Amanhã
Para os leitores deste blogue que gostam de poesia e me pedem que, uma vez por outra, aqui deixe um poema, informo que amanhã estarei no Instituto Cervantes com a autora espanhola Menchu Gutiérrez (poeta e romancista) para uma leitura poética, seguida de conversa com o público, ao longo de cerca de uma hora. A sessão começará às 18h30 e a entrada é livre.
Eu vou! Só ainda não escolhi a farpela a envergar. Confesso que estou inclinado para um casual-chic ou guetto-glamour.
ResponderEliminarEsqueci-me de dizer que isso é capaz de ser o post mais perguiçoso da história dos blogs... E que tal alguma informação sobre a escritora ou um poema para fazer subir as expectativas?
ResponderEliminarEnlouquecidos seriam os homens
ResponderEliminarse no apagar da memória
fosse miserável a derrota da língua
floresça, oh desejo
e valei-nos de bom grado
posto que a natureza é serva da modéstia
Oh Cláudia, isso nem sequer rima! Vamos lá a ter tento na cabeça, poesia que não rima é um pavão com patas de peru! Assim de repente vem-me à ideia um dos mais paradoxais versos do universo: No monte do tio Gualtér ... no monte do tio Gualtér ... mataram uma mulhér. . com dois tiros de revolvér ! Repare-se como o proficiente autor se socorre de uma artística acentuação ficcional de forma a enfatizar a terrível tragédia que ocorreu no monte do tio Gualter ! Onde fica a propriedade? Ninguém sabe! Qual o pecado cometido pela mulher? Adivinhem vocezes ! A marca do revolver? Provavelmente Smith and Wesson , que é estrangeiro e dorme bem no ouvido. Cumularíamos a desventurada de ternas manifestações de genuína preocupação, como sem dúvida todos o fazemos enquanto eu aqui escrevo, caso o estuporado relato não rimasse? Com certeza que não. Este é pois, o poder da rima, o esbugalhar do significado.
EliminarNão conheço você
Eliminarque tam pouco conhece-me
apenas conhece-nos a distância
e que deixa-nos iguais
É certo que a Cláudia, por vezes, escreve só para ela. É certo que o Courinha de tolo nada tem. Mas que há bela poesia sem rima, os tais versos brancos, também há. Não é o caso. A Natureza não é serva de nada nem de ninguém.
EliminarTome lá, Courinha, se é para rimar "nós rima":
Sumptuoso o Pavão
Pretendeu poeta ser
Faltava-lhe inspiração
E não sabia escrever
Poeta era o Peru
Suas duas patas cantava
A uma pulava-lhe ao cu
A outra era sua escrava
Entre os dois vivia a disputa
Qual teria o melhor português?
O Pavão saiu da luta
E foi escrever em birmanês
2ª versão para a última quadra:
Dizia então o Peru:
Ó Pavão não se diz puta
Se eu fosse como tu
Mudaria de conduta
...
::))
Quem rima assim não é parvo!
EliminarNem sempre compreendo onde quer chegar a Cláudia, mas por vezes gosto: "Enlouquecidos seriam os homens se no apagar da memória fosse miserável a derrota da língua" soa-me perfeitamente bem.
EliminarVou tentar amanhã ir ao Instituto Cervantes para te ouvir e tb. à autora espanhola , mas este meu comentário era sobre o Very British para te dizer que, às 2ª feiras, na RTP 2, pelas 22.40h , dá uma série da BBC que acho muito boa : Romanticos Desesperados ( desperate romantics) experimenta dar uma vista de olhos na 2ª que vem ,se puderes. Um abraço
ResponderEliminarVi um há pouco tempo. É aquela sobre o Dante Gabriel Rossetti?
EliminarHumildes são os pássaros de seu cantar!
ResponderEliminarter asas é aprender à voar
ter espírito é aprender à alar
ter surpresas é aprender à acreditar
ter visitas é aprender à convidar
ter convites é aprender à servir
ter serventia é aprender humildar.
Ou como dizia o outro, toma lá e vai-te curar!
EliminarE que tal se curasse essa crase?
Eliminarlus it a nia - a partir das coisas certas
EliminarBoa questão, que também me baralha. Porquê "aprender à alar"? Será assim no Brasil? Quanto à (aqui sim!) pronúncia, não duvido, mas nos versos não me parece ocorrer crase. Mera curiosidade minha, sem acinte transatlântico no qual não embarco.
EliminarA MARIA E A ESPANHOLA OU DAR E RECEBER: Digo espanhola sem desprestigio e Maria com afeição. Foi com deleite que assisti a um terno combate entre naturezas que me pareceram tão distintas quanto seria possível conceber. Entrei atrasado, uma bonita senhora gentilmente mostrou-me onde ficava a última cadeira vazia da sala. A apresentar estava o Zorro, apiedei-me. O herói latino, falava com uma guita impressionante, tecia todo o tipo de considerações de valor, para a seguir se desculpar e voltar a tecer, mais um pouco, mais um vaticínio, nova adivinhação das almas. Alheio ao valor de um bom corte de cabelo, devedor de um longo rabo de cavalo à década de oitenta, insistia em proferir Maria do Rosário... Pedreira, com uma pausa, que me parecia de horas, entre os dois últimos nomes. As autoras começaram a ler e eu a comparar. A Portuguesa escrevia para ela e para os seus, a Menchu debatia-se por reconhecimento, esforçava-se com todos os olhos, com todos os pêndulos, com todos os faróis para mostrar a sua estranha genialidade. A Maria dava com a mesma alegria com que a outra recebia. Dava pão e afecto e fado e desgosto e nomes de família. A escrita portuguesa era adulta, firme, bonita, a espanhola era imatura, rocambolesca e original. No final o público falou. Uma rechonchuda senhora perguntou que livros levariam as escritoras para uma ilha deserta, a nossa respondeu que levaria um livro de prosa complexa, uma obra de múltiplos significados, de longa duração, de duração superior a uma obra de poesia. Foi honesta, esqueceu-se que o público é um bicho ávido de atenção na mesma medida em que a Menchu é ávida de reconhecimento. Indignaram-se com a "mais curta" duração de uma obra de poesia, eu fui-me embora, contente com uma tarde bem passada.
ResponderEliminarNão sei se comente aqui ou no do meu homónimo ... mas ó J. Courinha , olhe que ainda o convidam para assinar uma coluna aí num suplemento cultural (de cultura e não de culturas)
EliminarE não digo isto por troça, não, você tem a grande vantagem de usar lugares incomuns!
Sim, João, também achei que foi tudo isso. (E mais aquilo que as suas palavras trouxeram.) Um bom resumo, com afecto e ainda assim alguma distância, com sentido de rigor e um pouco de opinião. A poesia da Rosário já conheço (conheci-a até primeiro que à poeta), a Menchu foi uma surpresa, um farol (em tantos sentidos). Gostei da ideia de tentar perceber a tenção que liga uma letra a outra, ou uma palavra à próxima (mais que forças físicas, mais que o esforço da língua, mais que o que é comum e vulgar), a ideia do estranho também a absorvi.
EliminarM.
Oh camarada Pacheco, não me diga que acha que cá em Portugal ainda precisamos de mais uma parvo com a mania que é perito em tudo? Isto no nosso país atiramos uma pedra e há grandes probabilidades de partirmos um dente a um comentador. Eu gosto é de contar histórias! Um abraço
EliminarOra por isso mesmo! Precisamos de menos comentadores e que sejam menos parvos!
EliminarBom fim de semana
Detesto quando o blog se transforma num debate sem moderador
ResponderEliminarBah
:(