Os intelectuais

Um dia destes encontrei uns apontamentos tirados durante uma conferência de Viritato Soromenho Marques em São Miguel a que tive o prazer de assistir em Dezembro passado. Tratava do papel dos intelectuais em tempos sombrios como os que vivemos, e apontei num caderno alguns requisitos para se ser intelectual, até porque me parece que há muitos que o não são mas que a maioria considera assim. Entre essa lista de características estavam possuir conhecimentos vastos, ter sentido de justiça e respeito pela verdade, bem como coragem para assumir posições que se calhar não agradam maioritariamente ao público; assumir a responsabilidade pelas consequências sociais dos seus actos, ter espírito crítico e exercer poder de influência; e, por fim, possuir uma ideia do tempo e do espaço em que se vive. Para Umberto Eco, porém, o intelectual está mais relacionado com quem «produz novos conhecimentos através da criatividade», explicando que um professor de Filosofia que repete, ano após ano, a mesma aula sobre Platão é menos intelectual do que o agricultor que encontra uma nova forma de enxertar macieiras e contribui para uma mudança de processo que benefiará a sociedade e o futuro. E acrescenta: alguém que tem «a habilidade de questionar, analisar e reinventar aquilo que fazemos [...] Essa é a única régua capaz de medir a atividade intelectual». Para mim, têm os dois razão, mas penso que temos cada vez menos intelectuais ao leme dos nossos países, ou estarei enganada?

Comentários

  1. Os critérios andam pela hora da morte.
    Exemplifico: como tenho o estranho hábito de ler (livros e jornais em papel), como dou respaldo a professores exigentes (daqueles que não têm pejo em dar negativas), ou como aconselho a modelar o uso da linguagem, a usar gradientes ("não digas "odeio esse filme, diz antes que não apreciaste, não gostaste, que o tema não te seduz") ... Por isto tudo e coisas parecidas (não ligar muito a futebol, apesar de jogar), eu, um vulgar e pacato cidadão sou apelidado pelos amigos e amigas dos meus filhos de ... (sim)... intelectual
    Ora, assim sendo, Soromenho Marques, Eco e outros da mesma estirpe são estratoesféricos para esta maralha.
    Sugestão de leitura sobre o ar do tempo (zeitgast): o presciente Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business, do americano Neil Postman (mais um que deve estar a dar voltas no caixão). Fica o desafio para alguém o editar em Português.
    https://en.wikipedia.org/wiki/Amusing_Ourselves_to_Death
    Boas leituras e Boa Sorte

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  2. Bom, para começar, discordo de vivermos em tempo sombrio!
    De todo. Nunca houve tanta luz.
    O que há é sempre, saudosistas ou descontentes, frustrados e os insatisfeitos crónicos. Lembro-me perfeitamente de ter 16 anos e ouvir as amigas da minha avó fazerem os mesmos comentários sobre o mesmo tema, criticando os tempos de hoje (hoje, então...) e em particular os jovens de agora (agora, então). Evito isso, eu, pois nem quero ser confundido com a tia Júlia Barros e Matos, com a D. Maria José Lobo de Vasconcelos e demais viúvas sem filhos ou solteironas impenitentes e por aí fora, maldizentes e sempre azedas, a quem a ti Estrudes Verduga, desbocada mas certeira, uma vez definiu ao passar montada de lado na sua burra, ao fim de um dia de trabalho, perto daquele conclave reunido debaixo dos plátanos: "Íííhhh, tanta uva p'a vindimar e tanta mulher aqui sin fazer nada!". Ora bem. Não caiu bem, mas ainda hoje é recordada por isso.
    Não. Vivemos nos nossos tempos, temos é de os conhecer e ter noção da realidade. Sombrios só se o forem por nossa causa. Estejamos abertos ao que de bom existe e saibamos aproveitar. Sejamos nós luz.

