Desporto em português
Divirto-me há anos a coleccionar «preciosidades» em língua portuguesa, melhor dizendo, calinadas fantásticas que fazem rir até às lágrimas; e troco-as todos os anos na Póvoa de Varzim, nas Correntes d’Escritas, com o Henrique Cayatte, que tem o mesmo passatempo e, embora viva em Lisboa, eu quase só o veja por lá. Tenho uma lista fantástica que juro partilhar aqui à medida que me faltarem ideias para o blogue, mas algumas das melhores saíram da boca de gente ligada ao desporto, cuja linguagem específica está, ela própria, carregada de vocábulos fascinantes como «esférico» para «bola», ou frases inesquecíveis como a que diz que «não se fazem prognósticos antes do jogo». Um dia, depois de ao fim de uma qualquer etapa da Volta a Portugal um jovem ciclista ter vestido a camisola amarela, correram a pôr-lhe o microfone debaixo do nariz; e a primeira coisa que ele soltou cá para fora foi um agradecimento sentido a todos os que tinham trabalhado «em prólogo» da sua vitória. Também o futebolista Jardel, por causa de uma qualquer pergunta incómoda que já não recordo, avançou com um ar muito sério que aquilo era «uma faca de dois legumes». E, depois de ter elogiado cem vezes uma determinada égua num concurso hípico e de a ter visto falhar logo o primeiro obstáculo, o senhor que cobria o acontecimento não arranjou nada melhor para dizer do que «era humanamente impossível ao cavalo» saltar aquela altura...
E que dizer das maravilhosas metáforas do jornalismo desportivo? Deixo aqui um exemplo retirado do Público depois do último Benfica-Sporting:
ResponderEliminar"Como um divorciado numa discoteca, o Benfica começou a pressionar no campo todo um Sporting que confunde velocidade com pressa e que abana defensivamente à mínima ventania. À custa disso, o início do jogo foi verdadeiramente eléctrico e, como os carteiristas no metro, há jogadores que se sentem confortáveis e no seu meio ambiente quando o jogo é feito de repelões. É o caso de Cardozo. "
O artigo inteiro: http://desporto.publico.pt/noticia.aspx?id=1456655
Obrigada por esta pérola.
EliminarA pessoa que escreveu isto do Benfica como um divorcado numa discoteca é um dos comentadores de futebol que menos asneiras costuma dizer. Eu li esta crónica, que na altura foi muito falada (provavelmente pelo despropósito da escrita), e lembro-me de ter pensado se o comentador não estaria com algum problema.
EliminarJá agora, a frase famosa do João Pinto (o do Porto) é «Eu só faço prognósticos no fim do jogo.»; há um poema pequenino do Daniel Maia-Pinto Rodrigues que é assim »Eu faço os meus prognósticos nos intervalos dos jogos.» O João Pinto tem outras frases famosas; a minha preferida é aquela em que ele (um defesa lateral direito que normalmente usava o pé direito) explicou no fim de um jogo como tinha marcado um golo com o pé esquerdo: «Chutei com o pé que estava mais à mão.»
o meu coração só tem uma cor: azul e branco ;)
EliminarREDONDILHA
ResponderEliminarA «faca de dois legumes»
É uma invenção dos diabos
Fere da língua os costumes
E ainda descasca nabos!
A declaração deste cavaleiro, estará, talvez, mal explicada do que totalmente errada
ResponderEliminarNas disciplinas equestres, não se contabiliza o trabalho e a prova só do homem ou só do cavalo, mas sim do chamado Conjunto.
O trabalho dos dois é avaliado em conjunto e pontuado dessa forma. um depende do outro.
Assim, neste caso, o cavaleiro quereria dizer que também para ele, fora humanamente possível saltar aquele obstáculo, e que ele não conseguiu que o seu cavalo o fizesse.
Mas, em todos os casos, não deixa de ser uma frase engraça e bem apanhada.
No meu trabalho como jornalista, uma das melhores pérolas que já encontrei estava no discurso de um jovem político da JS. Dizia ele, que "nesta matéria há que dizer, em abandono da verdade, que...". E isto foi dito mesmo antes do nosso primeiro ter decidido cortar nos abonos. Um politico profeta com toda a certeza.
