Mães e filhas

Há muitos livros que tratam das relações nem sempre fáceis entre mães e filhas; e quase de certeza que já falei deste tema aqui no blogue. O primeiro romance que me vem à cabeça é A Pianista, da vencedora do Nobel da Literatura Elfriede Jelinek, que deu origem a um filme homónimo com Isabelle Hupert no papel da filha; e, sem querer puxar muito pela cabeça, ocorre-me também um livro nos antípodas desse, o maravilhoso O Meu Nome É Lucy Barton, de Elizabeth Strout, em que uma filha internada num hospital se surpreende com a visita de uma mãe que não via há séculos, e as duas conversam sobre a separação e o passado. Não sei que tipo de relação tinha Mónica, a filha de Agustina Bessa-Luís, com a mãe, que tive o prazer de conhecer pessoalmente e que era claramente uma figura forte, dominante, sarcástica, embora também supersticiosa (treze à mesa, nunca!); mas sinceramente entendo mal que, numa entrevista recente, tenha dito que A Sibila, romance creio que de leitura obrigatória no Secundário, é um livro muito difícil e não adequado a «crianças de dezasseis anos». Bem sei que os jovens de hoje são bastante infantilizados pelos pais, mas aos dezasseis anos já não se é criança, caramba; além disso, nós não líamos coisas difíceis (e maravilhosas) no nosso tempo? Acho que nos fez lindamente subir o nível, pois reduzir as leituras dos jovens às obras levezinhas é uma péssima ideia, havendo já demasiadas coisas fáceis nos seus horizontes. Não queremos que cresçam a saber que na vida nem tudo são rosas? Enfim, o que achei mesmo esquisito foi ser a própria filha da escritora a dissuadir a juventude de ler a obra mais emblemática da mãe. Pensem sobre isso o que vos apetecer, eu farei o mesmo.

Comentários

  1. Tendo lido A Sibila com mais de 60 anos tendo a concordar com a filha da escritora. É um livro difícil (haverá algum livro 'fácil' da Agustina?) e, nesse sentido, talvez menos adequado para jovens de 16 anos. Eu tinha 16 anos em 1974; teria que puxar pela cabeça para saber o que se lia obrigatoriamente na altura para perceber se líamos 'coisas' mais desafiantes. Talvez um dos seus leitores se lembre o que se lia naquela altura para se fazer uma comparação. Os Maias seguramente, talvez Lendas e Narrativas do Alexandre Herculano (lembro-me de se ler A Dama Pé de Cabra)...

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  2. Às vezes a relação entre mães e filhas não são fáceis.
    Como era a relação de Mónica com Agustina?
    E como é a de Mónica com Lourença (a filha?
    Como foi a relação de ambas com o pai/ avô Alberto Luís, figura tutelar da família, cimento que mantinha tudo unido.
    É fácil ser-se uma grande escritora, uma grande artista desde que exista alguém que trate de tudo, que cuide de tudo.
    Na minha opinião, o verdadeiro "sibilo" foi Alberto Luís.
    Provavelmente com 16 anos não se consegue interpretar, compreender uma obra, onde o importante não é o que está escrito, o importante é o que não se diz, aquilo que temos de adivinhar, com 16 anos (talvez existam excepções) não existe maturidade para tal.

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  3. A Sibila, quando integrava as leituras obrigatórias, não se lia com 16 anos, mas na transição dos 17 para os 18, no 12..º ano. Li a obra quando estava tinha essa idade. Marcou-me pela positiva, pelo que ainda hoje a recomendo, não a jovens, porque a muitos deles falta capacidade de abstração, para apreender o todo, e perseverança.

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  4. Viva!
    Eu creio que a Mónica filha de Agustina teve boas intenções. Provavelmente ( suposição minha) ela estava a tentar dissuadir a ideia que as obras de Agustina são todas complexas como a Sibila é. Começar por ler Agustina Bessa Luís pela obra A Sibila pode ser demasiado complexo e dissuadir os leitores de lerem mais obras dela que até podiam ser de mais fácil leitura e compreensão. Penso que terá sido esta a ideia dela...
    Eu concordo com a Maria devemos dar aos nossos aluno leituras boas e quiçá desafiantes MAS ... não super mega dificéis que os traumatizem. Tenho um sobrinho que nunca mais leu Saramago pois não percebeu nada do Ano da Morte de Ricardo Reis.
    Tenho amigos que nunca mais leram Eça de Queirós porque ficaram com péssima impressão do capitulo imenso da descrição do Ramalhete!...
    São coisas que afastam os leitores.
    A literatura não é só entretenimento mas nas escolas podiam ler obras de mais fácil conexão de forma a incentivar a leitura em vez de afastar. Ler já não é fácil hoje em dia e se os traumatizarem então será cada vez pior.
    Bjinho.

