Clarice

Há muitos escritores brasileiros de excepção – desde logo Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, e tantos outros; mas as mulheres que se celebrizaram por escrever romances no Brasil são menos conhecidas do público em geral – e se calhar não nos vêm logo à cabeça quando pensamos, grosso modo, em ficcionistas do país irmão. Excepto, claro, se se tratar da grande Clarice Lispector. Nascida na Ucrânia, judia, estudou Direito mas trabalhou sobretudo como jornalista e tradutora. Inventou um estilo que não se parece com mais ninguém, mesclando cenas da vida normal e doméstica com uma respiração ofegante e transgressora, com palavras-gritos, com um lado absurdo mas absolutamente humano (desculpem se pareço pretensiosa com estes termos vagos, mas é que ela é muito mais sensação do que racionalidade, pelo menos para mim, que fiquei logo marcada por Perto do Coração Selvagem). Escreveu a biografia desta “pernambucana” o fenomenal Benjamin Moser (está disponível em Portugal) e a óptima notícia é que acabam de sair, com um grafismo espectacular, quatro livros seus de uma vez: o romance que acabei de mencionar e ainda Água Viva, A Paixão Segundo G.H. e Um Sopro de Vida. Leiam-na!


 


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Comentários

  1. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2025 às 01:38

    Espero não ser mal-entendido e fico desde já à disposição para qualquer esclarecimento, porém, penso que considerar Clarice L. (grande escritora!) como "escritora brasileira" é distorcer um pouco a realidade.
    Jorge Amado ou melhor e para falar de uma mulher, Rachel de Queiroz, é uma escritora brasileira por inteiro, com toda a alma e o entendimento que a faz brasileira plena! Acho que faz uma grande diferença, ainda que seja menos conhecida internacionalmente ou não tenha tido a visibilidade da Clarice. Isto em minha opinião não faz uma melhor escritora do que a outra, se bem que eu prefira a Rachel, como em termos de espectro de escrita brasileira, prefiro o Itamar ao Alexandre Reyes, apesar de ambos serem imensos escritores e com uma formação até semelhante e a mesma sensibilidade extraordinária que os escritores Sul-americanos possuem, para retratar e analisar pessoas e casos algo marginais ou pelo menos incomuns. No entanto um é brasileiro nascido e ou outro mexicano se não me falha a memória. Ao segundo, a sua formação e a vivência permitiu-lhe escrever um dos livros que mais me impactou - A rainha do Cine Roma. No entanto não o considero um escritor brasileiro, até porque o tema sobre o qual superiormente escreveu podia contar uma história passada na Cidade do México. Já o Itamar, não! Retrata a ruralidade brasileira extrema, como Rachel no seu "Memorial de Maria Moura".
    Não sei se me fiz entender, aliás acho o tema apaixonante e seria tema para nos sentarmos a conversar uma tarde inteira.
    Um autor que se radique num outro país, por muito que o conheça e se integre, que goste, continua a ter uma perspectiva "estrangeira", de fora, pois o que trás é a sua criação e educação, até formação, lá do seu país. Não me parece correcto que passe a ser considerado escritor do país onde vive.
    Saramago passou a ser espanhol? No lo creo, sobretudo tendo escrito "Levantado do chão".
    Zimler também não é escritor português nem Rentes de Carvalho é holandês.
    E, por aí fora.

    Saudações expatriadas cá da Cidade Morena, onde por muito integrado que esteja continuo no entanto a ter uma visão estrangeira daquilo a que assisto. Não é defeito, é um facto.

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  2. Estranheza foi o que senti ao tentar ler dois dos romances de Lispector que, confesso, não me agarraram pelo difícil que foi a minha jornada com eles, em contraste com o que senti lendo a sedutora prosa dos clássicos brasileiros citados no início do post. Li com prazer alguns contos de Lispector, ainda que sempre de enredos um tanto desconexos. Recomendo-os mais do que os romances. Talvez esteja nessa estranheza que se sente na escrita de Lispector parte da sua originalidade. Tenho a sensação que é uma escritora de escritores e de académicos, daqueles que têm a particular capacidade de apreciar a inovação no uso dos instrumentos da literatura, mais do que uma romancista capaz de cativar o leitor comum que não seja um erudito literário. A Clarisse que me perdoe se estou a ser injusto.

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  3. Claudia da Silva Tomazi30 de janeiro de 2025 às 04:24

    Realmente Clarice Lispector é marcante, por forte presença literária. Tal peso ser mencionada no púlpito esses dias por Cate Blanched. As vezes, delinear a cultura brasileira através das palavras é água fresca ou seja a corre (o desafio) atemporal. Precisamente de sua existência, naquele dado momento o fez Clarice enfrentar um cenário por descobrir-se; a escrita ecoa, ressurge. Inclusive o encaixar vigente de conceitos e ela imputou deixando na ocasião outros registros onde sua fala sobre, se lhe justifica “um doce caldo explosivo”. Posso acrescentar seu diferencial à demarcar época como a primeira em “saia justa” com acadêmicos.