ResponderEliminarSe falamos de políticos temos matéria prima para muitos livros de citações. Por exemplo o nosso caro Primeiro Ministro que se referiu há tempos a medidas de "último arraso" quando certamente quereria dizer "de ultima ratio".
ResponderEliminarOu talvez não, bem vistas as coisas.
Uma vez vi um futebolista de um clube regional dizer (e repetir) que ia trabalhar muito para "danificar" o clube.
ResponderEliminaraliás, o futebolista chama-se Zé Nando e as suas declarações catastróficas estão no youtube e merecem ser ouvidas: http://www.youtube.com/watch?v=Q_gsu8kyJGs
ResponderEliminarEsta temática dá pano para mangas (é assim, não é? uff...)
ResponderEliminarJá agora, uma pequena correcção, foi o Jaime Pacheco e não o Jardel quem disse "faca de dois legumes". Eis a prova do crime:
http://www.youtube.com/watch?v=qDIM6nZ_de0
Após rápida pesquisa encontrei mais algumas:
“O meu coração só tem uma côr: azul e branco.” (João Pinto)
“…vamos jogar ao ataque, fechadinhos lá atrás…” (Jaime Pacheco)
Ui, tenho tantas para troca. Com desporto tenho uma gira. Há uns anos uma aluna entregou-me um texto (isto eram uns seminários quaisquer em jornalismo) em que só escrevia o currículo do atleta isto, o currículo do atleta aquilo. Sugeri que diversificasse com outras expressões como, por exemplo, palmarés. Dito e feito, no texto seguinte lá me escreveu:
ResponderEliminarO Paulo Marés do atleta... God!
Correntes d’Escritas, em fevereiro na Póvoa, em que data precisamente?
ResponderEliminarA data varia, mas sei que este ano começa a 20 e tal (uma quarta-feira, habitualmente).
Eliminarobrigada
Eliminarnão esquecer também aquela pérola ouvida na televisão, em que "um popular" (outra pérola) referia:
ResponderEliminar"o Ronaldo é o melhor jogador do Mundo, "inclusíver" da Europa"...
«O jogador Carlos Manuel chamou-me filho da puta e ameaçou que me partia os cornos, só não o fazendo porque os colegas o agarraram.» (escrito por um árbitro num relatório - citado por Jorge Coroado num livro)
ResponderEliminar«Vou continuar a ser a mesma pessoa, independentemente de estar em Madrid ou noutro país qualquer.»
ResponderEliminarCristiano Ronaldo, 07.07.09
A minha favorita vem do Jorge Jesus.
ResponderEliminar"Vocês os três. formem um quadrado"
Também tenho uma colecção razoável. A mais hilariante (para mim) é esta, do Diário da Universidade de Bragança: "a conferência sobre prisão de ventre, foi seguida de farto almoço", Já agora, esta de uma conhecida jornalista de uma estação de televisão: "os sete artistas compõem um trio de respeito"
ResponderEliminarIsto nem de propósito. Acabo de ver um filho a sair furibundo pela porta fora. Estava eu a ajudá-lo a estudar os parentescos para o teste de amanhã, quando lhe resolvi perguntar o que é que eu era à tia Lucas. O rapaz respondeu com ar hesitante "NOGRA?".
ResponderEliminarMediante a minha gargalhada ofendeu-se de morte e zarpou antes de termos conseguido chegar aos compadres e afilhados. Temo o pior.
Mais uma pérola do Jesus
ResponderEliminar"posição estratégica da bola parada"
Rosário, lembra-se desta?: a da senhora que pergunta, ofegante, pelos voos Lacoste?... Preciosidade paralela ou colateral a esses mimos linguísticos: depois de entrevistar, há dias, o realizador Francisco Manso, que acabara de lançar o filme «Assalto ao Santa Maria», confessa-me ele que aquando da estreia um político do círculo restrito do Ministério da Cultura (ali em representação oficial) pergunta para os circunstantes: «Mas, assaltaram o hospital? Quando?» Bj ptn
ResponderEliminarÓptima essa!
EliminarCalinadas estão ao alcance de qualquer um. Eu já falei num mortal encrespado quando queria dizer encarpado . Mas também já li no 31 da Armada que já não sei o quê não valia «a ponta de um chaveiro».
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