Excerto da Quinzena
Era uma vez, numa grande floresta, uma pobre lenhadora e um pobre lenhador.
Não, não, não, não, acalmem-se, isto não é o Pequeno Polegar! De modo nenhum. Tal como vocês, detesto essa história ridícula. Onde e quando já se viu pais a abandonarem os filhos por não terem o que lhes dar de comer? Vá lá…
Nessa grande floresta, portanto, reinavam a fome e o frio. Sobretudo no inverno. No verão, um calor sufocante abatia-se sobre a floresta e expulsava o frio. A fome, pelo contrário, era constante, sobretudo naqueles tempos em que grassava a guerra mundial.
A guerra mundial, sim, sim, sim, sim.
Como o pobre lenhador fora requisitado para serviços de interesse público – para benefício unicamente dos vencedores que ocupavam cidades, aldeias, campos e florestas ‒, era portanto a pobre lenhadora que, da aurora ao crepúsculo, percorria a floresta na esperança, frequentemente frustrada, de encontrar com que prover às necessidades do seu magro lar.
Por sorte – há males que vêm por bem –, o pobre lenhador e a pobre lenhadora não tinham filhos para alimentar.
O pobre lenhador agradecia aos céus essa graça todos os dias. A pobre lenhadora queixava-se do facto, mas em segredo.
Não tinha filhos para alimentar, é certo, mas também não tinha filhos para amar.
Por isso, rezava aos céus, aos deuses, ao vento, à chuva, às árvores e até ao sol, quando os seus raios perfuravam o arvoredo, iluminando o matagal com uma transparência feérica. Implorava assim a todas as potências do céu e da natureza que lhe concedessem finalmente a graça da vinda de um filho.
Jean-Claude Grumberg, A Mais Preciosa Mercadoria, trad. de Luísa Benvinda
Todos os que aqui vimos gostam de ler e eu não sou exceção.E aprecio particularmente exaltar os escritores portugueses.Pois bem,li recentemente “O segundo coração “de Bruno Vieira Amaral.É um livro de crónicas,umas melhores que outras,mas que no geral denotam um bom espírito de observação e escrita bem conseguida.Vale a pena!
ResponderEliminarIgualmente já tinha lido dele “As primeiras coisas “.Também gostei,mas lembro-me que tinha palavrões a mais.Foi vencedor do prémio Saramago,só para recordar.