A boca grande
Nas férias, fiz bastantes caminhadas a pé (dizem que tira o stress – e eu estava a precisar de me desembaraçar dele) e, numa delas, fui dar a uma feira do livro armada numa tenda em frente da praia da Ericeira – o que seria inescapável, dirão alguns. Pois foi aí que, por meros 2 Euros, comprei um livrinho de Dostoiévski chamado O Crocodilo, deliciosa leitura para duas horas a olhar o mar, porque o mestre russo sabe deleitar-nos como ninguém com qualquer meia dúzia de palavras. Um funcionário público (russo, claro) vai com a mulher e um amigo (o narrador) ver um crocodilo que está em exposição numa galeria muito badalada; e tanto faz para mostrar à sua belíssima e enojada esposa que o bicho é inofensivo que acaba por ser engolido vivo por ele. O problema é que o funcionário engolido é público, mas o crocodilo esfomeado é propriedade privada – e, ainda por cima, de um alemão, que não está disposto a perder a receita dos bilhetes para salvar o senhor presumido que, apesar do acidente, continua a falar do oco do monstro e já se alegra com o número de visitantes que a situação vai atrair e no quanto isso lhe vai render – um fanfarrão que fala demais, tem boca grande e desiste de ser salvo só para que os jornais tenham qualquer coisa para dele dizer…
Pois... isso parece uma fábula dos nossos dias!
ResponderEliminarEheheh!
Há quem fosse capaz de se arrojar nas fauces de qualquer animal, nem que seja a opinião pública e os media, para que se fale de si...
E não é isso mesmo que faz dele (Dostoyevsky) e de outros, aquilo que se chama "clássicos"?
Boa e Extraordinária semana "a tutti"!
Saudações kaluandas
Ehehe, O Crocodilo. Gosto muito desse conto. Adoro a caricatura. E tenho uma edição já antiguinha dessa história.
ResponderEliminarContinuação de boas leituras,
Decano
Comprei a edição desse conto, creio que seja a mesma, em circunstâncias semelhante e a leitura foi uma mistura de deleite e espanto.
ResponderEliminarGostei muito da sua entrevista no "Bairro alto". Quando fez referência à forma como escreve, à existência de um sujeito poético nos seus textos, ocorreram-me as palavras da goense Eunice Souza: "Don't look for my life in these poems". :)
ResponderEliminarQue delícia de texto! Vieram-me à cabeça expressões como «coitadinho do crocodilo» (de uma anedota - conhecem?), «o preço da fama» e «os fins justificam os meios».
ResponderEliminarE também me ocorreu que algumas pessoas querem tanto ser famosas que a «carapaça» que constroem à sua volta as aprisiona (e isola) como se estivessem dentro de um crocodilo. E por mais tempo, o que não é necessariamente bom.
Oh! Acho que não há crocodilos que cheguem. Coitadinhos dos crocodilos.
ResponderEliminarClaro que gostei da entrevista no "BAIRRO ALTO".
ResponderEliminarQue charme !
ai, coitadinho do crocodilo...
ResponderEliminarainda muito actual, como quase todas as fábulas, aliás.
É por estas e por outras que gosto tanto de Dostoiévski. O "crocodilo" ainda não li, mas as "Noites brancas" encantaram-me.
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