Sem título

Em matéria de livros, diz-se que um bom título é meio caminho andado para atrair leitores e alcançar o sucesso, mesmo que frequentemente os atraídos possam sentir que foram ao engano. Há escritores que já têm título antes de começarem a escrever os seus romances – e quiçá os escrevam por causa daquele título fenomenal – e outros que, terminada a obra, ainda não têm a mais pálida ideia de como chamar-lhe. Às vezes, finda a leitura, ficamos perplexos com a escolha do título por parte do autor, de tal forma a achamos despropositada; e, em livros traduzidos, nem sempre conseguimos ser fiéis ao título original (lembro-me de que o romance A Child in time, de Ian McEwan, sofreu deste problema, pois «in time» é «no tempo» mas também «a tempo» e, em português, nenhuma expressão servia para traduzir ambas as coisas). Os títulos das canções, embora menos importantes do que os dos livros, porque é sobretudo pelo artista e o nome do álbum que o interessado compra música, também nos ficam na memória (nunca esqueço La Bohème, por exemplo, ou temas da minha juventude como Goodbye Yellow Brick Road). E, porém, misteriosamente, na pintura o título parece coisa de pouca monta e em muitos caso até dispensável. Se atentarmos ao número de obras de arte referidas como «sem título» ao longo dos tempos, chegaremos à conclusão de que é mesmo muito grande. Porque será?

Comentários

  1. Um título deve ser galvanizador, enigmático, despertador do interesse do potencial leitor - todos nós. Deve ser um véu que nos convida a que o levantemos, a que espreitemos o que pretende revelar-nos... Ele e a capa, são os olhos do livro, que nos lançam o primeiro feitiço, o primeiro encanto. Mas, claro, pode não ser nada disso. Pode ser apenas uma pedrada no escuro, um grito, um «não quero saber». O desafio: descubram por vós... Pode ser importante, ou nem por isso. É como o nome de muitos nós. O que saberiam de quem somos se se ficassem apenas pelo nome?

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    1. Não é como o nome. O título, bom ou mau, escolhe-o o autor. Ou permite-o. O nome usamo-lo nós e escolhem-no outros.
      Podem conhecer-se ou escolher-se livros pelo título. Mas, para além das pessoas pouco se escolherem entre si, escolhê-las pelos nomes....

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    2. Concordo. Obrigado. Mas não é esse o sentido do nome no meu comentário: não se trata, neste passo, de escolher, mas de conhecer... O que pode estar para além do nome, tal como o que pode estar para além do título.

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    3. Isso é mesmo o mais aliciante, não saber. Tanta pessoa com o mesmo nome e cada uma é única. O nome é o embrulho opaco e cartonado que envolve e até protege a fragilidade rara de cada peça.

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    4. Isso! Simples, conciso e claro. Não o título. Nem o nome. O comentário. Obrigado.

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  2. António Luiz Pacheco15 de março de 2016 às 03:21

    The child in time (não tem nada a ver mas é curiosamente o nome de um tema dos Deep Purple - Child in time não me parece assim tão desfasado, e se bem me lembro do romance que li há já bastantes anos e nem por isso é dos meus preferidos, focava exactamente o tema de uma criança raptada e que por sinal o pai era escritor de livros para crianças.

    Os títulos justificam-se tanto por terem a ver como por nada terem a ver, o que depende do "titulador", e lembra-me daquela pergunta de algibeira: - "Qual a semelhança entre uma girafa e o hipopótamo?"
    Ambos têm o pescoço comprido, excepto o hipopótamo!
    Muitas vezes a lógica seguida pelo autor é capaz de ser mais ou menos desta escola.
    Desconfio de nomes rebuscados, parecendo até em certos casos que o engenho e arte na composição do título superou a própria escrita da obra.

    Na música então o delírio é completo e nem me ralo a tentar perceber a maioria dos títulos!

    Voltando ao nosso assunto, escrita e leitura, eu não-escritor que sou, entendi chamar Largueza ao meu romance, pelo conceito de abrangência, de largo, de espaço e também porque é aquilo que eu busco, largueza!
    O nome surgiu-me claramente quase no início de ter finalmente iniciado a sua escrita, ocorreu-me naturalmente.
    No caso presente daquele que estou a alinhavar, o nome surgiu-me primeiro, pois é o nome de um local onde fui feliz e que tem uma magia, mas também nome próprio, e em dada altura decidi escrever um romance passado ali, inspirado em factos e pessoas, pelo que neste caso o nome surgiu antes de ter começado a rabiscá-lo.

    Preparem-se, que pode vir a ser Prémio Qualquer-coisa... eheheh!

    Saudações rabiscadoras cá da Cidade Morena!

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    1. Os não escritores que escrevem são uma dádiva da natureza humana. Como as ervas dos caminhos, nascem crescem e morrem. Estão. Para mim, se possuem a arte e a trabalhada paciência da escrita, são, na sua essência, escritores. Seja qual for o nome da obra.
      Portanto, senhor escritor, com largueza ou sem ela, vá em frente. Escreva. Ou não fará jus ao nome:))

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    2. António Luiz Pacheco15 de março de 2016 às 13:44

      Muito apreciei as suas palavras e estímulo... mas gostaria que me tratasse então por "senhor-não-escritor", eheheh!

      Saudações especiais cá da Morena Cidade!

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  3. Cláudia da Silva Tomazi15 de março de 2016 às 05:40

    Nem tanto ao mar, nem tanto a terra! Editores (alguns) destacam livros a forma a cor a fonte seguindo a moda; assim a música a pintura o cinema a informação a contemporaneidade o artista.

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  4. Quando o título de um filme não corresponde a uma tradução literal do original, chovem sempre críticas à tradução. Uma vez li a explicação para tal desfasamento: a escolha do título de um filme é uma estratégia de marketing, pelo que não tem de corresponder a uma tradução literal do original. A escolha do título recai sobre o departamento de marketing e visa atrair mais espectadores. Imagino que com os livros se passe o mesmo. Contudo, acho que o bom senso aconselha que não se deva trair o sentido da obra no seu todo e sempre que possível se deve manter alguma correspondência com o original. Não sei se é comum na cedência de direitos de publicação da obra traduzida, haver restrições ou autorização prévia ao título.
    É muito interessante reparar que na pintura, ao contrário de outras artes, abundam obras sem título. Deve haver várias explicações para tal. Arrisco que talvez tenha alguma relação com o facto de na pintura o processo criativo não ter um fim tão formal como um encadernamento, publicação ou cópia para um suporte duradouro como atualmente o cd, dvd, pen que obriga a que o ficheiro tenha um nome. Não raras vezes as telas eram reaproveitadas logo as pinturas sobrepostas.

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    1. E não pensa que uma arte que vive da imagem e se presentifica no imediato prescinde muitas vezes de nome? Estou a lembrar-me de quadros como O Grito ou O beijo que só podiam ter tal nome, assenta-lhes; ele já existe em nós se olhamos os quadros. Mas há outras pinturas perante as quais desvanecemos e nem verificamos nomes.
      Nas canções, filmes, livros, o nome é um meio que suscita ao conhecimento da finalidade não imediata que representa, canção, filme, livro. Na pintura a finalidade é-nos dada: contemplar; o título tem função de identificador :).

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