A Booker is a Booker is a Booker

Há prémios que não me dizem nada, mas tendo a confiar no Booker Prize, pois provavelmente a maioria dos romances que chegaram à final ou venceram esse prémio foram livros de que gostei bastante ou de que gostei muito. Nos últimos anos, claro, houve algumas excepções (Bernardine Evaristo não é a minha praia, devo dizer...) e o Booker, como todos, teve alturas em que fugiu mais para as questões fracturantes do que para a literatura, o que me desiludiu; ainda assim, a média manteve-se muito alta em termos de qualidade. E não é que este não tenha qualidade, mas o penúltimo vencedor do Booker Prize Internacional publicado em Portugal pareceu-me na verdade aborrecidíssimo: repetitivo, pretensioso, cheio de filosofices e com referências muito óbvias a peças de música clássica, não sei explicar, mas li-o arrastando-me ao longo de muitas páginas e suspirei de cansaço em alguns capítulos, quase iguais a outros que tinham aparecido umas quantas páginas antes. Calculo que o problema não seja do livro, mas meu; afinal, os encómios lá fora e cá dentro a este livro (Kairos, de Jenny Erpenbeck) repetem-se, e a badana até sugere a ainda jovem autora como obviamente nobelizável (expressão retirada de um artigo de um jornal bastante respeitável); por isso devo ser eu que ando sem grande ânimo para leituras do tipo. Aos que já o leram pergunto se gostaram, talvez isso me possa dar uma ideia clara sobre o meu estado actual, mesmo que não sobre o romance. Um autor que publico, ao entregar-me o seu último original, perguntou-me se ainda estaria bem de cabeça e podia continuar a escrever. Eu pergunto a quem já leu se a minha cabeça ainda estará boa para apreciar originais...

Comentários

  1. António Luiz Pacheco18 de março de 2025 às 02:38

    Se mantém a sanidade para se questionar sobre ela, é porque ainda não é um caso perdido... eheheh!
    Acredito que na sua mal-compreendida porém nobre profissão, haja o normal desgaste que redunde em cansaço e certamente que falta de ânimo que refere, para além daquilo que se verifica com todos os comuns mortais à medida que avançam nos anos: menos paciência. Suponho que o tempo seja neste caso e em termos cronológicos, directamente proporcional à paciência.
    Saúdo-a no entanto, não por bajulação mas sim porque acredito mesmo que uma carreira como a sua é notável. Pode não agradar a todos mas temos de lhe reconhecer o mérito.

    Quanto às citadas premiações, para mim discutíveis e que em nada me impressionam, já aqui disse várias vezes que pouco ou nada pesam na minha escolha!
    Até desconfio delas, pois muitas vezes me soam como mera promoção editorial e nem sempre serão tão meritórias e honestamente atribuídas.
    Nesta particular vertente da nossa amada e Extraordinária leitura, eu corro em pista própria, como podem já ter percebido.
    Isto não significa que deixe de dar atenção ao que neste Extraordinário Espaço é dito, tanto pela Nossa Extraordinária Anfitriã, quanto pelos demais Extraordinários, identificados ou anónimos, que tanto me deliciam com os seu comentários, sensatez e ilustração. Já fui por aqui, levado a ler livros muitíssimo bons, diga-se. Gosto de os ler e de trocar até impressões, pois como ainda há dias se falava, lá por gostarmos de ler ou de escrever não vivemos isolados.
    Porém, reservo-me a liberdade de gostar daquilo que me preenche ou de algum modo toca, pois sinto que é essa a grande missão da leitura. Perdoem-me a tendência para a filosofice mas deve ser da chuva... eheheh.

    Saudações pluviosamente copiosas, na condição actual de alagamento partilhada convosco, cá desde a Cidade Morena.

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  2. Gostei muito, um pouco repetitivo por vezes (a vida não é assim?), mas que se "abre" na "Caixa 2" com o enquadramento histórico da derrocada da RDA. É todo um mundo que nos é estranho - nós por cá, no ocidente, consumíamos e ouvíamos música pop - que está patente, especialmente na voz e pensamento do protagonista Hans(?), uma diferente cultura, não sendo, antes pelo contrário, as referências musicais e filosóficas dispiciendas, antes sublinham uma diferente atmosfera e outro modo de viver. Crepuscular e magnífico.

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  3. Pois essa de ter muita filosofice despertou-me a curiosidade. Vou inclui-lo na lista de leitura ... do ano que vem.

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  4. Depois de um desabafo, uma sensação de cansaço deixou-me apreensivo. Tomei-o como um cansaço de ler e já estou a ver ultrapassá-lo escrevendo uns poemas a propósito.
    Quem sou eu para a aconselhar mas dedicar os olhos e o olhar espraiando-os uns dias por montanhas, vales, rios, bosques, mares, verdes, azuis e castanhos da Natureza e alguns quadros realistas e surrealistas talvez lhe devolvesse o desejo da leitura e dos livros.

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  5. O comentário do Paxeco não poderia ser mais certeiro, a grande maioria destes prémios "é tudo treta", -mas alguém acredita que os membros do júri leia todos os livros a concurso?

