Excerto da Quinzena

Imaginem uma menina de onze anos.


Imaginem-na com uma bandolete vermelha e um par de calças axadrezadas.


É 1985, e a Anna está na escola: sentada na primeira fila, os dedos manchados de tinta, muito atenta enquanto o professor de matemática explica a teoria dos conjuntos.


O homem tem cerca de quarenta anos; está de costas, tem uma mão no bolso e com a outra escreve no quadro: A ⊂ B.


Algum de vocês sabe o que significa aquele símbolo que desenhei entre a letra A e a letra B?, pergunta, virando-se para a turma. Caminha entre as mesas lentamente, chega ao fundo da sala de aulas e volta para trás, aproxima-se do estrado, apoia um pé no degrau, vira-se de novo para olhar para os alunos.


Silêncio.


O professor ostenta um sorriso malicioso, sarcástico: Não sabem porque são burros, ou era a vossa professora da escola primária que era burra?


Imaginem que o homem permanece imóvel por alguns instantes. E que depois recita aborrecido: A é um subconjunto de B, portanto, todos os elementos do conjunto A pertencem ao conjunto B. Dúvidas?


Silêncio.


Bem! Então, qual de vocês é capaz de dar-me um exemplo?


Silêncio.


Quantos de vocês representam o subconjunto “burros” do conjunto “turma”? O professor arregala os olhos.


Imaginem que caminha de novo entre as filas, fixando um a um os alunos, só os rapazes, evita as raparigas, e que, de repente, contudo, para à frente de uma morena e diz-lhe que vá ao quadro. E que, mal ela se levanta, ele inclina a cabeça e observa-a a andar.


 


Michela Marzano, Continuo à espera de Que Me Peçam Desculpa, trad. Sara Peres

Comentários

  1. Imaginem um menino de onze anos no Liceu Camões, uns anos antes de 74, de gravata obrigatória, a ouvir aterrorizado: “se tiver três noves no final do período, perde o ano.”

    ResponderEliminar
  2. Sou desse tempo, desse lugar e passei por isso. Não esqueço uma professora de matemática, de nome Ondina, que chamava burro a quem no quadro escrevesse o denominador de uma fracção antes do numerador

    ResponderEliminar
  3. Acho esses comentários horríveis e sem dúvida que aterrorizavam as crianças.Mas hoje em dia assistimos a coisas bem piores,com atos violentos entre colegas,agressões gratuitas,desrespeito por tudo e por todos sem qq consideração por professores,auxiliares e amigos da escola.Vivemos uma era de verdadeiro terror nos diversos estabelecimentos de ensino,em que até os próprios pais dão sempre razão aos meninos,sem o mínimo de preocupação educativa e chegam a insultar e agredir os professores.
    Não sei onde vamos parar !

    ResponderEliminar

  4. Gosto muito pouco de tremendismos e ainda menos da ideia de que a explicação do mundo pode estar encerrada num único livro. Mas este Verão andei entretido aflito com A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, um dos livros do momento. Tinha ouvido Haidt dizer que estamos perante a "maior destruição de capital humano na História da Humanidade", em risco de colapso civilizacional", e o problema é que o livro tem mesmo dados tenebrosos e uma ressonância empirica no que vemos à nossa volta. E muito dificil não ficar convencido e assustado.

    Francisco Mendes da Silva, Público, 20 Setembro 2024

    ResponderEliminar
  5. Assuntos e sugestões muito interessantes. Agradeço.

    ResponderEliminar
  6. E não ficavam "traumatizadas".

    ResponderEliminar
  7. Pelo contrário, anos depois já com o percurso académico concluído, numa rua de Lisboa vi-a e tentei atropela- la com a viatura onde seguia. Infelizmente não consegui!

    ResponderEliminar
  8. Continuava a dar razão à professora...

    ResponderEliminar
  9. Também me soa familiar o nome dessa professora, pois sou desse tempo e estudei no Camões "desse tempo".
    Se acontecesse isso hoje... o que não iria acontecer.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório