Formação
Gosto de ler romances de formação, aqueles em que acompanhamos o crescimento de um protagonista geralmente desde a infância ou da adolescência. Todos conhecemos livros assim (David Copperfield, Huckleberry Finn, O Apanhador no Campo de Centeio, O Meu Pé de Laranja Lima, Retrato do Artista Quando Jovem, A Montanha Mágica, A Amiga Genial...); mas há uns quantos não tão óbvios que também são romances de formação, como o excelente La Coca, de Rentes de Carvalho, que fez as minhas delícias num certo verão e me levou a outros romances do autor. Acabei há pouco mais um romance de formação, desta feita Setembro Negro, de Sandro Veronesi, um autor de que tinha lido já o magistral O Colibri, de que fizeram um filme não horrível, mas que fica muito aquém. Este Setembro Negro é a história de um Verão que torna um rapaz adulto, seja por questões de paixão (é a sua primeira experiência amorosa, aos 12 anos, e a menina é a vizinha de toldo na praia); seja por questões de maturidade (é preciso decidir entre a rapariga e os Jogos Olímpicos, o que é mesmo difícil); seja até pela descoberta de contratempos bastante inesperados no seio da família, mas também no seio do mundo, porque tudo se passa em 1972, nos Jogos de Munique, em que uma data de atletas foram sequestrados e mortos. O final é muito surpreendente, mas o que leva até ele é de longe mais interessante, e a cena de como dançar leva ao primeiro beijo a sério é inesquecível. E a capa do livro é linda, com o rosto do protagonista a ver-se à transparência na vela de um barco. Um autor a que ficar atento.
Também me agrada esse tema e logo me acudiram obras de autores portugueses de que gostei, como por exemplo A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, A Escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis, os Esteiros ("para os filhos dos homens que nunca foram meninos"), de Soeiro Pereira Gomes.
ResponderEliminarSandro Veronesi nasceu em (1 de Abril de) 1959, pelo que em 1972 tinha 13 anos. Eu diria que estamos perante mais uma autobiografia (mal) disfarçada de romance.
ResponderEliminarTodos os romances são autobiografias.
ResponderEliminarTodos os autores "inventam" a partir das suas experiências.
Nós e a nossa circunstância.
Essa é a razão para que vidas lamechas, com lacinhos cor-de-rosa produzam romances fraquinhos a fazer puxar pelo lencinho de linho bordado.
«Todos os romances são autobiografias»? Claro que não, e abundam os exemplos em contrário. Posso dar um, pessoal: o meu primeiro romance (publicado em 2009, tenho um segundo ainda inédito) nada tem de autobiográfico.
ResponderEliminarRomances de formação e romances necessariamente autobiográficos. E não há romances que o sejam, simplesmente?
ResponderEliminarA inspiração para o romance veio de onde? Da (sua) vida, das (suas) leituras, das (suas) relações, dos (seus) interesses. É autobiográfico nesse sentido, de algum modo, é a vida, "o saber de experiência feito" do autor que produz a obra.
ResponderEliminarDecididamente, as nossas noções de autobiografia e de autobiográfico são marcadamente diferentes.
ResponderEliminarConcordo completamente com Afonso Real, é como dizia ALA, é uma representação da nossa memória. Tudo é memória, até a linguagem utlizada. Não existe texto fora do autor, caído dos céus. Ser autobiográfico não é sinónimo de falarmos que no dia x aconteceu-nos z ou fizemos s.
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