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  4. Claudia da Silva Tomazi30 de janeiro de 2025 às 04:34

    Excelente a quase precisão deste vasto conhecimento literário, salvo a sardinha de vosso gosto, morno. Contudo vos aponto é justa causa hierárquica na diferença entre Raquel de Queiroz de uma importância sem igual sendo a primeira dama acadêmica brasileira. Mas, a preferência nacional das leitoras é sem dúvidas Clarice Lispector com seu temperamento sem igual.

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  5. Pensei que a Madeira fosse mais lida pelas leitoras brasileiras.

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  6. Caro Amigo, a Clarisse Lispector chegou ao Brasil com 2 anos de idade … Não é razão para a considerar ucraniana ou apátrida para o resto da sua vida. Claro que é uma escritora brasileira de quatro costados.

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  7. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2025 às 08:07

    Caro Amigo, não a considero apátrida e nem ucraniana. Na minha opinião de ignorante, que todavia procura ilustrar-se, julgo que sendo judia e tendo vivido numa família profunda e assumidamente judia cujo pai era sionista, crescendo no ambiente dos bairros judaicos, ainda que no Brasil, duvido muito que se possa considerar brasileira dos quatro costados, a despeito de ter essa nacionalidade. Mas, terá a cultura? É a questão que se me põe, e, acredito que não tenha. Aliás os temas sobre os quais escreve são muito diversos da corrente dos escritores brasileiros, enfim "comuns" se é que se pode chamar comum a Rachel Q. ou Jorge Amado e outros grandes clássicos ou aos actuais como Itamar Franco.
    Com isto não pretendo diminuir ninguém, longe disso. Porém acho que dizer-se que é brasileira dos quatro costados, parece-me não ser correcto. O que não lhe retira nada da sua genialidade e grandeza, pois os temas e a forma como escreve são aliás universais e não brasileiros, fruto da sua vivência pessoal e familiar. Talvez por isso tenha o destaque internacional que se sabe, julgo eu.
    Grato pela sua interpelação, para mim é um gosto falar destas coisas e poder aqui trocar idéias com quem partilhe deste mesmo interesse.

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  8. Viva a diversidade cultural brasileira !

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  9. Claudia da Silva Tomazi30 de janeiro de 2025 às 09:33

    Acredito ser a mais popular no Brasil, por consequência lida, Marta Medeiros com alcance e vendas em mais de 1 milhão de livros, autora de pelo menos 30 títulos. A fabulosa Nélia Pinon e outra dama da literatura Lígia Fagundes Teles, amo-as. Ah, Marina Colasanti faleceu esta semana era italo/brasileira. Como poderia esquecer a popularidade e doçura de Cecília Meireles ou Lia Luft que já está em sua quadragésima edição de “Perdas&Ganhos” com 600.000 exemplares traduzidos em várias línguas. Aliás, leitura de fôlego. A Madeira, sinceramente desconheço.

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  10. “Tudo é Rio” de Carla Madeira. Vou procurar obras de Marta Medeiros que nunca li, Obrigado pela sugestão.

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  11. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2025 às 11:18

    Claúdia, lá está... "Um dia chegarei a Sagres", muitíssimo bem escrito como seria de esperar da N. Piñon, mas, para mim falha completamente ao tentar vestir uma pele que não é a sua, a dos portugueses. Pode agradar a todo o Mundo, por esse Mundo fora, mas não a quem sinta aquilo que digo faltar-lhe, como eu, um português dos quatro costados.

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  12. Caro Antônio:

    Talvez esta minha interpretação ao seu comentário não seja exata nem generosa, mas precisarei de ser convencido de que não está correta: os escritores realmente brasileiros seriam aqueles que, entranhados de "brasilidade", escreveram sobre temas brasileiros, sobre personagens "e casos algo marginais ou pelo menos incomuns", que, por isso mesmo, não são universais nem no conteúdo nem na forma, mas "tipicamente brasileiros". Se "Grande Sertão: Veredas", apesar da sua aparente regionalidade, não for universal, não sei se entendo o que significa universalidade. Se Machado de Assis, que não escreveu sobre temas "tipicamente brasileiros", não era brasileiro, não sei o que ele era. Se uma menina vinda para o Brasil aos dois anos de idade, em que pese à herança cultural dos pais, for outra coisa senão brasileira, não sei se entendo o que significa pertencer a um lugar nem sei a que lugar ela pertenceria: à Ucrânia natal, de onde não tinha memórias? Não entendo nada disso, a menos que me ponha numa perspectiva etnonacionalista, corrente em Portugal, onde muitos não consideram verdadeiramente portugueses nem os ciganos nem os judeus, por exemplo. Aqui, não temos (mais) disso: os ciganos são brasileiros; os judeus, também; os nipo-brasileiros são apenas brasileiros de ascendência japonesa, e não japoneses no Brasil; e o mesmo vale para ucraniano-brasileiros, inclusive para os que, tendo nascido na Ucrânia, se naturalizassem brasileiros, como a Clarice o fez. Aliás, ela própria não se considerava outra coisa senão brasileira e pernambucana. Dizer o contrário é até desrespeitoso à memória dela, que, de fato, nem sempre foi aceita como a brasileira que ela fazia questão de afirmar sempre que era, não porque tivesse dúvidas, mas porque, infelizmente, o Brasil de ontem já foi mais parecido com o Portugal etnonacionalista de hoje.

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  13. Caro Antônio:

    Faltou-me responder à pergunta sobre se Clarice, além da nacionalidade, teria a cultura brasileira.

    Machado de Assis não escreveu sobre temas tipicamente brasileiros: não tinha a cultura brasileira? A sua literatura não é brasileira? Os sermões do Pe. Antônio Vieira, a maioria dos quais foi escrita no Brasil, tinha em vista a evangelização dos que viviam no Brasil: não fazem parte da cultura brasileira? E o barroco brasileiro, não só o arquitetônico, mas também o musical, não são cultura brasileira? A herança cultural greco-romana também não a recebeu a cultura brasileira? Se a primeira tradução integral da Ilíada e da Odisseia para português foi feita pelo brasileiro Odorico Mendes...

    Enfim, gostaria de saber que entende como cultura brasileira ou como tipicamente brasileiro. Suponho que tenha algo que ver com "pessoas e casos marginais ou pelo menos algo incomuns"...

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  14. Bom... caro Rodrigo: para começar bem, não sou Antônio, sou António.
    Depois, não percebi nada do seu arrazoado sobre cultura brasileira, confesso. Portanto é-me difícil responder.
    O que entendo como cultura brasileira? Olhe, falando francamente, veja as telenovelas da Globo e acho que fica perfeitamente elucidado.
    Abraço!

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  15. Caro Rodrigo, dentre a confusão do seu comentário prolixo, de quem presumo ofendeu-se com o que eu disse, deixe-me começar por esclarecer que recuso argumentos como etnonacionalistas ou a alegada ofensa à memória de Clarice L. Ir por aí só revela mesquinhez, falta de esclarecimento e se quiser wookismo (seja lá isso o que seja!).
    Pelos vistos não percebeu nada do que eu disse, como também não o percebi, ficamos quites.
    Porém, você mesmo diz que ela não era considerada brasileira... como diz que ela se considerava pernambucana. Muito bem, aceito e respeito que se considerasse. Para mim não afecta em nada o ter sido uma grande autora. No entanto, repito, sem a sua escrita deixar de ser universal como é a de Jorge Amado, ela não escreve sobre temas habituais no romance brasileiro, como aquele, ela escreve inspirada na sua condição judaica e sobre isso, traumas, fantasmas e a rejeição, sobretudo, tanto quanto julgo saber.
    Não deixa de ser brasileira por isso, aí o seu erro de interpretação. Porém não é uma escritora brasileira típica, o que me levou a questionar ou comentar.
    A universalidade do escritor está em Louis Lamour, tanto quanto em Hemingway ou Machado de Assis, no Padre António Vieira, em Cervantes ou Camões! Porque há temas e formas de os tratar/dizer que são universais, ou seja transversais a todos os autores ou escritos, mas dentro dessa universalidade transversal existe uma contextualização que faz do Cervantes espanhol, do Louis Lamour Norte-americano e por aí fora. O que escrevem podia passar-se em qualquer lugar, mas conseguimos localizá-los pelos detalhes e pelo contexto. Sem etnonacionalismos.
    Abraço de um expatriado luso-tropical.

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  16. Caro António:

    Não creio que saiba o que significa prolixidade. Prolixo, além de mal pontuado, foi o seu comentário. Não lho disse porque não achei que me ficaria bem avaliar a qualidade da escrita alheia numa discussão em que apenas importa a qualidade da argumentação.

    Não me ofendi. Ative-me ao que escreveu. Não há nada de wokismo (de woke, com um ó, não com dois) em lembrar o que é consabido: em Portugal, muitos não consideram verdadeiramente portugueses os ciganos e os judeus. Os ciganos, ainda menos, a despeito de aí estarem há quase seis séculos. É a isto que chamei perspectiva etnonacionalista: aquela que vincula a nacionalidade à etnia.

