Pais e filhos

Uso o título de um dos livros de que mais gosto do russo Turgénev (lido há muito, confesso, tenho de o reler) neste blogue para falar de um romance que li recentemente chamado O Aniversário. O seu autor, Andrea Bajani, já me tinha sido aconselhado pela fotobiógrafa de Pessoa (e viúva de Tabucchi) Maria José de Lancastre, que até me emprestou outro título dele para eu ler no original. Mas este O Aniversário não conta, na verdade, a festa de anos de ninguém, mas o décimo aniverário de uma espécie de divórcio entre um filho e os seus pais. Não estrago o prazer do leitor ao contá-lo porque as primeiras páginas do romance, a sinopse  e a cinta explicam logo que um homem se despediu dos pais num certo domingo, como fazia todos os domingos, só que o fez pela última vez, embora nem o pai nem a mãe o soubessem. E, quando começa este divórcio, ficamos com a ideia de que o filho é talvez um pouco egoísta; mas, à medida que a leitura vai avançando e conhecemos melhor o poder do pai e a escolha da mãe de se submeter, de abdicar da vida a favor do marido (abrevio muito, mas não quero naturalmente abrir o jogo), não podemos senão concordar com a partida definitiva do filho. O escritor francês Emmanuel Carrère, a propósito da obra, fala de um "escândalo" que se traduz num "livro escandalosamente sereno" e essa é uma excelente descrição para este romance muito contido, prudente, discreto, quando poderia ser demasiado colorido ou trágico. Um autor que sabe fazer as coisas e a que apetece regressar.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco4 de setembro de 2025 às 01:18

    Não consegui perceber quem é o autor a quem apetece regressar... creio que se esqueceu de o mencionar? Andréa Bajani, como podemos saber se nos interessarmos pelo livro
    Bom, eu interessei-me e fui ver, ainda bem pois descobri coisas muito interessantes.

    "O romance vencedor da 79.ª edição do Prémio Strega “explora sem piedade e sem concessões sentimentais a dinâmica das relações de poder que acontecem numa família”, descreve a editora.
    “Algumas famílias sobrevivem — miseravelmente — a um quotidiano de violência, à tensão sempre latente, aos gestos de anulação do outro, à ausência de laços de amor. Outras famílias desfazem-se para sempre. ‘O aniversário’ conta a história de um filho que, para viver a sua própria vida, renuncia à casa dos pais, condena-os ao isolamento e arranca pela raiz quaisquer possibilidades de reencontro ou comunicação”, lê-se na sinopse.
    Este filho procura na fuga uma hipótese de felicidade, escapando de um pai autoritário e irascível, e distanciando-se de uma mãe que de tudo abdicou em favor do marido.
    “Este corte profundo deixa um lastro de recordações, falhas e solidão, mas desperta uma sede vital de redescoberta interior”, acrescenta.
    “Faz dez anos que, nesse dia, vi os meus pais pela última vez. Desde então, mudei de número de telefone, de casa, de continente, construí um muro inexpugnável, coloquei um oceano entre nós. Foram os melhores dez anos da minha vida”, escreve o narrador da história." (SIC)

    Promete sim, este romance. Não leio muitos autores italianos, porém dos que leio, gosto!
    Penso que um italiano pode escrever sobre o tema como poucos: la famiglia. Creio que será um dos povos em que o peso familiar e a eventual opressão, é maior.

    "O escritor Emmanuel Carrère destacou isso, precisamente, escrevendo: “Poderemos alguma vez livrar-nos dos nossos pais? Do mal que nos fizeram? Sem olharmos para trás e sem reconsiderações? A pergunta é um escândalo, e Andrea Bajani confronta-a através da escrita, num livro escandalosamente sereno”." (SIC)

    Por acaso esta é uma questão fundamental, penso eu, por muito escandalosa que seja. Diria no entanto que é uma pergunta muito intima e pessoal, como a que faríamos sobre o casamento ou até percurso profissional e outros. Uma análise que deve ser feita, a nossa família marca-nos indelévelmente, para o bem e para o mal, analisá-lo de forma serena e esclarecida, pode ser uma ajuda do foro da psicanálise e ajudar a ultrapassar muitos obstáculos nas nossas vidas.
    Um tema controverso e até perverso, sem dúvida, porém se tratado literáriamente será inesgotável.
    Não é inédito, mas é sempre interessante, um livro a ler, penso eu!

    Saudações familiares cá desde a Cidade Morena.

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  2. Alterei ligeiramente a construção da frase para ficar mais claro.

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  3. A lista de links carece de uma atualização, alguns blogs já não existem e outros já não são atualizados há muito tempo.

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  4. Obrigada pela chamada de atenção. Está igual há séculos, provavelmente um dia desses terei de a omitir. Muitos blogues já desapareceram, mas não tenho tempo para estar a ver isso...

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