Querer escrever

Em quase todos os festivais literários, há uma mesa-redonda cujo tema se prende com o momento exacto em que um escritor percebeu que escrever era o que queria fazer da vida. Já vos contei que Vargas Llosa contou um dia no México que descobriu que não estava sozinho nos seus problemas e tristezas ao ler na adolescência livros que falavam de outros que também sofriam, e que esse foi o primeiro passo para desejar viver outras vidas e escrevê-las. Partilhei igualmente a história de como Eduardo Halfon começou a escrever para aprender a língua do seu país, pois crescera nos EUA, e de engenheiro se tornou escritor. Esta semana, ouvi o escritor espanhol Miqui Otero ler no Instituto Cervantes um texto belíssimo onde, entre outras coisas, falou do momento em que despertou o seu desejo de viver outras vidas. Estava em casa com os pais e ouviram uma terrível explosão. Pensaram tratar-se de uma bomba, pois eram ainda os tempos dos assassínios da ETA, mas afinal estavam enganados: tinha sido uma garrafa de gás que explodira na casa em frente, mas os danos foram tantos que o rebentamento arrancou praticamente toda a fachada da vivenda. Assim, quando Miqui olhou para a casa vizinha pela sua janela, o que viu foi uma espécie de casa de bonecas, o interior com os dois andares e as divisões completamente à mostra: os quadros nas paredes, os móveis, os candeeiros no tecto, os pratos nas prateleiras, as almofadas nas camas. E, ao ver tudo isso minuciosamente, entrou na verdade na casa do vizinho e percebeu que queria saber como viviam as outras pessoas, que queria estar nessas vidas. Escrevendo, claro.

Comentários

  1. É algo com que me debato várias vezes. Já escrevi algumas coisas, pequenos contos, mas tenho muita dificuldade em arrancar com o processo de escrita. Tenho uma espécie de diário desde março de 2025 e que me obriga a escrever regularmente. Contudo, não é suficiente.

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  2. A resposta que Dulce Maria Cardoso deu a Mafalda Anjos, no programa Inventário Pessoal, parece-me bastante consistente e diversa das duas citadas, como diferentes serão as de muitos escritores. Aos leitores interessa apenas que escrevam e escrevam bastante.
    Como Lobo Antunes que deixou obra acabada e imorredoura.

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  3. "Aos leitores interessa apenas que escrevam e escrevam bastante"

    Nem todos os leitores são iguais.
    Eu interesso-me pelo processo de escrita, pelo processo de criação dos autores e pela vida que tiveram, como a vida influencia a obra. Gosto de muito de ler biografias.
    Quanto a alguns autores escrevem demais, de forma repetitiva e martelando os mesmos temas (eles próprios e a sua vidinha). Era preferível que produzissem menos e escrevessem algo mais profundo.
    Portanto, não, não me interessa que escrevam bastante, só se for no sentido de: Basta! (nalguns casos, claro).

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  4. Tenho dificuldade em escrever sobre aquilo que li no telemóvel e onde estou agora a escrever.De qq maneira,gostaria de dizer ao colega extraordinário anterior ,que há vários autores que escrevem muito e bem sempre ou quase sempre sobre os mesmos temas.Nem de propósito ( pelo dia de hoje) António Lobo Antunes.Li variadissimos livros,em que o tema era invariavelmente a guerra colonial.Atras desse vinha o trauma pós-guerra,a impotência masculina e posteriormente ou antes aquela forma “psiquiátrica “e particular sua de nos enredar e encantar com uma escrita labiríntica e envolvente de nos pregar aos seus escritos.
    Posso dizer que no meu caso pessoal esse fascínio deixou de existir passados alguns anos(vários)e que as últimas obras passaram sem deixar rasto.Em todo o caso,não poderia deixar passar este dia sem fazer menção a este vulto da literatura portuguesa,dono de um estilo único e pessoal pautado por experiências próprias e acima de tudo pela sua formação como médico e sobretudo de psiquiatra

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  5. António Luiz Pacheco5 de março de 2026 às 12:41

    Tendo a concordar consigo...
    Mas para ser escritor hoje, não basta escrever, bem ou mal. Tem de ter "nome" julgo eu, ser famoso e nesse caso pode escrever as baboseiras ou genialidades que calhem, pois será igual a aceitação das casas editoras... enfim vender é outra conversa.
    Claro que não será assim literalmente mas é quase como digo, pelo menos é o que sinto.

    Abraço cá da Cidade Morena, onde hoje, no regresso do Catara e já pela tarde, assisti a um espectáculo que já não se vê muito: uma transumância!
    Empurrados pela seca severa que castiga o Sul, que vi seco e esquelético, encontrei vindos desde o Dombe Grande e o rio Coporolo, em direcção a Norte pela estrada para Benguela, ao longo desta de um e outro lado, uma linha contínua de bois e ao lado de cabritos, vários milhares estendendo-se por vários quilómetros. Acompanhados dos seus pastores que são sobretudo garotos seminús com uma tanga de pano amarrada na cintura, cabeças rapadas, bordão e uma ou outra catana ou a "mutunga" (faca), o "galão" plástico com água e sandálias de pneu nos pés. Várias dezenas deles, mais os seus cães famélicos porém rijos, enquadrados por alguns adultos e vários burros com as "biquatas" (pertences) amarradas em ceirões mal-amanhados de cordas e plásticos.
    Mukuandos me pareceram.
    Também me apetece contar estas coisas, mas quem é que as leria? Ou a quem interessam? E quem as editaria não me chamando eu Agualusa?

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  6. Imprecisão minha: ao leitor interessa que escrevam muito, mas boas obras. Se gosto de um autor fico a desejar o próximo livro e gosto quando, como Lobo Antunes, escrevem muitos; satisfaz-me o pensamento de que, lido o último, haverá mais. Não importa se escrevem livros grandes ou pequenos, espero sempre por um novo exemplar. Infelizmente, com Lobo Antunes há anos que deixei de esperar.
    Há vários escritores que dizem que o livro que se escreve é sempre o mesmo, mas se apresenta de outra forma. Mas sobre isso não teço considerações, só eles podem discutir o tema com propriedade.
    E há leitores diversificados como os que preferem biografias e autobiografias. Mas, todo o bom leitor tem critérios de qualidade relativos à escrita que estão subjacentes, não lhe serve um qualquer livro.

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