Herberto
Se nos perguntam lá fora sobre a poesia portuguesa, há um nome que nos vem aos lábios sem quase pensarmos: Herberto Helder. Se pedem que indiquemos o nome de um autor português que deveria ser proposto para um superprémio literário, dizemos logo Herberto Helder, embora sabendo que o recusaria (porque ele é mesmo assim). Herberto – como se lhe referem quase todos – pode ser um homem peculiar e difícil, mas julgo que se diverte muito a, de tempos a tempos, reformular a sua obra completa, oferecendo-nos um novo volume, que não é de modo nenhum o anterior acrescentado com o que escreveu entretanto, mas um livro do qual cortou o que quis que não voltássemos a ler e a que somou alguma coisa. Este gesto tem sido objecto de muita reflexão e crítica, mas tenho simpatia por um autor que decide sozinho sobre a própria obra e só permite que dela se leia o que, em determinado momento, lhe dá na gana (bem sei que tenho volumes anteriores da obra reunida e talvez por isso me sinta menos lesada do que muito boa gente). Isto para dizer que temos de novo uma antologia da poesia de Herberto Helder, desta vez com o título Poemas Completos. Um excelente livro cartonado de capa sóbria com 700 e tal páginas de poesia a não perder (e a guardar, pois pode desaparecer na próxima edição). Não sei qual foi a tiragem, nem se haverá uma espécie de caça doentia aos livros, mas lá que dava um bom presente de Natal, se chegasse até ao Natal, lá isso dava.
Esperemos que o livro do herberto Hélder não seja como o Skovdal (treinador benfiquista) e passe cá o natal. Eu vou já pegar nele, pelo sim, pelo não. Um beijinho e bom fim de semana. :-)
ResponderEliminarGosto muito deste:
ResponderEliminarMaldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Saudações poéticas da Cidade Morena, onde há catanas em vez de espadas, mantilhas atrás das quais correm moças, sejam ou não de oiro... e maçãs são coisa rara, cara e preciosa mas se aparecerem bem que as crianças correrão atrás delas! Por isso e por enquanto, atiram pedras às mangas penduradas nas árvores!
Sempre há as maçãs da Índia, que de fora só têm o nome. Ainda são vistas por aí?
EliminarOs maboques e as goiabas também dão belos poemas. As pitangas também ...
Já as pedradas .... assentariam muito bem na cabeça de alguns ...... (lol)
(O Pacheco adora Poesia!)
Quando o Herberto Hélder é o poeta português em que se pensa para divulgar lá fora, muita coisa vai mal na literatura nacional.
ResponderEliminarO meu já cá canta. É o único que tenho dele. E talvez por ser um homem difícil faça tanto furor entre os leitores e assim agite o mercado cada vez que sai um livro seu. No entanto, este é caro e, por isso mesmo, quiçá aguente o passar do Natal. E sim, Herberto Helder é grande em poesia.
ResponderEliminarBom fim de semana
Carla Pais
Espero bem que Herberto não me tenha abolido este:
ResponderEliminar«Não sei como dizer-te
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei como dizer-te, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
(...)»
Oxalá me tenha conservado este, porque
«(...) não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe
o amor,
que te procuram.»
Eu tenho três primeiras edições do Herberto à cabeceira nham,nham,nham,nham,nha. Têm um ar amolentado e ainda não as li. Estão à minha espera, que os livros são assim, pacientes. Portugal, não é por nada, mas tem bons poetas. Há vida além de Herberto.
ResponderEliminarMas não me pertencem. Terei que as devolver:( depois de curti-las. Também não creio que o menino Jesus possa com o tal volume de poesia reunida.
É como dizia Almada, não se pode ler tudo na vida. E havemos de nos salvar de outra maneira.
Sem churumelas hoje é dia 5 e há de ser o dia de (qualquer) santo!
ResponderEliminarÉ fácil, Cláudia: vai-se à net e – milagre! – vê-se que hoje é o dia de São Sabas.
EliminarMorreu a 5 de dezembro de 532, na Palestina, aos noventa e três anos de idade.
A festa em sua honra ocorre no dia de sua morte.
E vê-se também que ele não era cá de chorumelas: – Interferiu junto ao imperador, em Constantinopla, a favor dos mais pobres contra os impostos.
A falta que ele nos faz...
Muito bom! Tive a oportunidade também (diga-se coincidente) trabalhar com um Engenheiro Naval Saba.
EliminarÓ Joaquim Jordão... à net???
EliminarEntão e o borda d'água para que serve????
Trás tudo que é efeméride!
Saudações sabáticas cá da Cidade Morena!
(As últimas deste ano, pois largo amanhã para o meu Bairro Ribatejano! Consta que as cadelas estão gordíssimas e as perdizes cheias de saudades minhas...)
Acredito que o HH seja um génio; acredito simplesmente porque acredito nos extraordinários que aqui escrevem o dizem, mas, meus amigos, desçam à terra : só meia dúzia de intelectuais (sem qualquer intenção pejorativa) conhecem o génio, eu, sinceramente, do HH conheço ZERO, logo se HH deveria ser proposto para um superprémio literário vou ali e já venho...
ResponderEliminarEheheh!
EliminarÓ Severino... estás sempre a tempo de o conhecer, olha faz como o Jordão... vai à net!!!
Abraço internauta da Cidade Morena!
