A boca grande

Nas férias, fiz bastantes caminhadas a pé (dizem que tira o stress – e eu estava a precisar de me desembaraçar dele) e, numa delas, fui dar a uma feira do livro armada numa tenda em frente da praia da Ericeira – o que seria inescapável, dirão alguns. Pois foi aí que, por meros 2 Euros, comprei um livrinho de Dostoiévski chamado O Crocodilo, deliciosa leitura para duas horas a olhar o mar, porque o mestre russo sabe deleitar-nos como ninguém com qualquer meia dúzia de palavras. Um funcionário público (russo, claro) vai com a mulher e um amigo (o narrador) ver um crocodilo que está em exposição numa galeria muito badalada; e tanto faz para mostrar à sua belíssima e enojada esposa que o bicho é inofensivo que acaba por ser engolido vivo por ele. O problema é que o funcionário engolido é público, mas o crocodilo esfomeado é propriedade privada – e, ainda por cima, de um alemão, que não está disposto a perder a receita dos bilhetes para salvar o senhor presumido que, apesar do acidente, continua a falar do oco do monstro e já se alegra com o número de visitantes que a situação vai atrair e no quanto isso lhe vai render – um fanfarrão que fala demais, tem boca grande e desiste de ser salvo só para que os jornais tenham qualquer coisa para dele dizer…

Comentários

  1. António Luiz Pacheco9 de setembro de 2013 às 01:53

    Pois... isso parece uma fábula dos nossos dias!
    Eheheh!
    Há quem fosse capaz de se arrojar nas fauces de qualquer animal, nem que seja a opinião pública e os media, para que se fale de si...

    E não é isso mesmo que faz dele (Dostoyevsky) e de outros, aquilo que se chama "clássicos"?

    Boa e Extraordinária semana "a tutti"!

    Saudações kaluandas

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  2. Ehehe, O Crocodilo. Gosto muito desse conto. Adoro a caricatura. E tenho uma edição já antiguinha dessa história.

    Continuação de boas leituras,
    Decano

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  3. Comprei a edição desse conto, creio que seja a mesma, em circunstâncias semelhante e a leitura foi uma mistura de deleite e espanto.

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  4. Gostei muito da sua entrevista no "Bairro alto". Quando fez referência à forma como escreve, à existência de um sujeito poético nos seus textos, ocorreram-me as palavras da goense Eunice Souza: "Don't look for my life in these poems". :)

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  5. Que delícia de texto! Vieram-me à cabeça expressões como «coitadinho do crocodilo» (de uma anedota - conhecem?), «o preço da fama» e «os fins justificam os meios».
    E também me ocorreu que algumas pessoas querem tanto ser famosas que a «carapaça» que constroem à sua volta as aprisiona (e isola) como se estivessem dentro de um crocodilo. E por mais tempo, o que não é necessariamente bom.

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  6. Oh! Acho que não há crocodilos que cheguem. Coitadinhos dos crocodilos.

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  7. Claro que gostei da entrevista no "BAIRRO ALTO".

    Que charme !

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  8. ai, coitadinho do crocodilo...

    ainda muito actual, como quase todas as fábulas, aliás.

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  9. É por estas e por outras que gosto tanto de Dostoiévski. O "crocodilo" ainda não li, mas as "Noites brancas" encantaram-me.

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