O corpo tem memória?

Houve alturas em que Anna acreditou na igualdade que recompensa independentemente do género, «que não quer saber se usas maquilhagem ou como são as tuas pernas». Mas depois, como muitas raparigas e mulheres, sentia necessidade de ser vista e de se sentir especial. E, perante os olhares, as mãos e as palavras dos homens, não conseguia deixar de ceder, embora dividida entre o desejo de se mostrar e o pavor de o fazer. E agora, que dá aulas num mestrado em jornalismo, dá por si a discutir o legado do #MeToo com muitas jovens, enquanto pensa em todas as vezes que cedeu. Quantas interpretações damos à palavra «consentimento»? Quando é que podemos ter a certeza de que um «sim» não esconde uma hesitação? Anna procura culpados, mas não tem a certeza de se poder considerar uma vítima. Terá de se perdoar a si mesma, olhando para dentro de si com coragem e sinceridade, para se poder aceitar e seguir em frente? Em todo o caso, continua à espera de que lhe peçam desculpa. Proposto ao prestigiado Prémio Strega, Continuo à espera de Que Me Peçam Desculpa é um romance extremamente actual sobre como às vezes só muito tarde as mulheres percebem como sofreram abusos. Com a curiosidade e a inteligência que caracterizam a sua escrita, Michela Marzano convida-nos a reflectir acerca da relação ambígua que temos com os outros e com o nosso próprio corpo.


 

Comentários

  1. O assunto é muito sério, importante e atual, mas se o #MeToo aparece por ali afasto-me logo.

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  2. Hoje em dia, qualquer comentário jocoso feito por um homem, contendo alguma implícida ironia, pode ser alvo de acusação de abuso. E já nem falo do divertido flirting que alegrava a vida de mulheres e homens há 40 anos… Teremos todos nós, homens anciãos, de pedir desculpa por imensos “pecados” antigos. E purificarmo-nos lendo livros como o recomendado hoje…

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  3. Claudia da Silva Tomazi5 de fevereiro de 2025 às 09:16

    Excelente tema por conseguinte livro, atualíssimo. Ter a percepção evolutiva de um salto ou de o ser paradigma. E o alinhar elementar, histórico… No crescente possibilita às rédeas contra a ingênua “onda” da natureza feminina. Se assim o lhe posso caracterizar também, por uma associação que assombra ou da empatia, elabora, desenvolve transformações. Recordo Catulo: “non videmos menticae quod in tergo est”.

    Parabéns a Michela Marzano

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  4. Adoro a Michela Marzano, filósofa, ensaísta e romancista. Li quase todos os livros dela. Uma voz sensível e erudita.

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