Verosímil e consistente
Temos de acreditar no que estamos a ler, ou não conseguiremos prosseguir até ao final do livro. Quando leio um bom romance, consigo visualizar as cenas, ponho rostos nas personagens, vejo-as dentro da minha cabeça a partir dos dados que o narrador me oferece, assisto aos seus gestos, às suas acções, elas estão vivas para mim. É isto, aliás, que os escritores consagrados referem quando dizem que ler lhes permitiu ser outras pessoas e que, depois, escrever foi frequentemente serem outros sem deixarem de ser quem são. Nos últimos tempos, porém, leio muitos originais em língua portuguesa em que não consigo acreditar, mesmo que por vezes os seus autores me digam que aquelas histórias aconteceram na realidade. É como se estivessem a dizer-me o que as personagens fizeram, sem eu, mesmo assim, as ver fazer nada; é como se as personagens começassem por ser descritas como irascíveis quando, ao longo de todo o enredo, têm a maior paciência do mundo e nunca se alteram. Tão-pouco consigo desenhá-las na minha mente, não têm rosto, são de papel, meras duas dimensões, caricaturas, arquétipos, nada mais. Como acreditar então nestas histórias, se nem as visualizo nem me convencem? E algumas até já estão publicadas... Penso que a verosimilhança e a consistência são dois dos mais importantes requisitos na ficção: mesmo para os autores que inventaram universos, como na boa ficção científica ou em Macondo, de Cem Anos de Solidão, quem não acredita naquilo tudo? Se querem escrever, leiam primeiro os grandes autores e aprendam com eles.
Portanto, desde 2020 (pelo menos, senão desde tempos anteriores) o panorama não se alterou, antes pelo contrário. Isto a fazer fé neste podcast que ouvi ontem enquanto conduzia https://podcasts.apple.com/us/podcast/maria-do-ros%C3%A1rio-pedreira-vivemos-tempos-sem-empatia/id1121637421?i=1000502067468
ResponderEliminarBoas leituras
Não podia estar mais de acordo. Aliás parece-me tão, mas tão evidente aquilo que é dito, que me pergunto se é possível alguém pensar a escrita/leitura de outra forma? Fico mesmo atónito com o que a Nossa Extraordinária Anfitriã revela, que seguramente que é verdade, tendo em conta a sua experiência e as funções que exerce!
ResponderEliminarLer um livro é como ver um filme, ou seja, temos de ter como recriar na imaginação o que é descrito, portanto, tem de o ser por forma a conduzir a tal.
Já o disse aqui, parece-me que há quem escreva para si mesmo e não para os outros!
Portanto se imagina ou visualiza, esquece que tem de o transmitir de forma a que outros o façam, seja uma história ficcionada ou não.
Um relatório, uma proposta, uma memória descritiva ou mesmo uma reportagem (dependendo do conteúdo, evidentemente) são diferentes de um relato, de uma história ou de um romance. Aprendi isso numa já longínqua cadeira de Estilística Prática.
O que é Extraordinário na nossa amada escrita/leitura é justamente essa maravilha de poder ver aquilo que se está a ler! É essa a magia da leitura, sobretudo face ao cinema por exemplo, em que estamos a assistir e não há margem para a imaginação.
Saudações mágicas cá desde Cidade Morena.
O melhor argumento de um livro continua ser a força de seu personagem.
ResponderEliminarAtenta a observação da Rosário, pautada em larga experiência vêm calhar.
No que às vezes percebo é a pressa de encerrar livro, e do meio para o fim estivesse em contagem regressiva. Talvez, o modo de vida atual dita o andamento de muitos escritores versus produzir em isolamento. Também, sinto a falta e digo uma “embriaguez lúdica de facto e não metódica”. Um arpejo não é a mesma coisa que um soluço, embora sons.
Realmente a leitura tem que ser convincente, senão não embarcamos de corpo e alma.
ResponderEliminarBoa semana!
O JOVEM JORNALISTA está em HIATUS DE VERÃO do dia 19 de janeiro à 06 de março, mas comentarei nos blogs amigos nesse período. O JJ, portanto, está cheio de posts legais e interessantes. Não deixe de conferir!
Jovem Jornalista (http://jj-jovemjornalista.blogspot.com.br/)
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Até mais, Emerson Garcia
Mas porque é que toda a gente fala nesse livro, é horrível de ler... Eu leio livros de 500 páginas em dois ou três dias, e o Cem Anos de Solidão foram alguns 5 ou 6 meses para o conseguir terminar... Escritores como Gabriel Garcia Marques, Isabel Alende ou Frida Kahlo, não obrigada.
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