Pessoa apaixonado

Há pouco tempo, publiquei aqui no blogue um post sobre o presumível fim de toda a correspondência publicável (a maioria dos e-mails não o serão, tenho quase a certeza); e parecia de propósito, nesse mesmo dia chegava às minhas mãos o volume que reúne a correspondência trocada entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, editada por Manuela Parreira da Silva e publicada recentemente pela Assírio & Alvim, que tem vindo a dar à estampa toda a obra do grande Pessoa. Chama-se Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz e, portanto, tem a respectiva leitura qualquer coisa de acto coscuvilheiro, pois não se trata apenas de literatura, mas de um universo pessoal e literariamente despreocupado (quiçá até um pouco ridículo, já que, segundo o Campos heterónimo, todas as cartas de amor acabam por sê-lo) que nos deixa ver ou, pelo menos, pressentir como era o génio quando gostava de alguém a sério. Acho uma felicidade que as cartas que o «Fernandinho» escreveu a Ofélia tenham sobrevivido e chegado até nós, já que as da própria Ofélia (o «Bebé») estariam, naturalmente, nas várias arcas do poeta de que já ouvimos falar. E, mesmo que esta não seja a primeira edição da correspondência, a verdade é que as cartas de uma e do outro só haviam sido publicadas separadamente, o que estraga completamente a perspectiva do namoro, aqui assegurada pela publicação cronológica das epístolas. Deliciemo-nos, pois, com um Pessoa apaixonado e uma rapariga que confessa, logo a abrir, que só não saiu do escritório onde ambos trabalham (podendo ganhar noutro bastante mais) por causa desse homem que fez de Portugal um país maior.

Comentários

  1. Interessante sempre gostei de pensar de forma diferente e nesta diferença assim também entre carta e correspondência em modéstia diferentes assuntos: motivos, passatempos, envolvimento, uma singela fatia da humanidade a cerca do construir o ser pensante e ama e esclarece e supera em virtudes anseios promissores eventos; assim o amor difere a cada movimento, carta, bilhete e nota e nem ou com necessariamente responder ao ser correspondido por corresponder a correspondência o sentido.

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    1. Saudavelmente rebuscado, como sempre, mas relacionado: "uma singela fatia de humanidade". Li parte das cartas e é isso: Pessoa era uma pessoa. Entretanto, parece estar já tudo em modo meia-final. Eu também.

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  2. ...confesso desconfiar muito do que a Biografia e, neste caso, a Epistolografia podem acrescentar à compreensão de uma produção literária. A menos que estejam dotadas de tal qualidade que, por si só, sejam consideradas "objectos" literários tal qual os ensaios, por exemplo.
    A biografia mostra mais de quem escreve do que de quem é biografado. E mesmo quando é uma autobiografia é óbvio que a visão incide só sobre determinados aspectos.
    A Epistolografia carece de autenticidade. Que luz pode incidir sobre determinado livro? Pode mostrar algo além do acessório? São dúvidas que tenho...

    Agora...como coscuvilhice...excelente. Mas eu quero lá saber se é gay ou não, se teve filhos, mulheres...! Tretas.

    Abraço para todos

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    1. Oh Mário o Paulo disse tudo: "Pessoa era uma pessoa".

      E não considero que este tipo de situações sejam tretas, isto são apenas situações da vida e que, naturalmente, serão de algum modo, curiosidades que não deixarão de ser interessantes por isso mesmo -curiosidades- parece-me que considerá-las tretas é o sentimento a puxar para o intelectualóide.

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    2. se acha que é a puxar para o intelectualóide ...está bem.
      São tretas. Não digo que tudo o seja. Deixei isso claro na minha mensagem. Penso que, simplesmente, a relação dessas informações distanciam-se do significado. Não adiantam nada à obra de determinado autor.

      E Pessoa é Pessoa, claro. No entanto, acho que é mais falado do que lido.

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    3. a relação dessas informações com a Estética de uma obra distanciam-se do significado.

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    4. O senhor está coberto de razão, ASeverino.

      ML Martinez

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  3. Por coicidência ou não, uma semana antes desta edição da Assírio e Alvim, eu tinha acabado de ler As cartas de Fernando Pessoa (da Ática).

    Ler lado a lado as correspondências será muito mais vantajoso para o leitor. Se bem que só as cartas de Pessoa são exímias.

    Boas leituras

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