    Intelectuais... gostei de ler a definição aqui trazida, pois é aquela com que me identifico.
    Modéstia à parte - temos de ter noção do que valemos - presumo pertencer a essa categoria, a dos intelectuais, dado que é esse o meu trabalho: usar o intelecto.
    Possuo as características acima definidas, possa embora também não ter sempre razão e até dizer ou fazer coisas erradas, só que as corrijo, como definiu Bento de Jesus Caraça, um intelectual. Calma, que não me estou a comparar ou a alcandorar ao nível deste sábio ou de Viriato Soromenho Marques, sei perfeitamente que estou num nível muito inferior.
    Credito que intelectuais somos muitos de nós, e, a nós compete portanto fazer alguma coisa para que os tempos não sejam sombrios... a Nossa Extraordinária Anfitriã faz poesia e publica escritores Extraordinários, portanto faz ela mesmo algo por essa luminosidade, além de manter aqui este espaço Extraordinário onde se faz igualmente luz, que atrai da sombra as traças dos livros como eu, com pretensões a intelectual!

    Votos de um dia luminoso para todos, é que desejo cá desde a Cidade Morena!

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  3. Claudia da Silva Tomazi12 de fevereiro de 2025 às 04:18

    A intelectualidade feita seleto número de pensantes, creio eu teve seu auge no século XX. Advindo de uma série de movimentos que socialmente se lhe ligavam as descobertas ou experimentos. Já os portugueses herdaram em muitos continentes as diferenças e ponderações culturais e eu nem saberia avaliar o quanto da importância, impertinência ou responsabilidade dos valores; considerando a influência da carga civilizacional e que diretamente, implica à intelectualidade o conhecimento e relações o foi frutífero dos pares. Particularmente não saberia posicionar se a cultura europeia desde então, sofre abusos pela investida de seus valores culturais por exemplo. Temos como agentes colonizadores e disseminadores do pensamento espanhóis, ingleses, franceses e portugueses. E até, que ponto a evolução do pensamento lhes devolveu o retorno em tantas conquistas?!

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  4. Ora bem, Extraordinária Cláudia, é preciso entendimento para reconhecer, que os portugueses foram tanto colonizadores quanto colonizados.
    Levaram para os territórios descobertos, colonizados ou para onde emigraram, as suas idéias e costumes, porém, receberam, colheram e beberam muitíssimo lá nesses locais longínquos ou exóticos, o que acabou por os influenciar e mais tarde veio a tornar-se parte integrante desses portugueses que fatalmente o passaram aos que nunca saíram do torrão, e, acabou compondo a nossa própria cultura, as nossas idiossincrasias.
    Não tenho qualquer dúvida naquilo que estou a dizer e a Cláudia sugere.

    Atrevo-me mesmo a dizer que, de todos os colonizadores, nós portugueses fomos os mais colonizados, ou influenciados pelos povos que colonizámos. Talvez porque fomos colonizados desde os tempos mais antigos por povos germânicos, celtas, romanos, árabes e absorvendo dos vizinhos espanhóis, dos franceses e britânicos. Talvez isso nos faça mais abertos do que se pensa e diz, temos de assumir. Somos permeáveis em extremo aos costumes e idéias de fora, é a verdade. Já os espanhóis são muito arreigados aos seus costumes e pensar, os ingleses desprezam tudo o que não seja britânico e fecham-se (acham eles...), os franceses presumem-se a luz do Mundo mas também adoptaram muito do que outras culturas lhes impressionaram.

    Saudações cá do paralelo 13, Sul é claro.

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  5. Um intelectual tem a noção de que os seus conhecimentos, ao contrário de serem vastos, são até infímos, daí a sua constante necessidade de saber mais.

