Os Papéis do Inglês
«Poeta, romancista, antropólogo, Ruy Duarte de Carvalho é uma figura basilar da literatura angolana pós-colonial. No seu percurso, a vida funde-se com a obra, criando um universo deveras fascinante, onde se colocam as mais importantes questões do colonialismo e do pós-colonialismo.» É assim que o jornalista Manuel Halpern inicia o seu texto na revista Visão sobre o lançamento do filme Os Papéis do Inglês, dedicado ao escritor que nos deixou em 2010, mas que tive o prazer de ver nas Correntes d'Escritas ao lado de Luandino Vieira e Peptela, os três abraçados. Realizado por Sérgio Graciano e com argumento de José Eduardo Agualusa, o filme fala de uns papéis que o pai de Ruy Duarte de Carvalho teria escondido no deserto do Namibe e que o ajudariam a resolver um mistério ocorrido nos anos vinte do século passado. Esta é pois a história de uma busca que tem por protagonista o próprio Ruy Duarte de Carvalho (é o actor João Pedro Vaz que lhe veste a pele) e que regressa ao passado para nos mostrar as magníficas paisagens do Sul de Angola. Estreou há dias. Vamos ver?
Li o livro referido, quando foi lançado algures em 2000, no entanto só em 2015 me foi apresentado!
ResponderEliminarGostei, porque como é fácil de perceber diz-me bastante, e, passo a explicar:
- Fui justamente alertado para este romance por um amigo angolano que lera o meu romance "Largueza", publicado em 2010.
Ora, sucede que nele relato, no mesmo local, por volta de 1850/60, um episódio algo semelhante, em que um aventureiro inglês e o sócio português, roubam e matam um explorador escocês, antigo oficial de engenharia do exército britânico a quem encontram deambulando e garimpando naquela região. Fazem-no por causa da localização de diamantes nos cursos de água temporários, ficando não só com o saco de gemas daquele, mas também com um diário que é um manual completo sobre a geologia da região. O personagem principal do romance, um explorador e oficial do exército português, que anda em perseguição daqueles dois justamente para os impedir de divulgar a riqueza mineral, sendo o inglês apontado como espião, encontra-os, acaba por matar o inglês no confronto, prende o português quem entretanto enlouquecera e entrega-o a uma missão católica onde mais tarde se suicidará, e, apreende os diamantes que entrega ao governo, mas guarda para si o precioso diário o qual partilhará depois com uma comissão científica.
É de facto coincidência! Mas as fontes são parecidas, as histórias ouvidas ou lidas dando origem a tergiversações sobre os mesmos temas.
Acontece que Ruy Duarte de Carvalho, como eu nascido em Santarém, antigo regente agrícola e antropólogo, é pessoa com quem muito me identifico, quer no percurso profissional e pessoal, como tendo os mesmos interesses.
Usei como referências e fonte, o seu "Fui lá visitar pastores", que me ajudou muitíssimo a construir o personagem Cambare, o truculento mucubal do meu romance Largueza.
Tenho de facto uma ingrata sensação, e, confesso que alguma frustração, quem sabe se certa ou errada, parecendo-me que o meu referido Largueza, teria pés para andar enquanto romance se eu não fosse apenas um obscuro cultivador da treta a quem nunca foi dada atenção ou oportunidade pelas editoras a sério.
Digo isto porque na generalidade quem o leu, gostou bastante e muitos me disseram isso mesmo, que merecia ter sido mais divulgado.
Vou esperar para ver o filme, que estimo corresponda ao livro e ao que o autor merece, aliás Agualusa é ainda sinónimo de qualidade e alguém que muito prezo pela sua honestidade intelectual, pragmatismo e isenção, o rigor na narrativa. Aguardo ansioso pela leitura do seu próximo romance, já aqui anunciado aliás.
O Mundo é de facto pequeno... e dá voltas, como dizia alguém.
Boas notícias, estas, e, muito gostei de ler o que hoje aqui nos é trazido.
Saudações saudáveis e portanto animadas, cá da Cidade Morena.
Já tinha lido o Ruy Duarte de Carvalho há uns anos, lamentavelmente desaparecido tão cedo. O filme interessa-me bastante. Agradeço o que aqui veio acrescentar. E o Largueza está na lista há bastante tempo.
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