Se vai e vem fosse e viesse, vai-e-vem ía, mas vai-e-vem vai e não vem, vai-e-vem não vai; entendeu Severino?!
ResponderEliminarGénio é topete!
"O amor em visita" é lindo!!!
ResponderEliminarIsabel
Foi a pensar em homens como Herberto Helder e Gonçalo Tavares que escrevi Moolb , o reverso. Como o Herberto, que faz o que lhe dá na real gana, também Gonçalo Tavares não se importa com o cânone ou o politicamente, perdão, o literariamente correcto. Em homenagem aos dois um trecho de Moolb .
ResponderEliminar«Nas ruas e avenidas abertas não havia nada de tão significante que o fizesse lembrar haver um mundo diferente dos outros mundos.
O mesmo frenesim, a mesma urgência, a mesma distância, a mesma sensação de caminhar para, esquecendo o inevitável. Em pouco tempo embrenhava-se então em ruas cada vez mais estreitas, onde paulatinamente a sensação era de tempo parado, como aquelas brincadeiras de criança que à distância de um stop levavam a uma posição de estátua.
Os próprios transeuntes afiguravam mover-se em acção-reacção lenta. O seu movimento de pernas e braços parecia não se fazer em ciclos contínuos completos. Eram agora visíveis a olho nu, agonistas e antagonistas, actores e espectadores, Blooms e Inversos, captados ao pormenor por uma velocidade muito lenta de obturador (ou seria rápida?)... cada trajectória da vida como se o espaço tivesse perdido para sempre o segredo escondido entre dois momentos... a ingenuidade nem sempre é involuntária. E, pela segunda vez, um estrondo intenso abalou os seus alicerces de homem prevenido, ou do estratega que evita e não afronta a sorte (e o azar) no lugar que sabe estrategicamente ser mais conveniente.
Quando dobrou a esquina, atraído pela explosão e pelo cheiro a enxofre, a casa de oração confundia-se com a praça rodeada de um espesso fumo branco, com um halo a misericórdia a encimar-lhe a fachada. Ainda se divisavam espíritos a abandonar indolentemente os corpos, chorosos e desgostosos por cá deixarem os seus entes queridos. PAS , MOOLB , Pág. 65)
A poesia de HH vive muito da fascinação dos seus leitores sobre a personagem enigmática que o autor criou. Será um homem muito inteligente: é-me permitido ver a reflexão dos seus genes no Daniel Oliveira. É uma poesia para poetas, para eleitos. Eu, infelizmente, não pertenço a esse número.
ResponderEliminarÓ Artur! – “Enigmático”? (…) porém “muito inteligente”?
Eliminar“É para eleitos”? mas tu “Não pertences a esse número”? – Tu não te menorizes! Tem-me mais cuidado com o que dizes, pá!
Fazes-me lembrar o Cesário Verde em “Contrariedades”:
«Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.
(…)»
E essa de o HH ser “Tipo Daniel Oliveira”?! – Tu vê lá com quem é que te estás a meter, pá!!
Ainda vais parar à jaula, e depois, contrariado, de lá – que remédio – escreves, como o Cesário:
«Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.
(…)
Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.
(…)»
Desculpa-me lá isto, pá.
É que já beberriquei umas coisas,
fumei uma data de cigarros, consecutivamente
não posso tolerar os comentários bizarros
estou cruel, frenético, exigente…
Muito obrigado pelo seu excelente texto.
EliminarEu, de facto, e é com tristeza que o confesso, não entendo (nem sinto) nada quando leio a poesia (ou a prosa) do Herberto Hélder (e já fiz repetidas tentativas para a entender).
Ele é, para mim, o mais marginal e ao mesmo tempo, paradoxalmente, o mais mainstream, do grupo de criadores excêntricos nacionais que estão vivos.
O Luiz Pacheco era outro tipo de excêntrico literário e, no caso dele, considero que a genialidade de algumas das suas obras é indesmentível.
Uma biografia romanceada de HH e LP, que se conheceram bem, e dos seus pares da boémia lisboeta, daria uma bela peça de ficção e um excelente retrato das marginalidades do tempo do salazarismo...
Ora essa, pá! Não ficas obrigado a nada.
EliminarQuanto à sugestão da biografia romanceada de HH e LP: – Como dizer? Ao que sei, as vidas e as obras deles são de tal modo sui-generis que, só por si, tornam talvez impossível que alguém consiga, como dizer? romanceá-las ainda mais.
Mas quem sabe? Pois não e o próprio HH que diz que «o centeio imaturo ondula tocado / pelo pressentir de um tempo distante»?
Fica-te com esta, que não tenho aqui mais trocos.
Revejo-me neste comentário do Extraordinário Artur Águas!
EliminarCreio que é a prova provada de que não há ninguém perfeito - ou muito poucos... e que há momentos, fases... os artistas são como os demais, Homens... sujeitos as essas variações ou flutuações. É a diversidade no seu melhor a quem sabe, a forma de eles chegarem a todos nós, ou se não a todos pelo menos, a mais alguns do que checariam se fossem sempre iguais.
Será?
Saudações bucólicas do Bairro Ribatejano.
Obrigado pelo comentário, caro amigo Pacheco ! A maior beleza da condição humana é a sua diversidade, de caras, de emoções, de talentos, de gostos... Tiremos partido disso !
EliminarPoesia:
ResponderEliminarhttp://poesiavimbuscarte.wordpress.com/
Excelente sugestão ! Visitarei o site. Obrigado.
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