Ouvir ou ler?

A produção de audiolivros está a crescer (hoje já há muito por onde escolher) embora eu continue a achar que não é a mesma coisa ler livros e ouvir livros. Em todo o caso, confesso que, desde a leitura da crónica de Rogério Casanova no Público do último domingo, já não faço uma cara tão feia aos audiolivros e acabo por aceitá-los em circunstâncias excepcionais em pessoas que vêem bem. O cronista começa por contar-nos (descobrimos quem era Elena Ferrante, mas alguma vez saberemos a identidade de Rogério Casanova?) que, dada uma terrível contractura que sofreu, não conseguia posição para ler; e, enquanto ia tomando cápsulas de relaxante muscular umas atrás das outras para se livrar daquela dor aguda, tomou a opção de ouvir em inglês Os Irmãos Karamazov. Descontando a ironia magistral (leiam a crónica, que vale muitíssimo a pena), Casanova defende que "ouvir [um livro] é delegar parte da cognição a um autor desempregado" ( e eu concordo) e "ler é uma actividade tresloucada: consiste em ficarmos especados a decifrar uma sucessão de escaravelhos simbólicos até essas configurações gerarem pessoas, lugares, emoções e ideias dentro do nosso crânio", chegando mais à frente à conclusão de que "a diferença entre papel e ficheiros .mp3 é meramente estética: ler é uma alucinação com legendas, ouvir é uma alucinação com dobragem". Como disse logo ao início, não tenho a certeza absoluta de que assim seja, mas o cronista é um grande escritor e só as suas ideias e expressões já valem a pena. Claro que, depois de tantos comprimidos, ele esqueceu uma grande parte do que ouvira, mas isso, estou em crer, não era culpa do meio que escolhera.

Comentários

  1. Casanova é um iconoclasta e, porventura, um dos melhores cronistas da nossa praça

    MEC, RAP, ACL, AG, MC, MST: Casanova nada fica a dever a estes.

    "The greatest trick the devil ever pulled was to convince the world he didn't exist"

    Boas leituras

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  2. Acredito que os neurologistas especialistas em aprendizagem haverão de esclarecer se ou quais seriam as diferenças entre ler e ouvir no processo cognitivo. Retornaríamos talvez aos tempos da tradição oral e, ao menos empiricamente, me parece possível deduzir a importância da escrita na conservação do conhecimento e em alguma especificação dos processos sinapticos voltados à leitura. Mas não estou certo de que essa comparação entre audiolivro e a ancestral tradição oral seja pertinente. De todo o modo, acredito que em breve a produção de audiobooks seja facilitada pela inteligência artificial, que permitirá a inclusão de diferentes vozes a fim de melhorar a interpretação do texto, e isso a custos muito menores do que os atuais, algo semelhante ao que ocorrerá com a dublagem de filmes. Para aqueles que, como eu, não conseguem ler durante longas viagens por conta da vertigem, o audiobook é uma mão na roda. Boa semana!

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  3. Ouvir um audiolivro quando é uma história autobiográfica e é o próprio autor a fazer a leitura é uma ótima experiência

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  4. O leitor atento sabe de quem Rogério Casanova é pseudónimo porque o "Público" manteve, em tempos, até ser alertado para o erro e a eliminar, uma ligação para a página pessoal de alguém, mantida pela respetiva instituição de ensino na qual esse alguém é professor, e que nos dava conta do seu nome de batismo, das suas tarefas de ensino e dos seus contributos académicos. Não há nenhum mistério a este respeito. Mas dá igual, porque o autor das crónicas não é esse alguém, o autor é Rogério Casanova - e quem somos nós, leitores, para infringir as cláusulas deste contrato com o autor e andar a bisbilhotar no caixote do lixo à procura de saber que nome vem no cartão de cidadão ou qual a morada fiscal do sujeito?

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  5. Escreve bem e com propriedade, de forma pessoal, crítica e agradável, demonstra saber mais dilatado que aquele a que se cinge? Pois já está. Adopte-se. O nome não se me dá, de qualquer forma que sechame sempre o desconhecerei pessoalmente e só as crónicas, que inda não li, interessam.
    Quanto ao audiolivro parece-me útil em vários casos, mas tenho grande queda pelo livro em papel e prefiro esperar que a viagem termine para voltar ao dito. Gosto de olhar para as palavras, de as ir entendendo, de riscar e sublinhar, de anotar, de, como diz o suposto jornalista, ver nascer um mundo na minha cabeça. E tudo acontece em silêncio: é uma maravilha!

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  6. Fui sempre bastante céptico em relação a outro suporte que não o papel mas nos últimos anos rendi-me ao prazer de ouvir. Em 2024 ouvi 312. Após ouvir os primeiros 500, relatei essa experiência num artigo do facebook que, por ser extenso não dá para reproduzir aqui. Não sei se é permitido, ou de bom tom, deixar aqui links pelo que me abstenho de o fazer. Se a autora ou qualquer leitor estiverem interessados no relatar dessa experiência fornecê-lo-ei.
    Cumprimentos,

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  7. Gosto muito de audiolivros; prefiro ouvir não-ficção. A voz do narrador — sobretudo quando é o próprio autor — dá ritmo e clareza. Escuto sempre em inglês, pela imensidão do catálogo e pela (quase sempre) excelente produção.

    Vou procurar a crónica do R. Casanova.

    Barroca

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  8. Telma Pires Rodrigues7 de novembro de 2025 às 02:47

    Ouvir e ler, é a minha resposta. Tenho a casa cheia de livros impressos, mas também leio e-books e compro audiolivros.
    O meu filho lê os livros de aventuras do Geronimo Stilton (um verdadeiro clássico)na versão impressa, mas gosta igualmente de ouvir audiolivros. E quando se ouve, por exemplo, A Origem das Espécies, de Sabina Radeva (sobre a obra de Darwin) narrada por um mestre como é o Roy McMillan... é impossível não amar.
    Tenho ouvido principalmente audiolivros infantis, mas não me parecem uma má opção para ficção e não-ficção para adultos. Imprescindível é que a narração seja feita com a qualidade de uma boa edição em papel.

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