Os nomes
Lembro-me de que, quando li Alice do Outro Lado do Espelho numa edição da Estampa, naquela colecção de capa preta com folhas azul-claras, nos meus tempos de faculdade, uma pergunta de Alice ficou para sempre na minha cabeça: "Must a name mean something?" Os seus interlocutores, se não me engano Tweedledee e Tweedledum, queriam saber o significava o nome Alice, e ela respondia-lhes com aquela pergunta; um nome tinha de significar alguma coisa? A querida poeta Ana Luísa Amaral chamou a um dos seus últimos livros What's in a name (leiam-no) e esta conversa toda vem a propósito do facto de um colega meu me ter contado que leu no romance de Miguel Bonnefoy de que aqui pus um excerto na última sexta-feira que o nome com que baptizaram a Venezuela não foi dado por acaso; antes de aquele território ser o país que é hoje, tinha uma data de pequenos canais e alguém pensou logo em Veneza, numa Veneza de trazer por casa, enfim, dado os canais serem bem menos sumptuosos. Mas foi por isso que se chamou Venezuela, a prova provada de que os nomes (próprios, claro) têm muitas vezes um significado. É até pena que muitos dos comentadores deste blogue não assinem com os seus verdadeiros nomes, pois talvez descobríssemos neles coisas engraçadas.
Ainda bem que aqui traz este sempre discutível e portanto interessantíssimo tema!
ResponderEliminarOs nomes têm ou devem ter, a ver com aquilo que titulam.
Por exemplo, aos meus cães, levo algum tempo a dar nome pois gosto de os "baptizar" de acordo com alguma característica sua ou acontecimento que tenha a ver com eles, o nome é uma coisa muito própria, acho eu. Excepto os tradicionais e por hábito "turco" e " Tróia" dos canzarrões de guarda que já vêm desde gerações, houve a "negrita" (preta), o "rói" (roía tudo), o "panzer" um braco alemão enorme, fortíssimo e bruto, o "ficaí" porque era fujão, a "bisnaga" porque se mijava toda, o "rufia" por feitio e a "rufina" por ser filha dele, o animado "feliz", o "baixinho", a "maisuma"... e por aí fora! O nome tem de traduzir algo.
Muita gente não sabe que os nomes próprios e apelidos têm um significado e não é preciso ir buscar o exemplo dos índios Norte-americanos - lembro uma anedota engraçada que me parece caber aqui:
- O pai explicava este conceito ao indiozito: O teu avô, porque grande guerreiro era "urso-forte", tua mãe de tão bonita foi "linda-manhã", tua irrequieta irmã "regato que corre", estás a perceber ó "preservativo furado"?
Adiante... todos os nomes significam algo, e, sem querer dizer que tenhamos as características do nosso nome, antigamente ele era dado numa tentativa de influenciar o nomeado ou como alegoria à terra, ligação a algum acontecimento, homenagear pessoa ou santo que o protegesse. É um tema muito curioso e vasto.
Dar nomes a produtos ou similares, é uma ciência, foi algo em que trabalhei e me dá um prazer imenso, o de criar nomes ou designações.
Os descobridores faziam-no óbviamente, Terra Nova não o foi por acaso como América, etc, Beira em Moçambique foi assim chamada porque em Portugal era terra de boa gente.
Na nossa ligação Extraordinária aos livros e à leitura, dar nome ao romance é igualmente fascinante. Alguns autores conseguem dar nomes muito adequados e outros nem por isso, se bem que às vezes me pareça que trabalharam mais o título que o romance em si... enfim, para não falar das traduções de títulos que revelam uma falta de imaginação imensa ou mesmo despropósito por insensível.
Uma semana Extraordinária e de nomeada, são os meus votos cá desde a Cidade Morena.
:)
ResponderEliminarhttps://ocasosluiscaminha.blogspot.com/2020/11/quadra-71.html
Sim, há uma situação em que simplesmente desapareceu um nome do mapa: “Corteguai” na América Central. E havendo na atualidade somente Paraguai e Uruguai, com desaparecimento do terceiro Guai. Deste modo “perdido na história”. Talvez por dimensão continental (o eixo) dissolveu um contexto outrora, unificado.
ResponderEliminarTer que ver, repita.comigo: ter que ver. Ter a ver não existe
ResponderEliminarSerá que a expressão ter a ver com é correta? Estamos perante uma expressão muito usada pelos falantes portugueses e muito frequente na Comunicação Social, pelo que já ninguém a estranha! Esta expressão, de influência marcadamente francesa, encontra-se de tal forma generalizada que já vem sendo aceite por muitos gramáticos. Acontece que a expressão mais antiga, e considerada mais correta do ponto de vista linguístico, é ter que ver.
ResponderEliminarDe uso já consagrado, a expressão ter a ver é aceite, mas em bom português, o ideal seria ter que ver.
Sátisfé, mon cher ánónime?
Quando refere «comunicação social» diz tudo! Não há melhor exemplo de abastardamento da Língua
ResponderEliminarÉ sempre um prazer passar Horas extraordinárias em sua companhia. Obrigada pelo estímulo e as recomendações.
ResponderEliminarUm beijinho,
Sónia
Ouais!
ResponderEliminar