França e Marrocos
Penso que li todos os livros de Leïla Slimani publicados em Portugal. Não me lembro se comecei pela Canção Doce (que foi, creio, o romance que a tornou mais conhecida) ou por O Jardim do Ogre (a história de uma ninfomaníaca que nos sacode o coração), mas decididamente aquilo que mais me interessou na obra desta escritora foi a trilogia que se inicia com O País dos Outros, continua com Vejam-nos Dançar e termina com o recentemente publicado Levarei o Fogo Comigo. Trata-se da história da família da autora, cuja avó francesa se casou com um rapaz marroquino que conheceu na França da Segunda Guerra Mundial, rapaz que, regressado ao seu país natal com a jovem mulher, assume um comportamento completamente diferente do que tinha na Europa (muitíssimo mais conservador e machista). No segundo volume, conheceremos os filhos deste casal e, no terceiro, as duas netas (sobretudo uma delas, que vai estudar para França e que, no fundo, é a própria Leïla Slimani, hoje a residir em Portugal). Este último volume é, para mim, o melhor, talvez porque seja mais fácil reproduzir as nossas próprias memórias do que as alheias; mas é especialmente importante num tempo em que as migrações, o racismo, a expulsão de refugiados e de trabalhadores estrangeiros, a xenofobia, etc., são assuntos que estão na ordem do dia. Leïla Slimani fala de tudo isto numa história fascinante que mostra como algumas pessoas nunca se conseguem sentir inteiramente de um lugar. Vale a pena começar pelo princípio, claro, mas existe nas primeiras páginas do último livro uma lista das personagens dos 3 volumes que ajuda a esclarecer a história da família se alguém quiser começar pelo fim.
Sem dúvida que será uma obra interessante, que aponto e irei ler.
ResponderEliminarMais uma aliás, como ontem foi referido e é aquilo que a Nossa Extraordinária Anfitriã faz, ainda que seja confundido com a promoção do grupo editorial para quem trabalha.
Grato a ela por fazer essa promoção publicitária, pois nos abre tantas portas à leitura, que é aquilo que aqui nos reúne e deveria ser o nosso maior tema de conversa!
Na verdade, sobre o tema do romance hoje aqui trazido, eu mesmo sei do que se trata e na primeira pessoa, na pele e nos sentidos.
Sou um emigrante em Portugal e um imigrante em Angola, considero-me esclarecido o bastante para avaliar a situação, portanto não preciso que me digam nada quanto a isso.
No entanto interessa-me o tema, sim.
Tenho essa característica geral dos portugueses que é um dom, o camaleónico... ou seja integramo-nos e adaptamo-nos aos lugares, povos e costumes dos países onde assentamos.
O que faço aqui, é participar e apoiar, ensinar, formar, não tenho como propósito mudar o país e nem as suas gentes, leis e hábitos, por muito que não concorde, e aliás não é tanto assim ou já me teria ido embora... ou não é?
É isso que falta a muitos migrantes, que fogem de algo que levam consigo e o querem impor nos novos locais onde se instalam. Coisa que custa a perceber!
Digam tudo o que disserem dos portugueses, mas o certo é que somos o povo de melhores migrantes que existe! Digo-o porque sei e assisto ao vivo diáriamente, em cada hora.
Teorizam muito, os do costume, académicos, políticos, intelectuais, jornalistas... que o divulgam e passam ao público manipulado e ingénuo. Público constituído por muita gente sem nunca ter saído da bolha, da sua rua, da aldeia, da vidinha... que forma e sustenta opinião apenas porque "acho que sim"... como se esse achar, depois reforçado porque se leu algo escrito por quem também acha, fosse a realidade. Não é! A realidade é só uma e para a conhecerem, saiam das vossas casas e vidas e vão viver noutros países, trabalhem ao lado de estrangeiros, com eles, no dia-a-dia. Não basta ler ou ouvir outros, aliás tão ignorantes apesar de informados quanto aqueles a quem pretendem informar/manipular.
Depois darão outro significado à xenofobia, racismo e essas tretas todas na moda, muito badaladas mas que nem sabem o que são. Apenas se fala delas como se houvesse um profundo conhecimento e vivência daquilo que os indigna mas nunca experimentaram.
