Ainda mais porque soube que ele não chegou a ver a minha homenagem, a “Fábula dos sapos e dos melros”, que lhe enviei por mail no dia em que, afinal, foi internado no hospital.
Como digo acima, enviei-lhe uma mensagem no dia em que, afinal, ele tinha sido hospitalizado.
Corro o risco de parecer pretensioso, por causa daquele meu mail que ele, portanto, não terá lido.
Por outro lado, as mensagens pendentes eram uma sua preocupação. “Vê se há mensagens…”.
E – que hei-de fazer? – este é um dos seus poemas que me marcou desde que se cruzou comigo.
Por causa, por exemplo, desta parte: “(…) Senhor, permite que algo permaneça, / alguma palavra ou alguma lembrança, / que alguma coisa possa ter sido / de outra maneira, / não digo a morte, nem a vida, / mas alguma coisa mais insubstancial (…)”.
Mas pelo seu todo.
Tenho este poema guardado na pasta de ficheiros “Versos/ escolhidos a dedo”. É daí que, correndo o risco, o transcrevo.
Porque é uma mensagem dele para nós, que não podemos correr o risco de deixar pendente.
“Vê se há mensagens
no gravador de chamadas; rega as roseiras; as chaves estão na mesa do telefone; traz o meu caderno de apontamentos (o de folhas sem linhas, as linhas distraem-me). Não digas nada a ninguém, o tempo, agora, é de poucas palavras, e de ainda menos sentido. Embora eu, pelos vistos, não tenha razão de queixa. Senhor, permite que algo permaneça, alguma palavra ou alguma lembrança, que alguma coisa possa ter sido de outra maneira, não digo a morte, nem a vida, mas alguma coisa mais insubstancial. Se não para que me deste os substantivos e os verbos, o medo e a esperança, a urze e o salgueiro, os meus heróis e os meus livros? Agora o meu coração está cheio de passos e de vozes falando baixo, de nomes passados lembrando-me onde as minhas palavras não chegam nem a minha vida Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.”
Como quem apresenta condolências a um amigo muito próximo, chego-me aqui para dizer que sinto muito, que estou muito triste.
As palavras de Manuel António Pina para sempre viverão dentro de nós mas sabemos que não nascerão mais palavras puras das suas mãos e isso é tão triste.
Deposito aqui neste lugar extraordinário (que me desculpe a Rosário, que são tão extraordinárias as horas que passamos a ler como as que passamos a escrever) um simples abraço ao Manuel António Pina.
O RETORNO DA POMBA
E aos 3 dias retornaste. Como um pássaro engaiolado Que voou para longe do lugar Que lhe enfraquecia os músculos, E enegrecia as penas. Doravante Construirei um lugar bonito A que chamarei pombal, Mesmo que a pomba branca Que me deste Esteja descolorida E magra, Incapaz da simplicidade De um gesto tão banal Como debicar Um minúsculo Gole de água. E ao terceiro dia retornaste Ainda batia eu O último prego Do beiral Onde repousas.
Não me preocupa a morte, porque o Pina não morreu: está apenas em parte incerta!
Naquele rectângulo pequeno versava acerca das nossas almas, dos nossos erros e enganos. Às vezes enfurecia-me, outras fazia-me rir, outras ainda deixava-me a pensar. Fui para o ver em Viana do Castelo... não apareceu, já então me apercebi que a sua saúde era periclitante... tal como o nosso país, este pequeno rectângulo... cheio de enganos... de nós górdios que temos de desatar ou cortar.
Estou triste porque ele já não me fará enfurecer... já não me fará rir.
Mas todas as morte fazem pensar...
Deixo aqui as minhas saudades de um encontro que nunca aconteceu para nos falar da sua poesia e obra... para o ouvir desentrelaçar-nos a sua ironia que, bem haja!... nunca me foi indiferente.
Estão aí todos? Mesmo todos? Espero bem que sim. Fecharam-se as portas da casa antiga para sempre e agora temos de viver neste apartamento experimental para onde trouxe o básico, mas que ainda necessitará provavelmente de umas obras. De vez em quando, farei os meus erros ou faltarei à chamada, tirando talvez tempo para aprender a arrumar este novo espaço. Veremos como corre. Por favor, vão dando o vosso feedback. Ora, num regresso ao passado, tomo o primeiro dia do mês para falar do melhor livro que li nas férias: chama-se Pirilampo e foi escrito por Natalia Litvinova, uma bielorrussa que vive em Buenos Aires desde os dez anos (foi para lá em 1996) e que escreve em espanhol, tendo ganho o Prémio Lumen de Romance com este seu livro que fala essencialmente de uma família que vivia muito perto de Chernobyl quando se deu a explosão na Central Nuclear e da influência desse incidente na vida de todos. Com avanços e recuos, a autora compõe as memórias (algumas inventadas) da narrad...
No dia do lançamento do novo romance de valter hugo mãe, encontrei imensa gente indignada com o facto de o autor da crítica ao livro publicada no Ípsilon da véspera – outro escritor (José Riço Direitinho) – lhe ter dado apenas duas estrelas e meia. A indignação, porém, não vinha só de se dar nota quase negativa ao romance (cinco estrelas é o máximo) – até porque algumas das pessoas escandalizadas ainda não o tinham lido –, mas de, nesse mesmo suplemento, terem sido classificados com quatro estrelas livros de autores de um nível literário francamente mais baixo, como José Rodrigues dos Santos ou Mónica Marques. Na verdade, se os leitores se guiarem por estas classificações para saberem que livros devem ou não ler, a situação pode ser perigosa e extremamente injusta, na medida em que qualquer das obras de um Escritor (com E), mesmo que gore de algum modo as expectativas dos seus leitores, será sempre infinitamente melhor leitura do que uma ficção menor. Parece-me, porém, que o critério ...
