Sem título
Em matéria de livros, diz-se que um bom título é meio caminho andado para atrair leitores e alcançar o sucesso, mesmo que frequentemente os atraídos possam sentir que foram ao engano. Há escritores que já têm título antes de começarem a escrever os seus romances – e quiçá os escrevam por causa daquele título fenomenal – e outros que, terminada a obra, ainda não têm a mais pálida ideia de como chamar-lhe. Às vezes, finda a leitura, ficamos perplexos com a escolha do título por parte do autor, de tal forma a achamos despropositada; e, em livros traduzidos, nem sempre conseguimos ser fiéis ao título original (lembro-me de que o romance A Child in time, de Ian McEwan, sofreu deste problema, pois «in time» é «no tempo» mas também «a tempo» e, em português, nenhuma expressão servia para traduzir ambas as coisas). Os títulos das canções, embora menos importantes do que os dos livros, porque é sobretudo pelo artista e o nome do álbum que o interessado compra música, também nos ficam na memória (nunca esqueço La Bohème, por exemplo, ou temas da minha juventude como Goodbye Yellow Brick Road). E, porém, misteriosamente, na pintura o título parece coisa de pouca monta e em muitos caso até dispensável. Se atentarmos ao número de obras de arte referidas como «sem título» ao longo dos tempos, chegaremos à conclusão de que é mesmo muito grande. Porque será?
Um título deve ser galvanizador, enigmático, despertador do interesse do potencial leitor - todos nós. Deve ser um véu que nos convida a que o levantemos, a que espreitemos o que pretende revelar-nos... Ele e a capa, são os olhos do livro, que nos lançam o primeiro feitiço, o primeiro encanto. Mas, claro, pode não ser nada disso. Pode ser apenas uma pedrada no escuro, um grito, um «não quero saber». O desafio: descubram por vós... Pode ser importante, ou nem por isso. É como o nome de muitos nós. O que saberiam de quem somos se se ficassem apenas pelo nome?
ResponderEliminarNão é como o nome. O título, bom ou mau, escolhe-o o autor. Ou permite-o. O nome usamo-lo nós e escolhem-no outros.
EliminarPodem conhecer-se ou escolher-se livros pelo título. Mas, para além das pessoas pouco se escolherem entre si, escolhê-las pelos nomes....
Concordo. Obrigado. Mas não é esse o sentido do nome no meu comentário: não se trata, neste passo, de escolher, mas de conhecer... O que pode estar para além do nome, tal como o que pode estar para além do título.
EliminarIsso é mesmo o mais aliciante, não saber. Tanta pessoa com o mesmo nome e cada uma é única. O nome é o embrulho opaco e cartonado que envolve e até protege a fragilidade rara de cada peça.
EliminarIsso! Simples, conciso e claro. Não o título. Nem o nome. O comentário. Obrigado.
EliminarThe child in time (não tem nada a ver mas é curiosamente o nome de um tema dos Deep Purple - Child in time não me parece assim tão desfasado, e se bem me lembro do romance que li há já bastantes anos e nem por isso é dos meus preferidos, focava exactamente o tema de uma criança raptada e que por sinal o pai era escritor de livros para crianças.
ResponderEliminarOs títulos justificam-se tanto por terem a ver como por nada terem a ver, o que depende do "titulador", e lembra-me daquela pergunta de algibeira: - "Qual a semelhança entre uma girafa e o hipopótamo?"
Ambos têm o pescoço comprido, excepto o hipopótamo!
Muitas vezes a lógica seguida pelo autor é capaz de ser mais ou menos desta escola.
Desconfio de nomes rebuscados, parecendo até em certos casos que o engenho e arte na composição do título superou a própria escrita da obra.
Na música então o delírio é completo e nem me ralo a tentar perceber a maioria dos títulos!
Voltando ao nosso assunto, escrita e leitura, eu não-escritor que sou, entendi chamar Largueza ao meu romance, pelo conceito de abrangência, de largo, de espaço e também porque é aquilo que eu busco, largueza!
O nome surgiu-me claramente quase no início de ter finalmente iniciado a sua escrita, ocorreu-me naturalmente.
No caso presente daquele que estou a alinhavar, o nome surgiu-me primeiro, pois é o nome de um local onde fui feliz e que tem uma magia, mas também nome próprio, e em dada altura decidi escrever um romance passado ali, inspirado em factos e pessoas, pelo que neste caso o nome surgiu antes de ter começado a rabiscá-lo.
Preparem-se, que pode vir a ser Prémio Qualquer-coisa... eheheh!
Saudações rabiscadoras cá da Cidade Morena!
Os não escritores que escrevem são uma dádiva da natureza humana. Como as ervas dos caminhos, nascem crescem e morrem. Estão. Para mim, se possuem a arte e a trabalhada paciência da escrita, são, na sua essência, escritores. Seja qual for o nome da obra.
EliminarPortanto, senhor escritor, com largueza ou sem ela, vá em frente. Escreva. Ou não fará jus ao nome:))
Muito apreciei as suas palavras e estímulo... mas gostaria que me tratasse então por "senhor-não-escritor", eheheh!
EliminarSaudações especiais cá da Morena Cidade!
Nem tanto ao mar, nem tanto a terra! Editores (alguns) destacam livros a forma a cor a fonte seguindo a moda; assim a música a pintura o cinema a informação a contemporaneidade o artista.
ResponderEliminarQuando o título de um filme não corresponde a uma tradução literal do original, chovem sempre críticas à tradução. Uma vez li a explicação para tal desfasamento: a escolha do título de um filme é uma estratégia de marketing, pelo que não tem de corresponder a uma tradução literal do original. A escolha do título recai sobre o departamento de marketing e visa atrair mais espectadores. Imagino que com os livros se passe o mesmo. Contudo, acho que o bom senso aconselha que não se deva trair o sentido da obra no seu todo e sempre que possível se deve manter alguma correspondência com o original. Não sei se é comum na cedência de direitos de publicação da obra traduzida, haver restrições ou autorização prévia ao título.
ResponderEliminarÉ muito interessante reparar que na pintura, ao contrário de outras artes, abundam obras sem título. Deve haver várias explicações para tal. Arrisco que talvez tenha alguma relação com o facto de na pintura o processo criativo não ter um fim tão formal como um encadernamento, publicação ou cópia para um suporte duradouro como atualmente o cd, dvd, pen que obriga a que o ficheiro tenha um nome. Não raras vezes as telas eram reaproveitadas logo as pinturas sobrepostas.
E não pensa que uma arte que vive da imagem e se presentifica no imediato prescinde muitas vezes de nome? Estou a lembrar-me de quadros como O Grito ou O beijo que só podiam ter tal nome, assenta-lhes; ele já existe em nós se olhamos os quadros. Mas há outras pinturas perante as quais desvanecemos e nem verificamos nomes.
EliminarNas canções, filmes, livros, o nome é um meio que suscita ao conhecimento da finalidade não imediata que representa, canção, filme, livro. Na pintura a finalidade é-nos dada: contemplar; o título tem função de identificador :).