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  6. Entendo eu, aqui do Planalto agreste e frio, alguma suposta amargura (ou cansaço) no que diz a nossa Extraordinária Anfitriã. Isso está patente na dúbia interpretação, quando refere o livro em apreço : "calculo que o problema não seja do livro, mas meu".
    Independentemente da valia da obra "Kairos", no meu modesto entendimento, daria como semelhante a opinião da Rosário se acaso esta obra aparecesse noutra altura, imaginemos há 10 anos... Creio que a sua apreciação seria a mesma, tanto mais sendo editora por quem já passaram centenas de originais, cada um com a sua nomenclatura imaginativa escrita, o que lhe aufere a capacidade que certamente não abdicará nem perderá.
    Eu não me canso de ler, como também não me canso de escrever e desenhar. Neste contexto e desafogo, ainda no sábado fui apresentar o magnífico livro de um Amigo no salão nobre da Câmara da Covilhã. Como podeis compreender, nem me cansou ler o livro duas vezes, antes e depois de editado. Assim semelhante será a vida de um editor, sempre pronto a "provar" cada obra escrita, tal como o cozinheiro os acepipes que lhe põem à frente, sem enjoo, má cara ou esmorecimento.
    A Rosário exerceu, nesta opinião ,a sua justa apreciação, tanto mais livre porquanto nem se trata de uma obra sobre a qual prepondera o aval para a sua edição. E devemos ter isso em conta.
    Cada dia tem seu cuidado, mas cada cuidado tem seu dia. Substituam, se entenderem fazê-lo, a palavra "dia" por "livro" e criareis, meus caros Extraordinários, num novo aforismo.

    Um abraço geral, desde este Planalto acastelado

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  7. Severino, normalmente há uma "pré-selecção" feita por quem organiza o prémio. O Júri lê os romances seleccionados - que podem ser vinte ou até menos, podem ser apenas uma dúzia.

    Soube disso porque uma vez concorri a um prémio e como conhecia um dos elementos do júri, depois de terem escolhido o vencedor, falei com ele e ele disse que não tinha lido o meu romance (contei-lhe a história...), ou seja foi logo eliminado na "pré-selecção". Ele acabou por ler o meu manuscrito e perguntou-me se eu tinha algum problema com "fulano tal", porque o que a história que eu escrevera era superior a vários dos textos seleccionados que ele lera...

    A partir daí não voltei a concorrer a qualquer prémio literário...

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  8. Obrigado pelo esclarecimento caro Paxeco. Estou sempre a aprender.

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  9. Claudia da Silva Tomazi18 de março de 2025 às 10:12

    A premiação de um Booker é diferenciada, especial. Creio ser de uma imparcialidade impecável o post de hoje.

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  10. António Luiz Pacheco18 de março de 2025 às 10:15

    Não fui eu, Seve. , foi o Luis EME. Mas sim, já concorri a algum concurso literário e nunca tive nem sequer resposta, salvo para ir recolher o texto. Mas não é por isso que desconfio deles, no meu caso posso muito bem nem ter qualidade, não posso ser juiz em causa própria.
    Mas tenho consciência de que nem eram assim tão maus...
    Abraço!

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  11. Obrigado Luís - o seu a seu dono.

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  12. Bom dia,
    Longe de pretender ou sequer poder dar à extraordinária Dra Maria do Rosário Pedreira uma ideia clara sobre o seu estado actual, em jeito de apelo à sua questão, apenas posso dizer que estou neste momento a ler "Kairos", e embora, ainda esteja numa fase muito incipiente do romance (Katharina está em Colónia), estou a gostar.
    Boas leituras

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  13. Francisco Henrique das Dores Cheira19 de março de 2025 às 05:12

    Li o kairos há pouco e embora não tenha ficado deslumbrado gostei do que li.
    Henrique Cheira

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  14. Bem, e eu aqui venho mais uma vez, a nada dizer, a nada acrescentar, já que não tenho o chamado dom da palavra. Mas, repetidamente, não me contenho em deixar o "ai" de que gostei ou adorei as vossas partilhas, as ilações expressas, como me satisfaz este blogue. Como sempre, agrada-me a partilha com sentimento, sem as paredes de qualquer espécie, os desabafos, com que publicamente a Maria do Rosário Pedreira nos obsequia. E, servindo-me da muleta alheia, assinaria quase tudo aquilo que António Luiz Pacheco hoje escreveu. Tenho a mesma idade da MRP, une-nos de certa forma algumas coisas, como sendo por exemplo, o trabalhar com os livros aos 62 anos... e ao lê-la verifico que as interrogações, as dúvidas (tem dias) podem também ser similares. Para o caso da Maria do Rosário, acrescento a minha convicção do seguinte: a força da experiência profissional (sobretudo, mas não só), tanto texto absorvido, não lhe trará sim, uma cabeça mais capaz, que os novos textos de lê!? Quando a bítola do conhecimento é alta, claro que sobrará alguma falta de paciência para o menos bom, o mais leviano. A dúvida sobre o estado da cabeça, não será culpa da mediocridade, da "leveza" dos outros!?? (Pessoalmente, a todos os níveis, prefiro um editor "sénior", que alguns dos "novos" editores" – talvez isto sim, tenha a ver com os meus 62 anos. A Maria do Rosário menciona de quando em quando o Manuel... que falta nos faz semanalmente, por via do Expresso). jmr

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  15. Achei o mesmo. Aborrecido e cheio de referências culturais que nada me diziam mas que também não me interessava investigar. Não o recomendei ou emprestei porque foi uma desilusão. Ou eu esperava mais ou diferente.

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