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  5. António Luiz Pacheco8 de janeiro de 2026 às 03:17

    Difícil tema nos apresenta aqui hoje. Porém estimulante, sem dúvida.
    Há leituras difíceis e fáceis, parece-me. Porém cada leitor é um caso e é diferente dos outros, independentemente da idade, o que não facilita nada esta reflexão. Julgo que tem mais a ver com o ambiente que o rodeia e lhe dá referências, onde vive e se desenvolve, forma, o que inclui a escola, a família, o bairro, os amigos, etc.
    Devem os jovens ser conduzidos apenas para leituras fáceis? Não tenho meios para avaliar e decidir sobre isso, mas penso que devem ser habituados a tudo, como a não comer só bife com batatas fritas e serem levados de carro à escola todos os dias.
    Julgo que os jovens de hoje, pelo que assisto aqui entre os meus sobrinhos e sobrinhos- netos, estão demasiado habituados às facilidades e ao conforto, fizémos deles comodistas e sobretudo gente com dificuldade em enfrentar desafios, de superar obstáculos, com pouca resiliência como se diz e é uma característica portuguesa. Mas as características perdem-se com a educação moderna, penso eu. Pelo bem e pelo mal.
    Na leitura vamos pelo mesmo, lê-se o que é fácil, o que é bonito e o que agrada... formando pessoas que vivem numa bolha de comodidade e rejeitam depois qualquer contrariedade?
    A questão está em os acompanhar na dificuldade, julgo eu. Saber apresentar a obra no seu conjunto de modo a estimular o interesse pela sua leitura. Talvez os professores actuais, eles mesmos frutos desse comodismo não consigam fazê-lo?
    Tenho uma enteada de 47 anos, professora de português no ensino secundário, licenciada em ciências da educação que tem dois mestrados na área do ensino, feitos enquanto lecciona e trata da família com dois filhos e um marido que lhe dá muito apoio, não sendo pessoa comodista portanto, aliás filha de uma pedagoga dura. Já falamos várias vezes sobre o tema das leituras, já lhe emprestei até um ou outro livro para uso na escola, dado que tem aqui uma biblioteca muito alargada, e, concluiu-se que é um tema muito difícil na actualidade, pois as alternativas e as dispersões são muitas, aliadas a uma certa facilidade na informação paralela que torna muito difícil levar os jovens a ler com prazer e por iniciativa própria.
    Também creio que além de tudo o mais, os jovens de hoje são bastante mais infantis do que na minha geração (por exemplo, que nasci na década de 50). E digo infantis porque muito mais protegidos da vida e da realidade crua, ignorando que há dificuldades muito maiores do que não ter o ultimo modelo de telemóvel-esperto. Responsabilidade das famílias que os não acompanham e que fazem sobretudo de criados em vez de educar e orientar, como vou percebendo.
    No entanto julgo que ler "os cinco" e "A Sibila" alternadamente é bem possível, explicando e acompanhando, até para que se mostre a diversidade que existe na leitura, fazendo dela algo maravilhoso, e, aí reside talvez o segredo.
    Enfim, são os tempos em que vivemos, nós é que estaremos fora, isso é inevitável e já o entendi, depois lembro-me "do meu tempo" e julgo que eles também chegarão a algum lado como tantos de nós chegámos, apesar da descrença dos velhos da época que criticavam o ié-ié, as calças de cintura baixa, as mini-saias e os cabelos... lembram-se?

    Saudações cá do Bairro Ribatejano.


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  6. 1. A tão badalada infantilização que gostamos de atribuir aos mais novos não é mais do que uma repetição geracional. Todas, absolutamente todas as gerações, disseram o mesmo da geração seguinte. A qualidade de vida vai melhorando, o acompanhamento, as ferramentas, os recursos, a tecnologia (e até o afecto) disponíveis idem aspas. De geração para geração, somos cada vez mais infantis. Na idade com que a minha mãe casou e teve os dois primeiros filhos, eu divagava na universidade. Não é uma questão de paizinhos-criancinhas, isso é uma visão simplista e superficial. São transformações maiores, transversais a toda a sociedade, às escolas, às instituições e às políticas do estado. Vamos ser um pouco mais profundos e observadores e abandonar o facilitismo dos clichés.
    2. No meu tempo, poucos gostavam de ler e muito poucos o faziam com regularidade. Grande parte dos alunos dava erros ortográficos, ao contrário do que gostamos de apregoar, e a maioria preferia ver os Soldados da Fortuna do que pegar num livro, até porque poucos tinham a sorte de ter bibliotecas em casa e uma família orientada para isso. Não era melhor há 30 ou 40 anos. Ler, ler bem, ler bons e ler muito, sempre foi um privilégio de poucos.
    3. Ler não é - e acaso deveria ser? - um hábito. Ler é uma paixão, um ato de envolvimento e descoberta, é preciso estar receptivo para ser seduzido e é preciso saber como seduzir. Os professores de português não colaboram, uns por falta de vocação, outros por falta de tempo e alguns, infelizmente, nem sequer gostam de ler além do básico. "A Sibilia", como qualquer livro de Agustina, é um livro difícil, sim. Poderá não o ser para miúdos que tenham nascido em contextos culturalmente mais favorecidos, mas para a generalidade é. Temos alternativas. A nossa literatura está carregada de coisas magníficas, igualmente elevadas, com narrativas que podem cativar a atenção das mentes jovens. Porquê insistir no que não está a funcionar? Em nome do antigamente? Somos gente ou somos pedras?

