Excerto da Quinzena

A vilegiatura marítima começa em Monte Gordo num período de crise para os pescadores locais. É certo que nunca lhes pertenceram os meios de pesca, nem as embarcações nem as redes de arte, e que os tempos, portanto, nunca foram de abundância. Mas aí, nas xávegas, sempre tiveram lugar como parceiros ou como contratados. Acontece que a xávega tem os dias contados, ameaçada pelas armações de sardinha, pelos cercos e galeões, as parelhas de arrasto espanholas, práticas predatórias a desviar ou a delapidar os cardumes, a destruir os fundos marinhos. Não vai longe o tempo em que o Capitão do Porto de Vila Real de Santo António se lamentava de a indústria piscatória se encontrar limitada à pesca da sardinha com xávegas, quando era tanta, e inaproveitada, a riqueza destes mares. Pois agora, na década de 1890, com os cercos a apanharem os cardumes de pelágicos antes de estes se aproximarem da costa, com anos sucessivos de arrastos predadores a destruir os fundos marinhos, o pobre aglomerado "decai a olhos vistos pela escassez da pesca da sardinha", com as poucas Barcas ainda em actividade a fazerem lanços miseráveis.


José Carlos Barros, Os Filhos de Monte Gordo, Fundação Francisco Manuel dos Santos

Comentários

  1. António Luiz Pacheco23 de maio de 2025 às 01:33

    Ora atão munto bons dias!
    Aí está um interessante excerto, de livro que me desperta a curiosidade e tem tanto a ver com as minha actividade.
    A ler, portanto!

    Votos de um Extraordinário fim de semana para todos, cá desde uma Cidade Morena que tarda em entrar no cacimbo, porém em festa pelo seu aniversário!

    Para celebrar e para quem aprecie o género musical, o Extraordinário - Eu sou praia morena - da excelente Irina Vasconcelos, alusivo a esta efeméride. Oiçam que vale a pena!
    https://www.youtube.com/watch?v=zwpKd7-9Yv4

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  2. "A política é a grande generalizadora - disse-me o Leo - e a literatura a grande particularizadora, e, entre ambas não se estabelece apenas uma relação inversa, mas também uma relação antagónica".

    excerto de "Casei com um comunista", de Philip Roth (Dom Quixote)

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  3. Cláudia da Silva Tomazi23 de maio de 2025 às 10:08

    “Um tesoureiro de Francisco I quis que êle viajasse na carruagem da mala postal. “Assim viajam os filhos do duque”, alegou para decidi-lo.
    - Como nunca fui filho de duque, (replicou Cellini,) não sei como viajam essas personagens, mas os filhos de minha arte viajam em pequenas jornadas.
    Um mordomo do duque de Florença, que ele maltratava como era seu costume, admira-se “que se tenha julgado digno de falar a uma pessoa como êle”.
    - Os homens como eu são dignos de falar tanto aos papas, aos imperadores como aos grandes reis. Não se encontrarão dois do meu feitio no mundo inteiro; mas as pessoas como vós, encontramo-las às dezenas em cada parte.”

    Benvenuto Cellini por Paul de Saint-Victor
    (Trad. de Mário Ferreira dos Santos)

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  4. ISABEL
    "És muito estúpida, tu. Direito a falar? Esse é o primeiro dos erros. Foi assim que começou. «Todos têm direito à opinião», não é? A opiniãozinha. Mesmo que a opinião seja mentira. Mesmo que a opinião vá contra os direitos humanos, a ciência, a saúde. Durante anos, permitimos que fossem ditas todas as alarvidades. E as alarvidades começaram a ser populares. Começaram a ter votos. Permitimos que os fascistas dissessem a deputadas negras para voltarem para o seu país. E depois, quando mulheres negras foram espancadas pela polícia ou assassinadas por skinheads? Vais dizer-me que não há rclação? Permitimos que os fascistas dissessem que os verdadeiros patriotas deviam sair à rua e lutar pelo valor sagrado da vida contra as feministas defensoras do aborto. Depois vimos feministas serem ameaçadas, perseguidas, atacadas em todo o país. Coincidência? Quando permitimos que eles dissessem que a homossexualidade é uma aberração, achas que eu continuei a poder andar de mão dada com a tua mãe sem sermos insultadas? Agora ganharam as eleições anunciaram que vão proíbir o casamento entre pessoas mesmo sexo. A tua mãe e eu deixaremos de ser casadas. Vão anular o nosso amor. E não demorará muito para que anulem também os nossos corpos. E como é que começou tudo? Com a opiniãozinha. Explorando o medo e o preconceito. Mentindo, Manipulando. Criando a infra-estrutura da impunidade. Os alicerces do edifício fascista. Agora vale tudo. Porquê? Porque nós permitimos que eles continuassem a falar, a falar, a falar. Que nojo. Há anos a ouvi-los. Cada vez mais opiniões. Cada vez mais vozes fascistas. E nós a ouvi-los. Uma náusea. Uma impotência. Uma vontade de matar. E queres tu que eu o deixe falar? Para fazer um dos seus discursos? As palavras são poderosas, Catarina. Devias saber isso. Os discursos que ele escreveu, agora são leis. Amanhã serão artigos da Constituição. E onde é que começou? Na opiniãozinha. A maldita opiniãozinha que ninguém teve a coragem de matar à nascença."

    Tiago Rodrigues - Catarina e a Beleza de Matar Fascistas. 2024

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