Compras no estrangeiro

Uma vez fui a um festival de escritores nos arredores de Genebra, cujo país convidado era Portugal; e, numa manhã, Agustina Bessa-Luís convidou-me para a acompanhar, a ela e a Lídia Jorge, à cidade. Havia um outro poeta que estava interessado em ir connosco, Fernando Echevarría, mas a senhora do Norte tornou imediatamente claro que aquela excursão era apenas para mulheres. Pouco depois, percebi porquê: Agustina queria ir comprar, entre outras coisas, malas e sapatos (e até sabia onde ficavam as lojas que queria visitar e trazia os catálogos assinalados). Ao que parece, fazia-o sempre que se deslocava ao estrangeiro para festivais de escritores e contaram-me, a este respeito, uma história maravilhosa. Tendo sido convidada para um encontro de mulheres escritoras na Turquia, Agustina calhou numa mesa com uma palestiniana e uma israelita (além de uma outra portuguesa, que foi quem partilhou a história recentemente). Acontece que, na mesa em questão, os ânimos se inflamaram, e as escritoras da Palestina e de Israel, como era esperado, começaram uma discussão azeda que parecia não ter fim. Então, Agustina ter-se-á aproximado da sua conterrânea e ter-lhe-á sussurrado ao ouvido qualquer coisa como: «Ora bolas, e eu que só cá vim para comprar uns tapetes...»

Comentários

  1. António Luiz Pacheco14 de março de 2014 às 02:52

    Ahahah!

    Só podia ser assim... o pragmatismo de uma inteligência que é de facto superior.

    E o humor, claro... o sublimar dessa inteligência.

    Saudações kaluandas

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  2. os livros de Agustina são [ para lá do romanesco, da cronica de costumes] verdadeiros tratados sobre o entendimento humano || estão repletos de pequenas frases que apenas as qualidades de um espirito muito dotado de cultura memoria subtileza poderia ditar | Agustina é, apesar de não se valer de um estilo exuberante, dentro e fora dos livros, de uma inteligência [feminina] sem par

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  3. Não pude deixar de sorrir quando li essa história em livro recentemente editado.
    A Agustina, para além de ser uma grande, enorme escritora, é uma Senhora extremamente inteligente e com um extraordinário sentido de humor.
    Antonieta

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  4. Claudia da Silva Tomazi14 de março de 2014 às 06:14

    De táxi.

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  5. Agustina não é uma das minhas escritoras preferidas, mas conheço-lhe a boa prosa. Segundo tenho lido, sempre gostou de compras. E tem sentido de humor. Li em algum lugar que por vezes se atrasava para as conferências por se perder nas compras. Não faço ideia se é verdade; e a sê-lo, se se perdia no literal de si mesma ou era mais um desbarato de compras que a fazia esquecer o tempo.

    É engraçado verificar que os escritores são tão mortais quanto nós no que toca ao que não seja a profissão. A tal que tb os liberta a lei da morte.

    .

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  6. "Ela por Ela"

    Agustina Bessa-Luis | Maria João Seixas
    |dvd 2006|

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  7. Soa mesmo a Agustina. :)

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  8. Ahahah, o que eu gosto mais é do cão, que parece estar a pensar: estes humanos devem estar loucos!
    :-)
    Antonieta

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    1. Ups, este comentário não era para aqui...
      ;-)
      Antonieta

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  9. Seríamos tão tolerantes se, em vez da Agustina fosse, por exemplo, a Margarida Rebelo Pinto?

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