A sério?
Há exactamente uma semana, fui jantar com um casal de amigos a um restaurante que fica a meio caminho entre as nossas casas e que é assim uma espécie de cantina que frequentamos semanalmente há mais de vinte anos e cuja relação qualidade-preço é excelente. Além disso, os funcionários já nos conhecem e quase adivinham o que queremos. Sentamo-nos sempre na mesma mesa, que está guardada, e eu fico de frente para uma televisão que, estando calada, também nunca se apaga. Ora, nessa noite, havia um debate entre os dois candidatos à presidência do Benfica (Rui Costa e o outro, de quem não sei o nome mas ouvi na rádio que é advogado); e, enquanto escolhíamos e pedíamos o que iríamos comer, vi-os serem maquilhados, vi-os sentarem-se no estúdio, vi porem-lhes os microfones, vi as cores das gravatas, as expressões faciais, tudo com exagerado detalhe e alguma lentidão. Depois chegaram os "perguntadores" e reparei que eram quatro, mais do que os canditados. Para quê tanta gente?, inquiri só para mim. Depois veio a comida, desliguei do ecrã e estivemos a jantar calmamente e a conversar. Estranho foi quando acabei o excelente repasto perceber que o debate ainda durava, e que cada um dos candidatos estava a ter um tempo de antena (o relógio mostrava quantot tempo haviam falado) que nem os políticos em campanha eleitoral conseguem! Eu bem sei que este país gosta da bola, mas será ajuizado uma injecção de bola num canal noticioso em horário nobre quando há tanta notícia importante para dar? Noutro dia chatearam-se com a escritora Isabela Figueiredo por ela ter dito mal do preço certo. Pois para mim é ainda pior ocuparem tanto tempo num canal generalista com conversa futeboleira. Não chega já o exagero da conversa sobre bola em todo o lado? E a bola que passa praticamente três vezes por semana, se não mais? (Isto tem pouco que ver com o blogue, bem sei, mas porque será que os livros nunca têm direito a este privilégio?)
Como me disse o malogrado José Pinho, um dia que me refugiei na Ler Devagar,para evitar os descontos e novidades da feira do livro, "ler sempre foi o previlégio de uma minoria".
ResponderEliminarO paradoxal dos dias de hoje é o que antes era um problema de acesso ter-se transformado num problema de escolha - seja o Preço Certo, futebol, pintar quadros numa aplicação do telemóvel ou outra coisa qualquer.
Cultivemos, ou tentemos cultivar, as massas ignaras. Conscientes que seremos sempre uma imensa minoria.
Boas leituras
Pois... panem e futebolensis!
ResponderEliminarA par da actual e desmedida proliferação dos amigos dos animais, que nos conduziriam a um planeta dos macacos em versão futebolística - os macacos todos de equipamento de futebol, pergunto-me sobre as botas que não encaixam nos pés?
Confesso que não consigo entender tanto tempo dado ao futebol, não mesmo.
Ler, é o melhor remédio...
Enfim, há tanta coisa para se aproveitar e entre elas até o futebol é claro, mas sem os exageros mediático-disparatados promovidos pela nossa pobre, fraca e inútil comunicação social.
Saudações cá da Cidade Morena
O futebol televisivo tem audiência, a audiência permite a venda de publicidade, a publicidade é o "motor" que mantem a engrenagem a funcionar sem dinheiro público (leia-se dinheiro dos meus impostos e de mais uns quantos que os pagam) parece-me uma opção correcta, portanto.
ResponderEliminarOutra questão é se o futebol será cultura, se o dinheiro que o Estado canaliza para o futebol profissional não deveria ser mais bem aproveitado no desporto escolar (público e privado).
Quanto aos livros digamos que não são muito televisivos. Nos "realiy shows", por exemplo, nunca se vê ninguém a ler ou a escrever com caneta e papel, são duas atitudes anti-sociais, digamos assim.
Infelizmente o futebol e as eleições futeboleiras, que tiveram mais aderentes que as autárquicas, e também o andrézito, ocupam as antenas dos generalistas a torto e a direito; é claro que eu desligo logo ou mudo para a Odisseia! Uma vergonha a nossa TV!
ResponderEliminarO futebol é que induca.
ResponderEliminarMas tem a ver com a vida como ela é em Portugal. Eça teria hoje pano para mangas e muito mais.
ResponderEliminarInteiramente de acordo, se me permite, minha cara!
ResponderEliminarO povo quer é bola... fico enjoada quando ligo a televisão e só vejo futebol, futebol e mais futebol. às vezes tenho 5 minutos e dou uma espreitadela nos canais de noticias e penso "deixa-me ver o que se passa no mundo" e só vejo futebol. É melhor entreter o povo do que educá-lo.
ResponderEliminarAmén para Isabel Figueiredo.