Excerto da Quinzena

Vejo o primeiro cadáver de um assassinado aos oito anos, ao voltar para casa, vindo da escola pelo exato percurso que estava combinado com os meus pais: Rua Montuoro, Rua Scobar, Rua Leonardo da Vinci, Rua Galileu Galilei, Rua Mozart, Rua Liszt, três andares de escadas, casa.


Ao longo da Rua Montuoro vou pensando no que se passou na escola, finalmente estudámos um povo fantástico, os Fenícios, grandes navegadores. Sigo pela Rua Scobar e vejo três pessoas, imóveis como árvores, a olhar para o mesmo sítio. Há um corpo caído no chão, no passeio, mesmo debaixo da varanda da casa do meu colega Giuseppe Malato, que precisamente hoje faltou à escola. Uma poça de sangue nasce da cabeça do homem que está estendido.


E este é o primeiro assassinado que vejo, por isso encaminho-me na sua direção, mas apercebo-me de que o morto ainda deve estar fresco, na verdade a polícia ainda nem chegou, e, como se por telepatia, um pensamento idêntico brota em uníssono nas cabeças de todos os presentes, de repente todos nos afastamos dali, cada um retomando o seu próprio trajeto,  indo à sua vida, sem correr, nunca se deve sair a correr do lugar onde onde alguém foi morto, se a polícia nos parar vão perguntar-nos porque íamos a correr, para onde íamos, o que estávamos a fazer ali. É melhor nunca ter nada a ver com a polícia.


Davide Enia, Autorretrato: Instruções para Sobreviver à Máfia,


tradução de Ana Maria Pereirinha

Comentários

  1. Foi nesse momento [...] que me lembrei da minha mãe viva e do meu pai morto, ambos católicos ferrenhos, lembrei-me de que, desde a morte do meu pai, a minha mãe não parava de repetir que se encontraria com ele depois de morrer, e disse para comigo que se conseguisse ficar uns minutos a sós com o papa e falar-lhe da ressurreição da carne e da vida eterna e perguntar-lhe se realmente a minha mãe voltaria a ver o meu pai, então fazia todo o sentido escrever aquele livro.
    Javier Cercas - O Louco de Deus no Fim do Mundo
    Tradução de Helena Pitta

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  2. "Uma proibição tão forte só pode elevar-se contra um impulso igualmente poderoso. O que nenhuma alma humana deseja não precisa de ser proibido, exclui-se por si mesmo. A acentuação do mandamento “Não matarás” garante-nos justamente que descendemos de uma longuíssima série de gerações de animais, que tinham no sangue o prazer de matar, como talvez ainda nós próprios."

    excerto de Porquê a Guerra? Reflexões sobre o destino do mundo, de Sigmund Freud e Albert Einstein (Edições 70)

    Boas Leituras
    Li

    (Em breve disponível na Google Play Store: https://leiturasimprovaveis.eu/app/)

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  3. "Mais cedo, enquanto caminhava com a trouxa, Luzia foi assaltada por muitas imagens. Uma delas era a do recanto do rio onde lavava a roupa tingido de sangue. Por um tempo acreditou ser culpa dos males que carregava, sem cogitar outra motivação. Tentou afastar o mal rezando com mais frequência, pedindo a Deus que mantivesse longe de sua vida aquela aparição. Sem resposta, começou a considerar que o sangue vertia de estigmas que não conseguia ver. O rio, as árvores derrubadas para ampliar o plantio de cana, os pássaros aprisionados pelos alçapões dos homens e meninos que os vendiam na estrada, os peixes anunciando o desaparecer.
    Talvez fosse a chaga do mundo, e Luzia era incapaz de estancar a ferida. Conformada, não contou a ninguém sobre o que via. Prosseguiu com a lavação e frequentando as missas. Se benzia quando dobravam os sinos e a ave-maria tocava no rádio da cozinha. Precisava do dinheiro do trabalho, e qualquer deslize identificado em sua confissão faria a revelação se voltar contra ela mesma.
    Foi assim que ela prosseguiu com a labuta. Para os lençóis mais encardidos usava barrela. Fervia os tecidos num caldeirão alimentado por uma fogueira no quintal; deixava para quarar à espera do branco imaculado exigido pelos monges. Não conseguia deixar de pensar em sua mãe à espera da graça de uma descendência cada vez mais clara para se redimirem da miséria. Pudesse embranquecer os filhos como se alveja um tecido, ela teria
    feito. Se antes Luzia considerava um desatino o delírio que a levou à desonra, diante das dificuldades acentuadas pelos anos passou a considerar os sonhos da mãe sintoma da crueldade de seu tempo.

    Itamar Vieira Júnior, Salvar o Fogo.

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  4. «— Estão ambos a fazer terapia. — Hesitou e olhou em volta. — Não te preocupes com isso, Henry. Na terapia, a culpa é sempre da mãe. Tenho a certeza que sais de lá incólume e a cheirar a água de rosas. — Olive tamborilou os dedos na máquina de lavar. — Tenho de desligar, ela está a fazer uma máquina de roupa aqui em baixo. Eu estou bem, Henry. Volto daqui a uma semana.»

    Olive Kitteridge - Elizabeth Strout
    Alfaguara - Tradução de Tânia Ganho

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  5. Leia a segunda vida de O.Kitteridge é ainda melhor que este ! Recomendo.

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  6. Bom dia, e obrigada pela recomendação. :)
    Já o tenho e conto lê-lo em breve.

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