O que ando a ler
Quando se deu o 25 de Abril, houve muita gente afecta ao antigo regime que apareceu logo a elogiar o novo (e a sacudir a água do capote). Claro que esse «virar a casaca» foi mesmo muito mal visto pela maioria das pessoas, mas o contrário também acabaria por acontecer: alguém que estivera na luta clandestina ao lado do Partido Comunista de repente era do PSD, baptizava os filhos e casava pela Igreja. É estranho, claro, mas o nosso admirável Julian Barnes, que esteve em Lisboa durante a última Feira do Livro, diz-nos que nem sempre mudar de ideias tem de ter uma carga negativa; e eu acrescento que por vezes é até sinónimo de maturidade. Num pequenino livro chamado justamente Mudar de Ideias, composto por um conjunto de cinco breves ensaios ao estilo que o caracteriza em obras mais longas e densas (como Nada a Temer, por exemplo), Barnes reflecte sobre porque mudamos de opinião a respeito de livros que lemos, da política, da linguagem (sim, as palavras que usamos também vão mudando com o tempo), de nós. É um livrinho bom para um serão, cheio de histórias deliciosas, como aquela ideia de Francis Picabia de que as nossas cabeças são redondas para as ideias poderem mudar de direcção. Um mimo.
Sou muito fã de Julian Barnes e vou, certamente, ler este livro.
ResponderEliminarBoas leituras!📚
Sim senhor, concordo com o J. Barnes. Quem nunca mudou de opinião? Serão muito poucos a poder dizê-lo, porque o que acontece é precisamente que estamos vivos, portanto ao vivermos crescemos, amadurecemos, evoluimos afinal e isso trás mudanças, com o tempo e como o tempo.
ResponderEliminarO nosso estimado e recentemente falecido Mario Vargas Llosa é um excelente exemplo, como José Saramago, ambos pelas razões opostas, pois este nunca mudou de idéias.
Vou seguramente comprar e ler este livro, por achar o tema interessantíssimo.
Saudações evolutivas cá da Cidade Morena.
Acabei de ler do Extraordinário Águalusa (não vem aqui a este espaço mas é um Extraordinário Escritor), o seu "Mestre dos batuques".
ResponderEliminarComeço por dizer que sou grande fã deste escritor, daí a razão de trazer aqui este tema, pois não sei se já aconteceu com outros dos nossos comparsas de leituras, mas imagino que sim.
Ora, este Mestre dos batuques fez-me lembrar, com a devida ressalva à grandeza literária ou falta dela, o Silmarilion de Tolkien e o meu Largueza.
A sua leitura transportou-me para ambos, com quem encontrei fortes pontos em comum e ligações até históricas. Atenção, não ouso comparar-me nem a Tolkien nem ao Águalusa! Mas aconteceu, não pensem que haja sugestão (ridícula) de plágio pois não creio que Águalusa alguma vez me tenha lido, e, quanto ao Silmarilion apenas me fez recordar naquela obra o uso da música. Quem tenha lido ambos poderá perceber o que refiro.
Este romance, parece-me demasiado hermético e algo pesado no conteúdo, não tanto quanto o Silmarillion - que nem consegui acabar de ler. Será influência do Mia Couto que acompanhou a escrita deste? Boa parte do romance é ligeiro, até em demasia e não faz jus à escrita habitual de Águalusa, com diálogos fraquinhos e a acção deixando muito a desejar, não parece de todo a escrita deste autor. Outra parte, é pesada, densa e de difícil compreensão para não-africanos ou para quem não conheça a cultura africana. Aquela outra parte, a que chamarei mundana, para os que conhecem a cultura e o modo de ser dos africanos, parece faltar autenticidade aos personagens e o que dizem, ou fazem, que não parecem nem uma mulata e nem um chefe tribal de guerra, mesmo que ocidentalizado... estararia a ver nele o Chivukuvuku?
Fico na dúvida, não sei se gostei ou não do romance... ainda não decidi. Há partes de que gosto e outras que me parecem pífias. Não pretendo minimizar a obra nem ofender um dos meus autores preferidos, mas desiludiu-me completamente.
Decididamente é romance que não aconselho a ninguém para se iniciar na leitura nem no africanismo.
Parece-me normal que a quem leia alguma coisa, uns romances façam lembrar outros, e, justamente a propósito de que "Tudo está ligado", encontro-me agora em expectativa forte para o último de Pepetela (outro dos meus preferidos), que estimo não saia gorada!
Satisfação de voltar a este espaço!
Votos de um extraordinário regresso e tempo de Verão, com boas leituras para todos, cá desde a Cidade Morena.
Já li e não me entusiasmou; admiro o Julian Barnes autor de "O Homem do Casaco Vermelho" e do "Papagaio de Flaubert" entre outros. Gostei da entrevista ao "Expresso".
ResponderEliminarMudar de ideia me parece saudável. Demonstra que o indivíduo continua a refletir coerentemente, atento ao princípiodo ensaio e erro. O que me parece patológico é morrer pelas ideias. Teimosia é uma evidência de que o pensamento encontra-se em coma. Boa semana!
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