Herberto

Se nos perguntam lá fora sobre a poesia portuguesa, há um nome que nos vem aos lábios sem quase pensarmos: Herberto Helder. Se pedem que indiquemos o nome de um autor português que deveria ser proposto para um superprémio literário, dizemos logo Herberto Helder, embora sabendo que o recusaria (porque ele é mesmo assim). Herberto – como se lhe referem quase todos – pode ser um homem peculiar e difícil, mas julgo que se diverte muito a, de tempos a tempos, reformular a sua obra completa, oferecendo-nos um novo volume, que não é de modo nenhum o anterior acrescentado com o que escreveu entretanto, mas um livro do qual cortou o que quis que não voltássemos a ler e a que somou alguma coisa. Este gesto tem sido objecto de muita reflexão e crítica, mas tenho simpatia por um autor que decide sozinho sobre a própria obra e só permite que dela se leia o que, em determinado momento, lhe dá na gana (bem sei que tenho volumes anteriores da obra reunida e talvez por isso me sinta menos lesada do que muito boa gente). Isto para dizer que temos de novo uma antologia da poesia de Herberto Helder, desta vez com o título Poemas Completos. Um excelente livro cartonado de capa sóbria com 700 e tal páginas de poesia a não perder (e a guardar, pois pode desaparecer na próxima edição). Não sei qual foi a tiragem, nem se haverá uma espécie de caça doentia aos livros, mas lá que dava um bom presente de Natal, se chegasse até ao Natal, lá isso dava.

Comentários

  1. Esperemos que o livro do herberto Hélder não seja como o Skovdal (treinador benfiquista) e passe cá o natal. Eu vou já pegar nele, pelo sim, pelo não. Um beijinho e bom fim de semana. :-)

    ResponderEliminar
  2. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2014 às 02:23

    Gosto muito deste:

    Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
    Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
    Correram os rapazes à procura da espada,
    e as raparigas correram à procura da mantilha,
    e correram, correram as crianças à procura da maçã.

    Saudações poéticas da Cidade Morena, onde há catanas em vez de espadas, mantilhas atrás das quais correm moças, sejam ou não de oiro... e maçãs são coisa rara, cara e preciosa mas se aparecerem bem que as crianças correrão atrás delas! Por isso e por enquanto, atiram pedras às mangas penduradas nas árvores!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sempre há as maçãs da Índia, que de fora só têm o nome. Ainda são vistas por aí?

      Os maboques e as goiabas também dão belos poemas. As pitangas também ...

      Já as pedradas .... assentariam muito bem na cabeça de alguns ...... (lol)

      (O Pacheco adora Poesia!)

      Eliminar
  3. Quando o Herberto Hélder é o poeta português em que se pensa para divulgar lá fora, muita coisa vai mal na literatura nacional.

    ResponderEliminar
  4. O meu já cá canta. É o único que tenho dele. E talvez por ser um homem difícil faça tanto furor entre os leitores e assim agite o mercado cada vez que sai um livro seu. No entanto, este é caro e, por isso mesmo, quiçá aguente o passar do Natal. E sim, Herberto Helder é grande em poesia.

    Bom fim de semana
    Carla Pais

    ResponderEliminar
  5. Espero bem que Herberto não me tenha abolido este:

    «Não sei como dizer-te

    Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
    e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
    esplêndida e vasta.
    Não sei como dizer-te, quando longamente teus pulsos
    se enchem de um brilho precioso
    e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
    iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
    pelo pressentir de um tempo distante,
    e na terra crescida os homens entoam a vindima
    - eu não sei como dizer-te que cem ideias,
    dentro de mim, te procuram.
    (...)»

    Oxalá me tenha conservado este, porque

    «(...) não sei como dizer-te sem milagres
    que dentro de mim é o sol, o fruto,
    a criança, a água, o deus, o leite, a mãe
    o amor,

    que te procuram.»

    ResponderEliminar
  6. Eu tenho três primeiras edições do Herberto à cabeceira nham,nham,nham,nham,nha. Têm um ar amolentado e ainda não as li. Estão à minha espera, que os livros são assim, pacientes. Portugal, não é por nada, mas tem bons poetas. Há vida além de Herberto.

