Solidão do escritor
Falei aqui há cerca de uma semana da solidão com que se escreve (a partir de uma frase de Paul Auster) e da leitura como possibilidade de ficarmos menos sozinhos, de percebermos as personagens como alguém que sofre ou se alegra ao nosso lado. Mas há outro tipo de solidão para um escritor, a da incapacidade de partilhar a vida seja com quem for, porque escrever está sempre primeiro, escrever é a própria vida. Li um dia destes num post de um amigo espanhol no Facebook que o romancista norte-americano Philip Roth está entre os solitários deste tipo. Parece que disse uma vez numa entrevista: «Vivo sozinho, sem ninguém por quem seja responsável ou com quem dividir o tempo. A minha agenda é inteiramente minha. Escrevo todo o dia e, se me apetecer, volto para o meu escritório depois do jantar. Não tenho de me sentar a entreter quem quer que seja. Se acordo às duas da madrugada com uma ideia, acendo a luz e vou escrever. Estou de serviço, como um médico nas urgências. Eu sou a emergência.» Percebo que a escrita às vezes é tão absorvente que não deixa espaço para outra vida. Mas essa outra vida não é o que oferece matéria ao escritor?
Não! É a memória e a capacidade transformadora da imaginação!
ResponderEliminarPenso que cada caso é um caso. Não se pode generalizar.
ResponderEliminarE nem assim PR conseguiu o Nobel que tanto ambicionava...
Boas leituras!
Há vários modelos de escritores.
ResponderEliminarTalvez seja fácil chegar a duas "generalizações"...
Ao escritor que não precisa da rua, é ele que gosta de inventar o mundo e as suas personagens (Lobo Antunes, Roth, etc). Basta-lhe a janela, os livros dos outros e o cinema.
E também ao escritor que precisa do mundo, que sente necessidade de andar de um lado para o outro, a roubar palavras, olhares, sorrisos, lágrimas às pessoas com quem se cruza (talvez seja a maioria das pessoas que escrevem...).
Realmente, acho que a vida do escritor é com cada um e todos os casos são diferentes. Essa atitude de PR (que não está para entreter ninguém...) enfim, não sei o que dizer. As amizades, o convívio, as conversas, a atenção que o escritor dá às conversas, tudo o que vê, tudo o que conhece, pessoas, ambientes, viagens e, principalmente, a curiosidade que tudo move e que pode empurrar, entusiasmar um espírito aberto e interrogativo, um espírito curioso pelo mundo, pelo vasto mundo, quanto a mim, é extraordinariamente importante. Uma situação é a fase da escrita, o percurso das ideias, a dedicação e a concentração do escritor quando "larga as amarras"; outra coisa é a indiferença e o alheamento total dos espaços que o rodeiam.
ResponderEliminarSei que existem personalidades de escritor como a de PR, mas também sei que existem enormes, imensos, eternos e reconhecidos escritores como, por exemplo, a personalidade sobre quem eu estou a escrever agora e quase, quase a terminar, que não têm, nem nunca tiveram esse comportamento bisonho, carrancudo, eu diria, antipático.
Poucas pessoas como esta personalidade sobre quem escrevo agora - uma vida dedicada à literatura, escrevendo-a - aproveitaram melhor a vida !! Em tudo !!
Cristina Carvalho
Todos os escritores precisam de rua e dos outros, o imaginário não trabalha no vazio. Há os que a precisam para a saber e poder contar; e os que a metamorfoseiam de tal modo que surge outra, fazem-na renascer. Não creio que seja por observação de filmes que se escrevam grandes obras, embora possam dar uma achega. Suponho que exista um trabalho da sensibilidade - uma sensibilidade especial - sobre o que a memória guarda. Há muito de originário em quem escreve bem. Porque não se é escritor por ler muito, mas por essa forma especial de sentir o mundo e que empurra para a escrita.
ResponderEliminarO PR pode ter feito a declaração que a MRP cita, mas ele não viveu sempre em isolamento, partilhou a vida com pelo menos 2 mulheres, que me lembre. E lá por dizer que prefere viver em isolamento, não quer dizer que não tenha amigos com quem esteja de vez em quando, nem que não saia de casa e observe o mundo. É verdade que ele escrevia sobretudo sobre si próprio, mas também sobre outras pessoas que conheceu, incluindo as suas mulheres. Até porque, para usar a memória, é preciso construir essa memória, e para a relatar, é importante que haja outras pessoas dentro.
ResponderEliminarMas parece-me que os escritores que vivem mais, dão-se mais, partilham mais, escrevem livros mais interessantes, porque não tão auto-centrados. Mas eu sou suspeita, porque nunca percebi o fenómeno Roth, acho-o um chato - os seus temas, na generalidade dos casos, interessam-me pouco.
Esqueci-me de assinar Filipa.
ResponderEliminarCaro Luís Eme,
ResponderEliminarNão concordo em relação a Lobo Antunes.
Tudo ou quase tudo o que LA escreve é autobiográfico (na minha opinião).
Isto, por exemplo:
https://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/vitorino-boleroDoCoronel.html
é uma história real aconteceu com o autor ou foi-lhe confidenciada. Tal como quase todos os livros "Os cus de Judas" é o exemplo óbvio.
