Criatura e criador

Na sessão em que a Wook galardoou a escritora Sara Duarte Brandão com o Prémio Novos Autores para o seu romance Quem Tem Medo dos Santos da Casa, ofereceram aos convidados um saquinho que tinha, entre outras coisas, a revista da Wook (wookacontece) que, creio, se publica duas vezes por ano. Neste seu n.º 15, Vera Dantas entrevista o escritor Valter Hugo Mãe depois da publicação do seu livro Educação da Tristeza e pergunta-lhe até que ponto ele se sente um observador e recriador do mundo através das palavras. Na resposta, o escritor que nasceu em África mas estava em Lisboa no dia em que os tanques entraram pela cidade e já não voltou para Angola, diz que os escritores têm o privilégio de ser ao mesmo tempo criadores e criaturas e que o facto de buscarem permanentemente um sentido para a vida leva a que nunca sejam criaturas passivas. E acrescenta que, como escritor, está «sempre na posição de alguém que se sente obrigado a trazer alguma coisa que não existia, a construir algo que não foi construído antes, ou, sobretudo, que ninguém teria obrigação de construir» para ele. Importante esta declaração, na medida em que encontro tantas vezes autores de livros que foram recusados por serem iguais a tudo, por não trazerem nadinha de novo, que se ofendem por lhes dizermos que não acrescentam nada à literatura. Criaturas que não são criadoras.

Comentários

  1. Palavras sábias de Valter Hugo mãe quanto aos escritores.De todos os seus livros destaco “A máquina de fazer espanhóis “.Já li há muito tempo,mas ficou na minha memória como uma obra criativa e envolvente

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  2. Niil novi sub soli!
    Nada de novo debaixo do Sol...
    Não concordo lá muito, em 2026 haverá assim tanto de novo, para procurar, na escrita?
    Não digo que se tenha esgotado a criação, mas acredito que se possa criar a partir de algo que já exista ou foi usado antes. O artista, criador, ser absolutamente original é que me parece difícil e mais na literatura.
    Quanto aos autores recusados por não trazerem nada de novo, é uma boa porém vã desculpa, parece-me a mim.

    Saudações velhas cá da Cidade Morena onde nada de novo acontece também.

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