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  7. "Os Cinco" e "A Sibila" alternadamente?! Mas se nem são adequados à mesma faixa etária... Os cinco de Enid Blyton? É que, julgo, sejam livros a ler entre o 3º ou 4º ano e o 8º ou 9º no máximo.
    Concordo: A Sibila não é o livro mais indicado para se ler no 11º ou 12º. Li A Sibila no 12º (ou no 11º?), só bem mais tarde ganhei gosto pela escritora. E foi essa leitura a causa do afastamento.
    Os filhos nunca sabem do rotundo amor das mães. No caso das filhas, talvez que sendo elas mesmas mães, se apercebam do mundo que tem dentro. Mas há excepções e, pelo que li da vida de Agustina, ela seria sempre uma excepção.

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  8. Há quem ache que os "Os Maias" é difícil de ler. Caramba!, embora muito superior em termos literários, é um folhetim que se lê tão facilmente quanto os livros de Alexandre Dumas ou de Júlio Verne. Aquilo que não se apanhar logo ali de caras, como as referências à política do século XIX, à mitologia clássica ou à Bíblia, infere-se facilmente pelo contexto. Se um pedaço é mais "trabalhoso", passe-se à frente e volte-se mais tarde. (Há poucos pedaços desses em "Os Maias". ). Não sejam demasiado penteadinhas, jovens almas inocentes! Um livro é para ser lido de todas as maneiras: em diagonal, de trás para a frente e de frente para trás, aos saltos, de todas as maneiras, até que o façam vosso. Foi feito para vós. A grande literatura do sec XIX - os russos, os franceses, os ingleses - foram escritos como folhetins para todos - alfabetizados, entenda-se - lerem. A literatura não é, na sua maioria, esotérica. Arranjem outra desculpa.

    A Agustina tem, para mim, um estilo elaborado e agradavelmente hipnótico e que me leva a continuar compulsivamente até ao fim. No entanto, em alguns casos, perguntei-me se não tinha perdido um pouco do meu tempo, pois que o estilo mascara um fundo vago e com falta de vigor, e.g. "A Ronda da Noite". Mas, caraças, é preciso ler para saber o que se não aprecia, por isso, jovens almas inocentes, leiam muito e soibretudo aquilo que vos desafie. Se a leitura for suave e fácil, de pouco vos serviu salvo, talvez, a passar preguiçosamente o tempo, o que também se defende.

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  9. No 12.º ano, não se lê a "Sibila", há várias décadas, lê-se "Memorial do Convento" ou "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

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  10. Nos meus 16 anos lia e dividia as orações dos Lusíadas que, como é sabido, é um livro facílimo.
    E também tive exame da quarta classe. E exame para entrar no liceu.
    Tudo coisas fáceis.
    E afinal o que é que se aprende com o facilitismo?
    Olhem os ministros e acessores...

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  11. Qual foi a geração que não foi criticada (justamente ou não) pela anterior? Pois....

    Como já tenho gerações mais novas diante de mim, e pese embora nunca ter nada lido de Agustina (zero), eis o que me apraz dizer.

    Se eu tivesse nascido no início do século XXI, exposto a esta era de hiper-comunicação, provavelmente ligaria muito mais às minhas amigas maquilhadas e produzidas do que aos livros, apesar dos extensos conselhos de professores, pais e restante brigada do reumático.

    Se os meus progenitores fossem do género de fornecer a cana, e não o peixe, talvez adquirisse o hábito mais tarde. Não faço ideia.

    Mas que estamos a ficar mais burros, todos, não só os jovens, estamos.

    Chama-se "inverted Flynn effect".

    Umas quantas excelentes demonstrações disso mesmo:

    https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/o-discurso-publico-na-era-do-212626 (uma das minhas prendas de 2026)

    https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/porque-estamos-a-ficar-mais-burros-227601

    https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/isto-anda-tudo-ligado-190355

    Boas Leituras


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