    Mas não me pertencem. Terei que as devolver:( depois de curti-las. Também não creio que o menino Jesus possa com o tal volume de poesia reunida.
    É como dizia Almada, não se pode ler tudo na vida. E havemos de nos salvar de outra maneira.

    ResponderEliminar
  7. Claudia da Silva Tomazi5 de dezembro de 2014 às 04:55

    Sem churumelas hoje é dia 5 e há de ser o dia de (qualquer) santo!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É fácil, Cláudia: vai-se à net e – milagre! – vê-se que hoje é o dia de São Sabas.
      Morreu a 5 de dezembro de 532, na Palestina, aos noventa e três anos de idade.
      A festa em sua honra ocorre no dia de sua morte.

      E vê-se também que ele não era cá de chorumelas: – Interferiu junto ao imperador, em Constantinopla, a favor dos mais pobres contra os impostos.
      A falta que ele nos faz...

      Eliminar
    2. Claudia da Silva Tomazi5 de dezembro de 2014 às 05:40

      Muito bom! Tive a oportunidade também (diga-se coincidente) trabalhar com um Engenheiro Naval Saba.

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2014 às 06:44

      Ó Joaquim Jordão... à net???

      Então e o borda d'água para que serve????
      Trás tudo que é efeméride!

      Saudações sabáticas cá da Cidade Morena!
      (As últimas deste ano, pois largo amanhã para o meu Bairro Ribatejano! Consta que as cadelas estão gordíssimas e as perdizes cheias de saudades minhas...)

      Eliminar
  8. Acredito que o HH seja um génio; acredito simplesmente porque acredito nos extraordinários que aqui escrevem o dizem, mas, meus amigos, desçam à terra : só meia dúzia de intelectuais (sem qualquer intenção pejorativa) conhecem o génio, eu, sinceramente, do HH conheço ZERO, logo se HH deveria ser proposto para um superprémio literário vou ali e já venho...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2014 às 07:23

      Eheheh!
      Ó Severino... estás sempre a tempo de o conhecer, olha faz como o Jordão... vai à net!!!

      Abraço internauta da Cidade Morena!

      Eliminar
  9. Claudia da Silva Tomazi - bom fs5 de dezembro de 2014 às 07:22

    Se vai e vem fosse e viesse, vai-e-vem ía, mas vai-e-vem vai e não vem, vai-e-vem não vai; entendeu Severino?!

    Génio é topete!

    ResponderEliminar
  10. "O amor em visita" é lindo!!!
    Isabel

    ResponderEliminar
  11. Foi a pensar em homens como Herberto Helder e Gonçalo Tavares que escrevi Moolb , o reverso. Como o Herberto, que faz o que lhe dá na real gana, também Gonçalo Tavares não se importa com o cânone ou o politicamente, perdão, o literariamente correcto. Em homenagem aos dois um trecho de Moolb .
    «Nas ruas e avenidas abertas não havia nada de tão significante que o fizesse lembrar haver um mundo diferente dos outros mundos.
    O mesmo frenesim, a mesma urgência, a mesma distância, a mesma sensação de caminhar para, esquecendo o inevitável. Em pouco tempo embrenhava-se então em ruas cada vez mais estreitas, onde paulatinamente a sensação era de tempo parado, como aquelas brincadeiras de criança que à distância de um stop levavam a uma posição de estátua.
    Os próprios transeuntes afiguravam mover-se em acção-reacção lenta. O seu movimento de pernas e braços parecia não se fazer em ciclos contínuos completos. Eram agora visíveis a olho nu, agonistas e antagonistas, actores e espectadores, Blooms e Inversos, captados ao pormenor por uma velocidade muito lenta de obturador (ou seria rápida?)... cada trajectória da vida como se o espaço tivesse perdido para sempre o segredo escondido entre dois momentos... a ingenuidade nem sempre é involuntária. E, pela segunda vez, um estrondo intenso abalou os seus alicerces de homem prevenido, ou do estratega que evita e não afronta a sorte (e o azar) no lugar que sabe estrategicamente ser mais conveniente.
    Quando dobrou a esquina, atraído pela explosão e pelo cheiro a enxofre, a casa de oração confundia-se com a praça rodeada de um espesso fumo branco, com um halo a misericórdia a encimar-lhe a fachada. Ainda se divisavam espíritos a abandonar indolentemente os corpos, chorosos e desgostosos por cá deixarem os seus entes queridos. PAS , MOOLB , Pág. 65)

