Voltar aonde nunca se esteve
Agora o Facebook está cheio de páginas em que as pessoas deixam escrito o que andam a ler e fotografam as capas junto de um pequeno resumo ou da sua opinião. Também aparecem páginas pessoais de gente (conhecida ou não) que gosta de partilhar com os Amigos as suas leituras do mês e que fala um bocadinho de cada livro, dizendo de que trata e porque gostou ou não. Há ainda páginas de livrarias com recomendações ("As minhas escolhas" na FNAC é um exemplo), em que autores mais ou menos conceituados ou artistas de várias áreas são filmados (de preferência numa livraria do grupo) a falarem de três livros de que gostaram e a explicarem porquê muito resumidamente. Todas estas páginas têm normalmente uma vastidão de seguidores; e na semana passada, não sei porquê (talvez as opiniões de leitores contagiem outros leitores), andava meio mundo a recomendar O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, que continua a ser o melhor livro sobre os portugueses que vieram para Portugal das ex-Colónias em 1975 e que, muitos deles não tendo aonde regressar por estarem em África há várias gerações, ficaram a viver em hotéis, nos quais famílias inteiras dormiam no mesmo quarto. Fiquei contente, até porque os mais jovens precisam de saber desta história e um romance assim bom é a melhor maneira de a aprenderem.
Os retornados retornaram, MRP, não nasceram lá... Muitos terão nascido lá e, por generalização, diz-se retornados (retornava a sua família). Mas dizer que os retornados nasceram lá é uma generalização em sentido contrário que me parece bastante imprecisa. E estatisticamente, naqueles anos, por causa da guerra e de um aumento da emigração para as colónias nos anos 50, entre os que vieram eram muitos mais os que tinham nascido cá, não lá: retornaram mesmo.
ResponderEliminar---
Eu e o meu irmão viemos com os nossos pais. A família retornou, sim, mas dizer que somos retornados porque nascemos lá, não corresponde à verdade. Só os filhos tinham nascido lá.
Quando gozavam connosco na escola e nos enviavam para as escolas mais longe de casa por sermos "retornados" estavam enganados, como eu dizia: "Não somos retornados, somos refugiados." :)
O paradoxo da escolha: tanta oferta e recomendação reduz drasticamente a possibilidade de lermos os retornos desta vida.
ResponderEliminarBoas leituras (e boas escolhas)
Tem razão!
ResponderEliminarO selo "retornado" foi colado a todos que vieram das colónias, fossem ou não nascidos cá, inclusive até a mulatos e a pretos! Porque "retornaram" também muitos pretos, o que é ignorado ou escamoteado. Refugiados é o termo, com toda a propriedade.
Ainda está por contar a verdadeira história da descolonização propagandeada como exemplar mas que hoje se diz abertamente, cá em Angola e aí em Portugal, que não o foi! Aliás, certos sectores da sociedade lamentam a forma como ocorreu porque ficou o país vazio de quadros, como se diz.
Há também os que foram, "retornaram", e depois regressaram a Angola. Houve bastantes e também pouco se fala disso... alguns eram presos ao chegar e depois iam à prisão convidá-los para cargos ou funções.
Há muita coisa ainda ignorada e que estimo vá sendo tema para livros que possam esclarecer e contar à geração actual como aconteceu, na realidade.
Na época, a verdade foi convenientemente mascarada, escondida e deturpada como bem sabe! Mas quase toda a gente ignora e prefere continuar a fingir que acredita na versão oficial, muito sensibilizados para os que hoje abandonam os seus países para se virem instalar cá, alegadamente em busca de melhores condições, mas ignoram olímpicamente aquelas centenas de milhares de portugueses que tiveram de abandonar as suas vidas e tudo o que tinham, sem opção nem compensação. Um drama histórico com consequências terríveis e que duram até hoje.
É triste... resta-nos a consolação de se poder escrever sobre isso, actualmente.
Desculpando-me pelo abuso, sugiro que procure um romance chamado "Não tem Domingo na Equimina", que fala da Angola de hoje e conta a história de um "retornado" que regressou. Não, não é de nenhuma chancela da Leya, tranquilizem-se.
Grande abraço cá da Cidade Morena, cinzenta e fresca do cacimbo que este ano tardou em entrar.
E diz muito bem, minha Extraordinária Anfitriã!
ResponderEliminarO Facebook está cheio de grupos desses, o que é Extraordinário e muito bom.
Eu sempre defendi que o Facebook, ou outra rede social, é algo de positivo, um serviço útil e prático que depende da forma como a utilizamos. Este é um bom exemplo, sem dúvida nenhuma, passe a publicidade, porque acredito em que devemos entender a modernidade com o positivismo daquilo que nos facilita a vida e nos dá meios. Ou ainda usaríamos velas e pombos-correio!
Saudações a todos os blogonautas e Extraordinários facebuqueiros amantes dos livros e da leitura, cá da Cidade Morena, distante mas afinal tão perto graças à tecnologia e à internet.
Tem razão, escrevi preipitadamente a pensar nas personagens do livro e na autora, que não retornou porque nasceu lá. Mas o que queria dizer é que havia pessoas a quem chamavam «retornados» que não o eram, como por exemplo o director da RTP, Nicolau Santos, cuja família estava em África desde os anos trinta. Vou refazer ligeiramente o texto.
ResponderEliminar“Voltar aonde nunca se esteve” a melhor frase de sempre! Tão real quanto imaginária.
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ResponderEliminarboa reformulação
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