Escritores na cadeia

Não, não vou falar de escritores que, em determinada altura das suas vidas, foram presos (o caso, por exemplo, de Oscar Wilde ou Jean Genet). Falo, sim, de reclusos que se tornam escritores atrás das grades, ocupando-se com uma tarefa que, segundo os especialistas, lhes retira agressividade e ódio e que, por vezes, até os faz ganhar prémios literários. Mas, como não há escrita de jeito sem leitura, é melhor começar por dizer que no Estabelecimento Prisional de Lisboa, cada ala (e são oito) tem a sua biblioteca, e quem as dirige é sempre um dos presos dessa ala. O artigo que fala disto é assinado pela jornalista Isabel Nery e saiu ontem no Público, contando os vários projectos ligados às artes que têm vindo a surgir nos estabeecimentos prisionais para pôr a comunidade que se encontra cativa em contacto com a cultura, sendo um deles o Concurso de Escrita Criativa Interprisões, que foi lançado com o apoio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas e para o qual existe uma média anual de 100 candidatos; são, geralmente, reclusos que gostam de fugir para dentro dos livros (um deles diz ler um livro por dia) e que depois se dedicam à escrita como actividade terapêutica, já que na escrita podem ser completamente livres, além de que o desenvolvimento das competências da leitura e da escrita os ajuda a reinserir-se na sociedade mais facilmente quando saírem da cadeia. Mas o artigo é grande e vale a pena percorrê-lo, pelo que tem de interessante e também comovente. Uma boa semana é o que vos desejo.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco19 de janeiro de 2026 às 01:48

    Mais um interessante tema, este de hoje.
    Eu diria antes: escritores de cadeia?
    A melhor forma de evasão, de liberdade, é sem dúvida a leitura e esta fácilmente conduz à escrita.
    Não sei como passam o tempo lá dentro, suponho que também dependa do tipo de pena ou de prisão onde se encontrem - lembro-me de ter conhecido dois presos em Pinheiro da Cruz, pai e filho, detidos por terem morto o abusador da filha/irmã, que sendo especialistas em podengos, ali se dedicavam à sua criação e treino, com o apoio óbvio do director dr. Fernando D. que era caçador e os apoiava. Esta uma história curiosa e por isso a cito.
    Parece-me evidente que nem todos os presos serão facínoras ou criminosos, muitos terão sido condenados por circunstâncias que os fizeram ser criminosos eventuais e não contumazes ou empedernidos.
    O meu amigo Chico Torres, pequeno mestre de obras, atropelou e matou uma pessoa, por isso condenado a uns meses de prisão, foi a sorte dele, pois começou a fazer obras ainda na cadeia (também pela mão do já referido dr. Fernando D.) e dali a tornar-se empreiteiro foi um pequeno passo que o tornou num grande construtor, sobretudo no ministério da justiça. Foi o Chico quem fez as obras no tribunal de Monsanto para o julgamento das FP25, o que é aliás minuciosamente relatado no livro do juiz Dr. Marques Vidal: "Histórias bem caçadas". Conheci e privei com todas estas personagens nos anos 90, nos coutos do Chico, em Espanha onde ia caçar a convite por ser amigo da família do Chico, saloiada rija e valente, da melhor.
    De facto os livros contam muitas histórias de vida. Como bem sabemos.
    Porque não a dos presos? Sendo que muitos deles terão mesmo muito para contar e seguramente coisas com interesse, sejam elas boas ou más.
    Nem todos necessitam de reinserção, muitos não sendo criminosos e mesmo os que o sejam terão histórias para contar e que vale a pena conhecer.
    Camilo não era criminoso, lembro, conheceu o cárcere que aliás o influenciou e lhe deixou memórias. Porém Camilo era mesmo escritor, isso sim. Estou a gostar muito do livro de Mário Cláudio, faço saber, porque são os livros o nosso estímulo e tema favorito se formos a ver, tudo nos leva a eles.

    Votos de uma semana Extraordinária, são os meus votos cá desde a Cidade Morena.

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  2. Todos os pretextos para ler são bons.
    E todos os livros constituem possibilidades de fuga.
    O que seria de nós sem ler?
    Não sei se será demasiado otimista achar que a reinsercao pós-prisão é mais conseguida quando se lê muito,mas certamente mais enriquecida e esclarecida.

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  3. António Luiz Pacheco19 de janeiro de 2026 às 23:43

    Claro, um bandido culto é outra loiça!
    Ahahah!

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