Há muitas razões para não se simpatizar com certas pessoas e empresas, e já sabemos que em Portugal somos peritos em detestar quem tem dinheiro e quem tem sucesso. Não surpreende, por isso, que ao primeiro desaire do festival Babell (o atraso do conferencista inaugural e a falta de auriculares para todos os membros do público ouvirem a tradução simultânea), caísse tudo em cima a martirizar os responsáveis. Foi chato, calculo, ficar duas horas ao sol à espera da vedeta (apesar de a organização do festival ter oferecido chapéus, no que esteve bem); e, segundo percebi, pior foi não se ter apercebido logo de que o alemão seria a língua de comunicação da estrela do Oriente e usar a IA para a tradução, o que provocou risadas em certos casos. Porém, sendo a primeira vez de um festival destas proporções, vá lá, podiam perdoar estas falhas, tanto mais que, ao que leio por todo o lado, o resto foi um absoluto sucesso e encheu as medidas de todos os que puderam assistir às conversas de gr...
Não posso crer!:(
ResponderEliminarEstou muito abalado com a notícia.
ResponderEliminarAinda mais porque soube que ele não chegou a ver a minha homenagem, a “Fábula dos sapos e dos melros”, que lhe enviei por mail no dia em que, afinal, foi internado no hospital.
Sim, saudade. Gratidão, também.
Portugal a empobrecer com o que tem de melhor.
ResponderEliminarNão tenho mais palavras.
Que pena...
ResponderEliminarEstou em choque! Não estava à espera de uma perda desta tão cedo. O que eu gostava das suas finas crónicas e da sua mestria no uso da nossa língua!
ResponderEliminarLamentável!
Corro o risco.
ResponderEliminarComo digo acima, enviei-lhe uma mensagem no dia em que, afinal, ele tinha sido hospitalizado.
Corro o risco de parecer pretensioso, por causa daquele meu mail que ele, portanto, não terá lido.
Por outro lado, as mensagens pendentes eram uma sua preocupação. “Vê se há mensagens…”.
E – que hei-de fazer? – este é um dos seus poemas que me marcou desde que se cruzou comigo.
Por causa, por exemplo, desta parte: “(…) Senhor, permite que algo permaneça, / alguma palavra ou alguma lembrança, / que alguma coisa possa ter sido / de outra maneira, / não digo a morte, nem a vida, / mas alguma coisa mais insubstancial (…)”.
Mas pelo seu todo.
Tenho este poema guardado na pasta de ficheiros “Versos/ escolhidos a dedo”. É daí que, correndo o risco, o transcrevo.
Porque é uma mensagem dele para nós, que não podemos correr o risco de deixar pendente.
“Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.”
Manuel António Pina, Cuidados Intensivos (1994)
Como quem apresenta condolências a um amigo muito próximo, chego-me aqui para dizer que sinto muito, que estou muito triste.
ResponderEliminarAs palavras de Manuel António Pina para sempre viverão dentro de nós mas sabemos que não nascerão mais palavras puras das suas mãos e isso é tão triste.
Deposito aqui neste lugar extraordinário (que me desculpe a Rosário, que são tão extraordinárias as horas que passamos a ler como as que passamos a escrever) um simples abraço ao Manuel António Pina.
ResponderEliminarO RETORNO DA POMBA
E aos 3 dias retornaste.
Como um pássaro engaiolado
Que voou para longe do lugar
Que lhe enfraquecia os músculos,
E enegrecia as penas.
Doravante
Construirei um lugar bonito
A que chamarei pombal,
Mesmo que a pomba branca
Que me deste
Esteja descolorida
E magra,
Incapaz da simplicidade
De um gesto tão banal
Como debicar
Um minúsculo
Gole de água.
E ao terceiro dia retornaste
Ainda batia eu
O último prego
Do beiral
Onde repousas.
Não me preocupa a morte, porque o Pina não morreu: está apenas em parte incerta!
Mas é tempo de falares
ResponderEliminartu, livro. Eu tenho dito.
Os Livros, MAP
Todas as coisas que a casa guardou quando partiste não me pertenceram
O canto do Vento nos Ciprestes, MRP
Naquele rectângulo pequeno versava acerca das nossas almas, dos nossos erros e enganos. Às vezes enfurecia-me, outras fazia-me rir, outras ainda deixava-me a pensar.
ResponderEliminarFui para o ver em Viana do Castelo... não apareceu, já então me apercebi que a sua saúde era periclitante... tal como o nosso país, este pequeno rectângulo... cheio de enganos... de nós górdios que temos de desatar ou cortar.
Estou triste porque ele já não me fará enfurecer...
já não me fará rir.
Mas todas as morte fazem pensar...
Deixo aqui as minhas saudades de um encontro que nunca aconteceu para nos falar da sua poesia e obra... para o ouvir desentrelaçar-nos a sua ironia que, bem haja!... nunca me foi indiferente.
Admiro-te António Pina...