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  6. Usam o inteleto o cientista, o tecnólogo, o investigador (no laboratório, na natureza ou na sociedade, presente ou passada), o artista (mais claramente na literatura e no teatro, mas também na pintura, na escultura, no cinema), o publicitário, o geoestrategista, o analista (desculpem-me aqueles que não tive tempo de incluir). De todos estes, e por força dos meios de comunicação social, habituei-me a considerar intelectual aquele, de entre os elencados, que expõe os seus pontos de vista, a sua opinião fundamentada e respeitada, a propósito dos assuntos relevantes na sociedade.

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  7. O tempo exigido para se adquirir e meditar sobre vastos conhecimentos, requisito acima apontado como essencial para se ser considerado como um(a) intelectual, foi reduzido com o aparecimento da televisão e ainda mais com o computador e o smarphone. O intelectual é um ser que é raro porque resiste a entregar o seu tempo às indústrias de entretenimento; pertence a uma minoria que vive cada vez mais separada dos gostos do resto da sociedade. A palavra intelectual é hoje, para o cidadão comum, um termo usado como injúria ou ouvido como exótica presunção da parte de quem tal se afirma.

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  8. Obrigado pela sugestão do livro de Postman, com título bem sugestivo, que vou encomendar por 15€.

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  9. Sempre boas estórias se podem ler nos posts deste nosso amigo ! Obrigado !

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  10. Alguém disse que só os ignorantes acham que sabem tudo ou que nada mais precisam de aprender.

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  11. Toca num ponto extremamente importante... muito bem observado!
    Digo muitas vezes, que é espantosa a cultura de um Luiz de Camões que escreveu Os Lusíadas de cór, sem outro recurso que a sua memória e o que sabia.

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  12. A ideia que dar negativas por si só é sinal de exigência não passa de um mito. Da mesma maneira, um aluno que tenha médias impressionantes por si só pode não querer dizer grande coisa.

    Um exemplo adequado é que é possível determinar que um aluno com médias de 15-16 pode vir a ser muito melhor médico no futuro do que um aluno com médias de 19-20 (ser médico não depende apenas de saber biologia e matemática, está mais do que estudado). A escola modela o rendimento, mas se calhar não faz ideia das qualidades humanas de um aluno. A escola em Portugal esquece-se que atrás de um aluno há um ser humano.

    Por outras palavras, nos casos da minha família que se licenciaram lá no tempo antigo, foram alunos relativamente fracos nos liceus, por ex, mesmo nas suas disciplinas favoritas (médias de 12, por aí), mas depois foram excelentes profissionais, de topo. Lá está, se fosse hoje nem média tinham para entrarem nas universidades. O que é ridículo. As notas podem não querer dizer grande coisa. Há serial killers que foram alunos exemplares.

    As notas más e boas dependem sempre de diversos factores (o aluno gosta da disciplina? o aluno já rendeu antes nessa disciplina, e agora não porquê? etc.)

    Tive diversos profs. no meu percurso escolar que me deram negativas porque embirraram comigo; noutros casos nem valia a pena, não gostava do prof. como podia gostar da sua disciplina automaticamente? Também tive alguns casos engraçados com prof. diferentes na mesma disciplina ao longo de um ano lectivo, com o primeiro não passava de um 7\8 com o outro cheguei a ter 16. Quem tem razão, o primeiro ou o segundo? Se calhar ambos, mas as coisas também variam, até porque gostava mais da matéria dada pelo segundo, mas também gostava mais deste prof. do que daquele. Seria o 2º prof melhor do que o 1º prof ou o 1º mais exigente do que o 2º só porque me dava negativas? Nem uma coisa nem outra, porque depende da perspectiva.

    Se um aluno tiver com problemas em casa ou no ambiente escolar, também pode não render.

    O facto de um aluno ter negativas não quer dizer nada por vezes, a não ser falta de rendimento com um determinado prof.
    Está na minha opinião a confundir exigência com rendimento.
    Um prof. na minha opinião pode fazer a matéria, e não o contrário, caso contrário os robôs podiam substituir os profs. Tive diversos profs. que se limitivam a despejar conteúdo. É poucochinho.

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