Luz dura

Excepcionalmente, publico um livro na Teorema, Má Luz, de Carlos Castán, um autor espanhol que só costuma escrever contos (género em que se tornou um escritor de culto no país vizinho), mas que, ao atrever-se ao romance, mostrou que era igualmente hábil numa ficção mais comprida. A história começa com a relação de dois amigos homens desencantados com a vida, naquela idade em que começam a perceber que viveram muito (copos, mulheres, filhos de várias mulheres, drogas), mas se calhar não guardaram disso nada que agora, que começam a envelhecer, lhes valha. Um dos amigos começa até a ficar paranóico e a dizer que o perseguem e lhe querem bater, mas o outro julga que ele está apenas perturbado até ao dia em que a Polícia lhe telefona a comunicar que, de facto, Jacobo morreu assassinado. E é notável como o narrador, ainda mais só do que antes, se apropria da vida do morto, não só porque essa é a única forma de fugir à sua, mas sobretudo porque precisa de descobrir quem matou Jacobo, uma vez que não foi capaz de o ajudar a salvar-se. Uma mulher estará, claro, no centro de tudo – salvadora ou castigadora? É preciso ler esta pérola, de que João Tordo disse ser «um daqueles livros que dificilmente se esquecem, que perturbam uma noite tranquila em casa, uma tarde num café ou uma viagem de comboio.» Deixe-se, pois, perturbar.


_opt_VOLUME1_CAPAS-UPLOAD_CAPAS_GRUPO_LEYA_OFICINA

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi20 de fevereiro de 2015 às 01:57

    De outros, sei lá "nem vento, nem casamento"...Em Espanha o livro idem?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ahahah!
      Perspicaz Cláudia... mas "olhe que não, olhe que não!" . De Espanha além do flamenco, da Luz Casal da Ana Belén, da Concha Buika, do Angel Perera e el Juli, dos encastes Miura, de Goya, Picasso e Dali, do presunto pata-negra, do queso manchego, das cocotxas, do pulpo, do bacallao à Vizcaiña, das botifarras , da caña de lomo embutido, do coñac Lepanto e Carlos V, da manzanilla, também vêm bons ventos de leitura com o Dellibes, Cela e Lorca... e mulheres tão extraordinárias como a Penélope Cruz!

      Nem sempre os adágios sejam levados a sério... e bom fim de semana, Extraordinário, aqui já da Cidade Morena!

      Eliminar
    2. Bolas... e como pude esquecer um vulto maior do pensamento e da escrita:

      - Ortega y Gasset???

      Eliminar
  2. Assim de repente, lembrei-me de «História de um Repórter» do Antonioni.

    ResponderEliminar
  3. Parece promissor sim!

    O autor, talvez não por acaso licenciado em filosofia, é exímio nessa área da memória e do olhar para trás, em busca do tempo perdido?

    Deverá ser um excelente livro.

    Um Extraordinário fim de semana para todos os Extraordinários, aqui da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  4. Anotei, até porque ando com interesse em conhecer o que literariamente se produz presentemente em Espanha.

    ResponderEliminar
  5. De Espanha vieram para mim bons amigos. E têm vindo bons livros, como o Feitiço de Changai que ando a ler.
    Gosto muito deste título.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório