Os leitores mais velhos
Penso muitas vezes que, se ainda tiver direito a reforma (o que é cada vez menos certo), terei imenso tempo para ler todos os livros que, por qualquer razão, ficaram quietos na estante ou interrompidos sem esperança de serem retomados. Mas a verdade é que também pode acontecer querer essa disponibilidade para outras coisas, eventualmente farta de não fazer outra coisa senão ler. O pai de uma amiga do Manel, que era um leitor voraz com uma biblioteca de fazer inveja a qualquer (leitor) mortal, quando se reformou acabou por tornar-se um espectador assíduo de telenovelas e perder a paciência para a leitura (que, já se sabe, exige muito mais de uma pessoa). O escritor António Alçada Baptista escreveu uma vez uma crónica sobre o assunto, dizendo que guardara os clássicos que não lera para a velhice, mas que, velho, não tinha vontade de os ler. Tenho esperança de, nisso, sair à minha mãe: é que todas as semanas tenho de lhe levar um livro diferente; e não só ela o papa rapidamente, como ainda se dá ao luxo de o criticar – e me criticar – se lhe levo um romance com menos sumo. Como já tem quase 88 anos, pode ser que eu lhe siga as pisadas...
Comigo está a passar-se o mesmo que aconteceu a Alçada Baptista.
ResponderEliminarFui sempre um leitor de vários livros em simultâneo.
Hoje, aos 63 anos e com tanto tempo disponível, leio um livro de cada vez, ao ritmo de um capítulo diário, se tanto.
Deixei quase de ler ficção -- quando muito suporto ler contos ou novelas curtas, que foram sempre os meus preferidos mesmo no tempo da juventude.
E às vezes volto a ler o Eça -- o Crime do Padre Amaro e os Maias -- embora leia muito sobre ele.
Ando há uns dias a ler um livro de ensaios que me ofereceram, Eça, de António Ramos de Almeida, edição da Livraria Latina, Porto, publicado em 1945 (ano do centenário de Eça de Queirós).
Muito interessante e original já lá descobri ideias e teses que vim mais tarde a encontrar noutros autores -- por exemplo, no Ernesto Guerra da Cal, no seu Língua e Estilo de Eça de Queirós (1.ª edição em 1954).
António Ramos de Almeida, autor que desconhecia totalmente até hoje, escrevia bem, com profundidade, e coisa muito apreciável -- não era nada chato.
Merecia ser reeditado.
Hoje está tudo a discutir os automóveis e os brincos dos jogadores da bola...
ResponderEliminargrande Mãe!
ResponderEliminarnão penso que irei ler mais com a velhice. até porque vamos perdendo faculdades com o tempo (especialmente a visão...)
eu leio muito menos, porque raramente ando de transportes públicos ou estou parado à espera de alguém ou de alguma coisa (cheguei a esperar mais de uma hora por pessoas que ia entrevistar e o livro era essencial para estas esperas...). tenhp menos tempos mortos na vida.
e como em casa só costumo ler antes de adormecer, na cama, o ritmo das leituras está fraquito...
gostava de voltar a ter uma actividade que me obrigasse a viajar de comboio, para passar as viagens a ler...
É um tema curioso e que amedronta...
ResponderEliminarTenho apenas 56 anos... por isso até aos 80 e tal ainda me falta quase uma vida! E, caramba, tanta coisa ainda por fazer!
Televisão... vejo menos do que nunca, a net acabou quase com ela - e ela mesma, diga-se!
Não consigo de prever nada para a velhice, mas
uma coisa eu sei, livros tenho com fartura! Por
aí estou descansado...
Bom fim de semana cá do campo!
Já tive de ir socorrer um jovem melro que a gata conseguiu apanhar!!! Agora é tempo da passarada nova e inocente e de os gatos se vingarem!
Não consigo "de" prever nada... credo!
EliminarDe onde é que isto apareceu?????
As minhas desculpas, fico embaraçado...
É a idade, meu caro, a que acresce a trapalhada dos correctores ortográficos que, com essa coisa do acordo ortográfico, a gente na nossa idade já nem sabe como lidar com isto.
EliminarAinda ontem à noite, no último comentáriozito que coloquei nos post anterior sobre a Química, acabei por deixar ir um erro ("eramos", em vez de "éramos") porque, no velho computador lá de casa, o corrector assinalava erro quando eu tinha escrito com o acento, e dava-me como alternativa "eram", e eu pensei: isto são as trapalhadas do acordo ortográfico, se calhar agora escreve-se sem acento, e de facto, tirando o acento não assinalava erro. Só hoje, num computador mais novo, verifiquei que afinal deveria ter levado o acento.
Enfim, são coisas da idade. Da idade dos computadores, digo eu...
Que conte muitos, e com saúde!
Um abraço
J. Jordão
Pelo contrário, temos os monstros sagrados da nossa praça, publicados pela Caminho e pela D. Quixote, que dizem coisas como "preciso fazer isto e necessito desfazer aquilo". Onde uns, sem querer, põem 'de', outros tiram-no propositadamente de onde ele devia estar. Ou então acham que são tão bons que podem mudar a língua a seu gosto. A mim soa-me malíssimo, quase nem os consigo ler por causa disso.
EliminarOlá, bom dia a todos.
ResponderEliminarÉ com tristeza neste momento em tantos acontecimentos: circunstância (des)necessária obra em destino a criatura, outrora resistira ao conceito e alongara-se aspectos e nem passageiro perfume o sabor da decência, sentimento maior da fé e a gratidão quisera ofertar a ciência a inteligência a Portugal; o tempo cumprira a missão eis da intensa amizade no sorriso acolhedor.
"(...) quando se reformou acabou por tornar-se um espectador assíduo de telenovelas e perder a paciência para a leitura (...)"
ResponderEliminarDe repente lembrei-me do avô do Valdemar em Deixem Falar as Pedras, de David Machado.
Não só critica os livros que vai lendo, mas também o estado do país e das suas gentes. A Zani é uma querida, oxalá ainda venha a ler muitos e bons livros !!
ResponderEliminarComo hoje estamos em tempos de bola: prognósticos só na reforma.
ResponderEliminarE dizia o jogador da bola fulo com uma entrevista que saíu como ele não queria: eles escrevem aquilo que eu digo e não aquilo que eu penso!
E amanhã se perdermos aqui vai o comentário dos jogadores, de qualquer um: é preciso levantar a cabeça!
Já dizia o velho Pedroto: os jogadores de futebol pensam com os pés!
E como eu gosto de futebol!
Saudações Leoninas
Tem piada, acontece-me precisamente o mesmo quando vou de férias: encho uma mala de livros, ponho-lhe um cinto à volta para não abrir (mala Linda de Suza ) e ao fim de um mês, se li um terço já é bom.
ResponderEliminarOs leitores mais velhos leram na biblioteca de Alexandria.
ResponderEliminarÉ um artigo interessante. Também eu possuo pouco tempo para ler - e posso dizer com toda a franqueza que gosto muito -, simplesmente não tenho tido oportunidade. Ainda bem que tem toda essa vivacidade, é sinal que gosta muito dos livros. Quanto ao seu blogue, bem, ainda é um dos meus preferidos ;)
ResponderEliminarIsto da disponibilidade para ler, ou manter outras actividades estimulantes, não é apenas uma questão de idade. Nos dias de hoje, a crise (des)conta muito.
ResponderEliminarAinda agora estive, como vem sendo rotina nos últimos tempos, para aí uns 60 minutos a encher cigarros para as próximas 24 horas destes dois fumadores, eu e a minha mulher. Fica cerca de dois terços mais barato. Mas custa umas horas de trabalho tiradas à leitura, à escrita, etc.
E muitas outras actividades domésticas são-me agora mais absorventes, levo-as com mais demoras – no regresso do emprego demoro mais tempo no supermercado, a verificar com cuidado os preços, as promoções, chego mais tarde a casa, antes de jantar ocupo-me a racionar com mais zelo as comidas das gatas e da cadela, ainda por cima elas são todas umas caprichosas, uma só gosta disto, outra só daquilo, a Maya só come se a minha mulher lhe for servir o jantar lá acima, no quarto, tipo room-service…, o que vale é que nos compensam com mimos; depois é preciso gerir as nossas próprias rações, ainda bem que temos o pretexto do colesterol e dessas maleitas da idade, comemos pouco e ligeiro, chega muito bem e ficamos com a consciência tranquila, e regra geral sobra sempre qualquer coisa que, ou dá para a bicharada, ou para a criatividade culinária da minha mulher no dia seguinte.
Depois ela vai para o face-book, ou farmville, ou lá o que é, enquanto eu fico por ali a arrumar as loiças na máquina, fazer iogurtes para a semana, ou torradas com o pão que sobra, ou coisas assim, conforme a rotina, ah! também separar o lixo, plástico para um saco, cartão para outro, enfim, falta ainda o café e o chá…
A seguir, tenho de ir molhar o pátio dos sapos – noutra oportunidade falarei deles, a quem arranjámos um habitat aqui mesmo junto à biblioteca onde estou neste momento, e eles ali a espreitar cá para dentro pela vidraça, quando não chove tenho de lhes molhar o espaço para eles andarem como gostam, às vezes não resisto e pego num deles, e ele comunica comigo numa espécie de código-morse que faz com os dedinhos envolvendo os meus dedos…
Acabados os cigarros de amanhã, enquanto o velho computador aquece e se resolve até me permitir fazer alguma coisa, há que esperar pelas 11h da noite para pôr as máquinas de lavar a funcionar, por causa daquela coisa do contador bi-horário, mais económico. Nesse entretanto vou lá fora com a cadela Sasha, atiro-lhe uma bola, ela corre um bocado a apanhá-la, só lhe faz bem mexer-se, eu faço uns movimentos respiratórios que me ensinaram, tipo zen, só me faz bem mexer-me…
Finalmente sento-me aqui, ponho música (um dia vos falarei da sensibilidade das nossas bichas para a música, particularmente a gata Teresinha e a Sasha…) e, passados de relance os sites de um ou dois jornais, leio os comentários que o pessoal fez ao post matinal de Maria do Rosário acerca dos leitores mais velhos, os que persistem, os que desistem – e não é que, não obstante a gravidade da problemática, me fixo obsessivamente num pormenor do comentário de Pacheco, pormenor de todo alheio ao tema, que é aquela cena de a gata dele ter caçado um melro?!
Ora bem: perante isto, em vez de ficar ali a envelhecer a ver televisão, ou a ler – ambas actividades passivas, meramente receptoras – o que me apetece é escrever.
A pretexto da gata do Pacheco e do melro que ela, com gratidão, lhe veio ofertar – tal como as nossas nos oferecem ratos, lagartixas… – ficava aqui de bom grado umas horas a inventar uma ficção qualquer, possivelmente uma fábula…
Olha! nunca me tinha ocorrido experimentar isso. Quem sabe?... As fábulas são uma temática eterna, haverá sempre pretexto para elas, hão-de perdurar… E mais agora, com estas coisas das alterações ambientais… Ainda bem que eu consegui criar aqui no pátio um refúgio para os sapos… E o Guilherme (meu neto), que adora vê-los activos, contentes…
Hoje já não, que foi um dia de trabalho, estou cansado. Vou dormir com a ideia. Mas amanhã, com mais tempo, que é fim-de-semana, se tudo rotinar como deve ser, sou muito capaz de me abalançar à fá
(...)
EliminarTalvez interrompa um bocado ao fim da tarde, para assistir ao futebol da selecção. Mas vejo de pé, mexo-me com eles, recebo os passes dos laterais, salto na pequena-área atrás do sofá para cabecear a bola, ou chuto-a contra a mesinha do cinzeiro, às vezes faço ferimentos nas canelas – mas marco eu os golos que eles não conseguem.
Em suma: é isto que recomendo aos que, da minha idade, leram com resignação o texto de Maria do Rosário e permanecem inactivos, ou com “actividades” meramente passivas (ver tv, ler…):
– Mexam-se! Criem! Pintem! Desenhem! Escrevam! Materializem ideias! Marquem golos, que ainda estão em boa idade!
Amanhã à noite quero ver os vossos comentários, em vez dos que farão o Paulo Bento, o Ronaldo, o Nani.
Até lá.
Joaquim Jordão
Cruzes, credo!! Com tanta coisa boa para fazer ia eu perder tempo com jogos da seleção !!
EliminarPuxa! Que grande prega! Nem aqui uma pessoa consegue descansar dessa obsessão coletiva ...:)
Bom, voltando ao que interessa:) : a avaliar pelo estado atual do país, não creio que vá ter muito tempo reforma. Muitos menos, uma reforma que dê para viver com grande desafogo financeiro. Por isso, quando olho para as estantes e vejo a imensidade de livros que vou comprando e que não chego a abrir, tenho a sensação que estou a olhar para o meu PPR ...Pelo menos livros não me faltarão. Só espero conservar os olhinhos...
" praga" e não "prega", obviamente!
EliminarOra aí temos um manual de vida... autêntico!
EliminarSe me permite Meu Caro J.Jordão .
E... uma série de lições, que me escuso apontar, pois cada qual deve tirar as que entenda... e não pretender dá-las!
Pela minha parte, tenho pensado que quando chegar a uma determinada idade - não sei qual mas quando lá chegar hei-de saber, espero! -
hei-de dedicar-me a escrevinhar sobre as minhas memórias, andanças e aventuras.
Desde novo comecei a apontar em caderninhos as coisas que depois me ajudem mais tarde a fazer reportagens, e um dia, hão-de ajudar a escrever sobre aquilo que valha a pena...
Por vezes perguntam-me para quando um livro de memórias de caça, de pesca submarina ou outras aventuras, e eu digo sempre que ainda estou na fase da recolha!
Resta saber que editora se interessará um dia por saber o que foi e como foi dirigir uma fazenda no Quanza Sul, ser mergulhador num estaleiro da Petromar no Ambriz e coisas do género...
Mas pelo menos há-de ficar escrito e recordar é viver? Onde é que eu ouvi isto?
<BR Amigo Jordão, a gata, volta não vai trás bicharada cá para dentro, eu digo que trás trabalho para casa!
Oh ana b. finalmente algo em que discordamos!!!Eu não sou obsessiva pelo futebol, de resto nem vejo os jogos dos clubes, mas a selecção??! E até pode ser o meu lado primário ou infantil a vir ao de cima mas confesso que antecipo com prazer esse momento (tenho de ir comprar uns amendoins para acompanhar a coisa). E mais, sabe que o momento que mais gosto é quando tocam o hino de Portugal, a sério, até choro!! Choro sempre com manifestações colectivas, em que sentimos a proximidade entre pessoas (como a solidariedade por Timor por exemplo), então deve ser isso, vejo a selecção como algo que pode agregar uma multidão (ou então é outra coisa qualquer que Freud haveria de explicar), Tente lá acrescentar mais um prazer aos outros que tem, é bom. Mas agora vou andando que tenho os amendoins para comprar!!
EliminarIsabel
Eu não digo que é uma obsessão coletiva !? Até você, chiça !!:) E eu que tinha tão boa impressão sua...:)
EliminarEntão, e os tremoços e as bejecas!? Dessa parte, eu gosto. Eheheheh
Caríssima ana b. e agora que revelei o meu verdadeiro eu, será que ainda há espaço para mim neste blogue? Bom, se a leitora não se exprimir terei sempre o consolo duns tremoços e dumas bejecas ...Ai, tenho tantos eu em mim!!
EliminarIsabel
Espaço para si aqui, Isabel?
EliminarE diga-me... qual a cerveja? Depois lhe respondo
Ahahah!
Oh amigo Pacheco, responda lá e deixe esses subornos para outros...pode ser que no final ainda lhe ofereça uma cerveja!!!
EliminarIsabel
Só queria dizer ao amigo Jordão que gostei muito de ler as cenas quotidianas que tão bem descreve (parecia que estava a ler um romance). Gosto do tom intimista que imprimiu para falar da vida real, uma vida com preocupações à semelhança de tantas outras...
ResponderEliminarQueria ter continuado a ler.
Isabel
Eu também penso no mesmo. Porém, nos tempos que correm não poderemos guardar para mais tarde os livros - o tempo da reforma vai acabar.
ResponderEliminarHá que disponibilizar um pouco tempo na nossa vida para ler um pouco - nem que seja antes de dormir - para que o gosto da leitura esteja sempre presente e não desvaneça - será uma grande ajuda para se dormir melhor - para que possamos viver num outro mundo, ainda que por breves momentos.
Para quem gosta de ler e encontra aqui o seu prazer tem a necessidade deste alimento como pão para a boca.
Boas leituras.
Manuel de Sousa
– Mexam-se! Criem! Pintem! Desenhem! Escrevam! Materializem ideias!
ResponderEliminarVou seguir seu conselho Joaquim Jordão de Amarante e desculpe-me qualquer ofensa a vos.
Obrigada.