A solidão do Philip Roth eram as mulheres.
ResponderEliminare aqueles que nos seus tempos livres não têm hábitos de leitura e nada lêem Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim...!? Valha-me Deus !
ResponderEliminarCada escritor permeia uma nuance, sendo ou não fruto de seu tempo. Há antigos que são modernos e modernos sem sentido. Mas, pessoalmente admiro os quê possuem uma escala mágica com as palavras e tornam-se de capacidade perfeitamente visíveis e, talvez raro imprevisto. Mas, se no controle for fascinante, modulando paixões e acelerando emoções e de repente nos lançar à uma “fome” a cada página vai ser fenomenal. Eu simplesmente amo esta vertente fecunda, autêntica e imparcial. Fluir a natureza de acontecimentos os criando sólidos, redondos e aprazíveis é nos fazer mergulhar na alma humana com seus traços de divindade.
ResponderEliminarClaro que também, há personalidade e personalidades as podem ser, totalmente intolerante e insensível e nem por isso, sua obra deixa de refletir a capacidade adversa a realidade e que nos comova ou, se nos fazem chorar. Embora sejam tantos aspectos criadores, aliás consistentes ou não, mas perceptíveis e transformadores dessa energia que é ter em uma relação com escrita a leitura o cognitivo. Sim de comum o resultado a sabemos, atinge e cerceia o melhor dos mundos: o imaginário.
Já nos ensaios o conhecimento a dinâmica é outra parada, pois um escritor com conhecimento e causa tem na sua produção a dimensão conceitual a ciência, tornando-se um autêntico objeto de leitura.
nos tempos livres . cuide do seu cérebro . leia um pouco >>> jornal, revista, blogs, livro.hmm !?
ResponderEliminar"As amizades, o convívio, as conversas, a atenção que o escritor dá às conversas, tudo o que vê, tudo o que conhece, pessoas, ambientes, viagens e, principalmente, a curiosidade que tudo move e que pode empurrar, entusiasmar um espírito aberto e interrogativo, um espírito curioso pelo mundo, pelo vasto mundo, quanto a mim, é extraordinariamente importante."
ResponderEliminarPois... para mim também é!
Só com uma diferença: - eu não sou escritor! No entanto também penso assim, e, tendo em conta que a Extraordinária Cristina é precisamente Escritora e tem escrito sobre escritores, julgo que a sua opinião ou "percepção" (como se diz agora) é da maior relevância.
Saúdinha da boa, desejo-lhe eu, cá da Cidade Morena.
Inteiramente de acordo, cara Filipa!
ResponderEliminarÁmen!
ResponderEliminarQue tema tão estimulante aqui nos é trazido hoje.
ResponderEliminarTenho estado a ler todos com o maior interesse, tendo a concordar com o tema do isolamento, do "escritor-ilhado" (escritor-ilhéu é outra coisa...), todavia parece-me que (e como foi muito justamente referido pela Extraordinária Filipa) o escritor antes de escrever não esteve ilhado, ou então ia escrever sobre quê? Sobre a sua digestão gastro-intestinal por exemplo?
Parece-me que há dois tempos, um tempo de recolha, de observação, de mastigação e digestão de tudo o que rodeia o escritor e o inspira, motiva e lhe dá idéias, e, o tempo da criação, em que põe tudo no papel.
Não sou escritor, porém, o que tenho escrito tem sido assim e acredito que será também em muitos outros, nos que são escritores evidentemente.
Um escritor parece-me que deve ser o espelho de alguma coisa e nam por isso apenas de si próprio, ou não é?
Saudações escritas, cá da Cidade Morena!
nos tempos livres . cuide do seu cérebro . leia um pouco
ResponderEliminar> jornal, revista, blogs, livro.
A verdade na solidão de um escritor (neste caso) o anonimato.
ResponderEliminarnos tempos livres, as pequenas leituras de jornal, revista, blogs, livro, são "medicamentos" para lubrificar o cérebro e não acessórios de moda. hmm !?
ResponderEliminarQue horror, “Philip Roth um chato” !
ResponderEliminarCaríssimo Luiz Pacheco
ResponderEliminarAs amizades, o convívio, as conversas... - como bem diz a Cristina Carvalho, e o Extraordinário da Cidade Morena também enfatiza - são importantes para um escritor, como também o são as leituras.
Já quanto ao António Luiz considerar-se "não escritor", discordo. Tem obra escrita, que se recomenda, e publicada; logo, faz parte do grupo dos que escrevem e lêem, como o também tem demonstrado neste espaço. É Escritor.
Para além disso, o facto de se encontrar lá longe, na Cidade Morena, não esmorece essas duas qualidades referidas no parágrafo anterior.
Um abraço desde o Planalto, onde a cultura também saltou dos livros para os telemóveis e tablets.
Termino como comecei: cada caso é um caso!
ResponderEliminarTal como a Filipa, o PR nunca me encantou; o ALA também não.
Quanto ao ALP, claro que é um escritor - bom ou mau, não sei, nunca o li a não ser no blog, mas é um escritor!
Boas leituras!