Tarrafal

Publico há muitos anos (uns quinze, creio) um autor de Cabo-Verde, Mário Lúcio Sousa, que além de músico e escritor foi também ministro da Cultura do seu país. Quase todos os seus livros foram premiados, mas destaco hoje um romance que se chama O Diabo Foi Meu Padeiro, integralmente passado no campo de concentração do Tarrafal, desde a sua abertura até ao abandono das instalações (no final, tem a lista de todos os prisioneiros que por lá passaram, de diversos países). É, porém, a propósito de um outro livro sobre o mesmo tema, Tarrafal : Campo de Concentração, com organização de Alfredo Caldeira e João Esteves, que o auditório da Fundação José Saramago acolhe hoje uma conversa que reúne, além dos autores, António Gato, Diana Andringa, Domingos Abrantes, Fernando Rosas, Luís Farinha e Maria Luísa Tiago de Oliveira, para falarem realmente do que foi essa prisão tremenda que se inaugurou com os revoltosos da Marinha Grande nos anos 30 e que viu morrer muitos de disenteria e outras doenças. A sessão é às 18h30, com entrada livre, dependente da lotação da sala.

Comentários

  1. Cláudia da Silva Tomazi9 de abril de 2025 às 05:51

    A natureza do escritor “portentoso” por vezes o antecede em necessidade o ato a expressão plural dos mais diversos gêneros. Talvez, por neste caso em particular o Tarrafal a necessidade se lhe liga em virtude por explicitar… um clamor sem luxo, nem vaidade. Poucos escritores se aventuram caminharem por lugares sombreados ou identificarem injustiças. Sim, literalmente botar o dedo na ferida. Ora, transformar a sua em gélida voz por dores; devo dizer que retrata, resgata a mais autêntica ternura, tão mais essência a humana. Neste caso o sofrimento cabindo, revela o quão sobre-humano pode ser o esforço de sobreviver à vertente do poder, exaurido no exercício da aniquilação. Diante do post de hoje, receio que alguma coisa em Cabo Verde está perdida; extraviada no Tarrafal. Parece ter semelhanças em todas as mundiais lições, o “campo de concentração”. Eu creio em comum carregam aquela incondicional voz a exemplo do premiado: ‘Ainda estou aqui’ de Walter Sales.

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  2. António Luiz Pacheco9 de abril de 2025 às 07:41

    Porém nem uma palavra dos distintos, a propósito dos muitos intelectuais detidos em Cuba, por delito de opinião!
    Não quero ser desmancha prazeres, certamente o Tarrafal foi algo de que devemos lembrar-nos e não permitir volte a acontecer, seja para prender quem seja, de esquerda ou de direita só porque se tem uma opinião que não é a vigente ou do regime, o que ainda hoje em pleno século XXI ainda acontece, seja por razões religiosas (há um casal de cineastas iraniano condenado a prisão por ter realizado um filme em que as mulheres não usam véu!) ou políticas ou simplesmente por idéias.
    Infelizmente ainda acontece e pode vir a acontecer mais... tenhamos medo!
    Eu tenho, mas o meu medo é da Ana Gomes, confesso.
    Não costumo levar os comentários para a política, mas hoje proporciona-se, e, como tenho muitos amigos cubanos, que sofrem os horrores do regime e da repressão, não posso deixar de falar neles, sobretudo.

    Saudações livres cá da Cidade Morena.

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  3. Foi uma lição de prática de história, uma luta da memória contra o esquecimento.
    Obrigado pela sugestão.
    Boas leituras

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  4. Cláudia da Silva Tomazi10 de abril de 2025 às 04:12

    Extraordinário ALP os argumentos da ternura ainda são visíveis com a nossa geração. A história simplesmente distancia as lições, empurrando-as para baixo do tapete. Cuba aí está, apontando em “nosso nariz” que o colonialismo é atemporal. Lamento os cubanos; já foram mais presente nas dores do mundo. Tenho a impressão que até os próprios, acostumaram com o destino.

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