    O que disse, e pensei tê-lo deixado claro, é que eu somente poderia compreender que não se considerasse brasileira a Clarice, se me pusesse no lugar de alguém que só reconhecesse como verdadeiramente portugueses ou brasileiros aqueles cujos quatro costados também o fossem. Da perspectiva brasileira atual, uma menina que chegou aos dois anos ao Brasil e que, depois de viver fora mais de duas décadas, voltou ao país a que considerava pertencer e nele viveu até a morte não é senão brasileira, a 100%, tenham vindo os pais de onde tiverem vindo, sejam a sua etnia e a sua religião quais forem.

    Clarice não era, a certa altura, considerada brasileira por todos com quem convivia, porque, como eu disse, os brasileiros já foram mais parecidos com aqueles portugueses para quem, ainda hoje, ciganos, judeus e imigrantes, mesmo se radicados em Portugal desde antes de aprenderem a falar, não são verdadeiramente portugueses.

    Há pelo menos um exemplo muito semelhante ao da Clarice: o do escritor Moacyr Scliar, nascido em Porto Alegre, filho de judeus da Bessarábia e criado no "bairro judeu" da cidade. Também criou personagens brasileiras judias, filhas de imigrantes, uma das quais namorava uma jovem negra e, como ela, sofria discriminação. Ocorre a alguém que um negro brasileiro, embora sofra discriminação no seu próprio país, seja outra coisa que não brasileiro? Pois a nós não ocorre tampouco que alguém que nasceu, viveu e morreu em Porto Alegre, aos 74 anos, seja outra coisa que não brasileiro, ainda que fosse filho de judeus da Moldávia, escrevesse também sobre temas judaicos e tivesse sido percebido alguma vez como estrangeiro na sua própria terra.

    Você escreveu, por fim, que Clarice não deixa de ser uma escritora brasileira, mas não é uma escritora brasileira típica. A emenda saiu-lhe pior que o soneto: que é um escritor brasileiro "típico"? Os dos romances regionalistas, que têm o cheirinho da terra? Se forem estes os típicos, receio que não sejam escritores brasileiros típicos Machado de Assis, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Cristóvão Tezza, Sérgio Rodrigues... Eu poderia passar o resto do dia a enumerar nomes de escritores brasileiros que não se amoldariam ao metro que, provavelmente, você usa para chamar "típico" a um escritor brasileiro.

    Posso concordar com o fim do seu argumento, quando diz que "dentro dessa universalidade transversal existe uma contextualização que faz do Cervantes espanhol, do Louis Lamour norte-americano e por aí fora". Ora, na obra da Clarice, há uma contextualização que a faz, como posso dizê-lo, brasileira de ascendência judaica, do mesmo modo que o Moacyr Scliar.

    O etnonacionalismo não é meu, mas sim de quem não entende que, se há algo tipicamente brasileiro é não haver brasileiro típico: a baiana que vende acarajé no Pelourinho é tão brasileira quanto o "japonês" que trabalha com hortaliças, ou que é engenheiro aeronáutico na Embraer, ou quanto o judeu poliglota de Higienópolis que trabalha num banco de investimentos em São Paulo.

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  17. Como sabe, "Antônio" é como escrevemos o seu nome no Brasil. Não me importa chamar-lhe "António", embora saiba que não é incomum que se grafe o nome de compatriotas meus que sejam homônimos seus como "António".

    Duvido muito de que não tenha entendido nada do meu arrazoado sobre cultura brasileira. Fui bem claro. Nenhum dos autores que apontei escrevia sobre temas que, na sua cabeça, seriam tipicamente brasileiros, e, no entanto, eram todos brasileiros. Eu estava para ressalvar o Pe. Antônio Vieira, mas seria uma ressalva inexata, já que ele veio para cá com menos de 10 anos, teve aqui toda a sua formação antes de voltar para Portugal, de onde regressou ao Brasil, país em que viveu metade ou mais da sua vida e onde descansa eternamente.

    O fim desse seu comentário foi bastante revelador. Se considera que o que vê nas telenovelas da Globo seja suficiente para que fique perfeitamente esclarecido sobre o que é cultura brasileira, então, não me admira que não considere Clarice brasileira. Certamente, não considerará brasileiros tampouco todos os escritores que citei neste e no outro comentários.

    Eu, se tomasse a televisão portuguesa como indicativa do que é a cultura dos portugueses, recearia pelo futuro de Portugal. A qualidade técnica e de conteúdo é muito inferior à da Globo, que já não é boa.

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