquer romance bem escrito antecede (este) bem querer.

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