Venham para cá, venham, mas não em visita de uma semana, ficando no hotel Mil Cidades, venham morar numa rua e casa comum, andar na rua, conduzir no meio dos kupapatas e trabalhar com as pessoas vulgares. Ou então ou vão morar no Martim Moniz. Depois falaremos!
Lamentamo-nos de que ninguém lê... queixamo-nos da ignorância, lamentamos a falta de princípios, preocupamo-nos imenso com as alterações climáticas, a guerra em Gaza e a governação americana, que são o que faz de nós "modernos e esclarecidos", acha-se! Muito seguros das nossas opiniões.
Talvez as memórias da avó da Leila façam pensar e abrir os olhos a tanto esclarecido naquilo que não conhece.
Esse ainda o serviço que este nosso Horas Extraordinárias fará: - Divulgar a palavra e estimo que a sabedoria dos livros.
Votos integrados cá da Cidade Morena.
Solidarizo com o último parágrafo, na certeza que há tanto sentido em vossas palavras quanto covardia em nossos corações. Não que seja uma questão de fraqueza, mas para além das necessidades nos acomoda inclusive “a individualidade, a autonomia, o poder”.
ResponderEliminarTudo que é humano nos interessa, precisamente pelo filtro de outro olhar onde possamos nos alongar em generosidade.
ResponderEliminarLeila Slimani é uma fabulosa carreirista e nem lhe seria atoa, congraçar tanto saber! Parabéns
É muito provável que a (alegada, quantas vezes falsa) «xenofobia» resulte, também, do facto de esses «rapazes marroquinos» - e de outros países cuja religião dominante é a mesma - serem, tanto ontem como hoje, consideravelmente «machistas», e nem precisarem de sair da Europa para o demonstrarem.
ResponderEliminarLer.
ResponderEliminarAté inventarem uma vacina para o ódio ao próximo, está aqui uma alternativa não invasiva a considerar.
Boas leituras
Ora aí está... boa vacina essa!
ResponderEliminarAliás de larguíssimo espectro se formos a ver, receite-se sem restrições.
Na conferência matinal desta quarta-feira, 9 de Julho, Conversa com Leïla Slimani, no claustro de Saint-Louis do festival de Avignon, a escritora franco-marroquina defendeu a língua árabe como património europeu e escudo contra o fanatismo, evocou a sua herança familiar, a complexidade das identidades mediterrânicas, o direito ao segredo para as mulheres e a liberdade de escrever contra tudo e contra todos.
ResponderEliminarA convite do Festival de Avignon, a escritora franco-marroquina interveio numa conversa sobre línguas, heranças e a construção dos imaginários. Falou de árabe, de francês, de transmissão, de paternidade, de vergonha e de libertação.
Na conferência, Leïla Slimani falou de uma língua árabe há demasiado tempo marginalizada, mantida à distância como se dominá-la ameaçasse a identidade francesa. A língua, para ela, é tanto uma protecção como uma chave: “Compreender o árabe é proteger-se do fanatismo, é recuperar o domínio sobre as próprias raízes”. E afirma, com a simplicidade cortante que a caracteriza, que o árabe não é uma língua estrangeira. “É uma língua europeia. Uma língua do Mediterrâneo. Está nos nossos pratos, nas paisagens, nas palavras do quotidiano", defende.
É nesse momento que a sala se aquieta porque Leïla Slimani não faz militância, estabelece pontes, ligando a França a Marrocos, o Norte ao Sul, as palavras dos jovens dos subúrbios aos poetas da Andaluzia. “Anda-se em Marselha, depois em Tânger, e por vezes não se vê diferença", compara.
A escritora fala de cartas recebidas de anciãos comovidos, de colonizadores arrependidos, da sua própria família. Do pai, da queda, do silêncio, das contradições. Do cheiro do tabaco num quarto fechado. Da vergonha como herança e dessa ideia comovente: “Para que ele se interessasse por mim, tinha de lhe pedir um livro”.
Leïla Slimani evoca também o direito ao recolhimento: “Tenho o direito de fechar a janela. Tenho o direito de não dizer tudo”. Numa época que confunde fala com transparência, recorda a beleza do segredo e reivindica uma liberdade radical: a de não dever nada, nem às expectativas, nem às normas, nem à narração contínua de si mesma.
Eis a literatura pequenina. A literatura que a MRP tanto adora.
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