O mesmo e o contrário

Estava a rever umas provas e precisava de cortar um nadinha de texto para ganhar uma linha, que era precisa um pouco mais abaixo por causa de um travessão de início de diálogo que, por lapso, não tinha saltado para o parágrafo seguinte. E foi então que reparei numa coisa curiosa: a frase dizia que uma mulher estava «desesperada por não saber o paradeiro do filho». Porém, se estivesse «desesperada por saber o paradeiro do filho», na verdade, também pouco mudava (podemos estar desesperados por encontrar alguém). Tirei o «não» e ganhei a linha de que precisava, mas... Como é que uma frase com «não» (negativa) e uma frase sem «não» (afirmativa) podem querer dizer a mesma coisa? Um amigo chamou-me a atenção para o facto de que há mais casos: o verbo «sancionar» também é paradoxal. Implica sanção, castigo, e ao mesmo tempo aprovação. Podem aplicar-se sanções a certas medidas (no sentido de as chumbar); e podem sancionar-se medidas (confirmá-las, ratificá-las). Que esquisito, não é? A língua portuguesa é tramada.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco21 de julho de 2025 às 01:47

    Há que tomar muito tento naquilo que se escreve, sim, pois o português é mesmo uma língua muito traiçoeira.
    Mas vejamos:
    - "Uma mulher estava desesperada por não saber o paradeiro do filho", eu interpreto como estava aflita porque não sabia onde estava o filho!
    - Já o "desesperada por saber o paradeiro do filho", tem duas interpretações possíveis:
    1º E imediata, é que estava incomodada PORQUE sabia do paradeiro do filho!
    2ª A outra possível, é que estava ansiosa PARA saber qual seria o paradeiro do filho!
    Não será?
    A proposição "por" não traduz com exactidão, o contexto é que lhe dá sentido, daí o português ser um idioma deveras complicado, pois escrito mais ou menos da mesma forma pode ter significados diferentes.
    "Ir por" pode significar ir em busca de, como pode significar qual o caminho seguido.
    Sinceramente agradam-me estes jogos de palavras e fazer as combinações!

    Por agora é tudo, saudações cá da Cidade Morena, por onde me encontro!


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  2. Creio que não, não querem dizer a mesma coisa. O primeiro é o desespero associado à ignorância (do paradeiro), o outro é o desespero pela busca. O primeiro pode ser de alguém que está entregue ao choro, fechado num quarto escuro, o segundo será de alguém que não dorme, não come nem descansa enquanto não encontrar o que procura. Embora a alteração possa não comprometer a ideia geral da história nem criar uma oposição, o sentimento é diferente.

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  3. Maria Do Rosário Pedreira21 de julho de 2025 às 03:08

    Bem visto!

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  4. Cláudia da Silva Tomazi21 de julho de 2025 às 05:08

    Discordo ser a língua portuguesa “traiçoeira”. Posto que a palavra “desespero” já é a negação de esperança.

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  5. Estaria também desinquieta como agora se diz para significar inquieta.

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  6. Se repararmos desinquieta tem dois prefixos de negação (-des e -in) e como tal anulam-se.Deveria ser sinónimo de quieta.

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  7. Pois devia, mas perdeu-se o significado de inquieto, passou a ser insuficiente para significar o que se pretendia.
    Os rios do sul eram odes mas esse significado perdeu-se e hoje temos que dizer rio duas vezes, Rio Odeceixe, Rio Odelouca, Rio Odeleite, por exemplo. Mas há um território onde a designação gua se perdeu e foi preciso usá-la três vezes. Então Rio Gua Ode Diana, Rio Gua Ode Alquivir, Rio Gua Ode Diel.

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  8. Travar uma guerra. É guerrear ou é pôr-lhe um travão acabando com ela?

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