    ResponderEliminar
  12. A poesia de HH vive muito da fascinação dos seus leitores sobre a personagem enigmática que o autor criou. Será um homem muito inteligente: é-me permitido ver a reflexão dos seus genes no Daniel Oliveira. É uma poesia para poetas, para eleitos. Eu, infelizmente, não pertenço a esse número.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ó Artur! – “Enigmático”? (…) porém “muito inteligente”?
      “É para eleitos”? mas tu “Não pertences a esse número”? – Tu não te menorizes! Tem-me mais cuidado com o que dizes, pá!
      Fazes-me lembrar o Cesário Verde em “Contrariedades”:
      «Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
      Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
      Incrível! Já fumei três maços de cigarros
      Consecutivamente.
      (…)»

      E essa de o HH ser “Tipo Daniel Oliveira”?! – Tu vê lá com quem é que te estás a meter, pá!!
      Ainda vais parar à jaula, e depois, contrariado, de lá – que remédio – escreves, como o Cesário:
      «Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
      Tanta depravação nos usos, nos costumes!
      Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
      E os ângulos agudos.
      (…)
      Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
      Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
      Independente! Só por isso os jornalistas
      Me negam as colunas.
      (…)»

      Desculpa-me lá isto, pá.
      É que já beberriquei umas coisas,
      fumei uma data de cigarros, consecutivamente
      não posso tolerar os comentários bizarros
      estou cruel, frenético, exigente…

      Eliminar
    2. Muito obrigado pelo seu excelente texto.
      Eu, de facto, e é com tristeza que o confesso, não entendo (nem sinto) nada quando leio a poesia (ou a prosa) do Herberto Hélder (e já fiz repetidas tentativas para a entender).
      Ele é, para mim, o mais marginal e ao mesmo tempo, paradoxalmente, o mais mainstream, do grupo de criadores excêntricos nacionais que estão vivos.
      O Luiz Pacheco era outro tipo de excêntrico literário e, no caso dele, considero que a genialidade de algumas das suas obras é indesmentível.
      Uma biografia romanceada de HH e LP, que se conheceram bem, e dos seus pares da boémia lisboeta, daria uma bela peça de ficção e um excelente retrato das marginalidades do tempo do salazarismo...

      Eliminar
    3. Ora essa, pá! Não ficas obrigado a nada.

      Quanto à sugestão da biografia romanceada de HH e LP: – Como dizer? Ao que sei, as vidas e as obras deles são de tal modo sui-generis que, só por si, tornam talvez impossível que alguém consiga, como dizer? romanceá-las ainda mais.
      Mas quem sabe? Pois não e o próprio HH que diz que «o centeio imaturo ondula tocado / pelo pressentir de um tempo distante»?

      Fica-te com esta, que não tenho aqui mais trocos.

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco8 de dezembro de 2014 às 05:12

      Revejo-me neste comentário do Extraordinário Artur Águas!

      Creio que é a prova provada de que não há ninguém perfeito - ou muito poucos... e que há momentos, fases... os artistas são como os demais, Homens... sujeitos as essas variações ou flutuações. É a diversidade no seu melhor a quem sabe, a forma de eles chegarem a todos nós, ou se não a todos pelo menos, a mais alguns do que checariam se fossem sempre iguais.

      Será?

      Saudações bucólicas do Bairro Ribatejano.

      Eliminar
    5. Obrigado pelo comentário, caro amigo Pacheco ! A maior beleza da condição humana é a sua diversidade, de caras, de emoções, de talentos, de gostos... Tiremos partido disso !

      Eliminar
  13. Poesia:

    http://poesiavimbuscarte.wordpress.com/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Excelente sugestão ! Visitarei o site. Obrigado.

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório