Complementaridade

Há algumas pessoas extremamente ingénuas que acham que se consegue ser um bom escritor sem ter lido nada. Até já me aconteceu aconselhar um autor que me tinha mandado um original a ler mais (percebia-se pelo que escrevera que precisava muito de ler) mas ele respondeu-me que não gostava de ler, gostava era de escrever (e eu fiquei de cara à banda). Enfim, há que perceber que a leitura e a escrita não existem uma sem a outra e que a segunda só se aperfeiçoa lendo e escrevendo muito. Não há escritor conhecido que não tenha lido imenso (geralmente é o gosto pela leitura que leva alguém a ser escritor). Mas qualquer escritor tem de ler mesmo enquanto está a escrever porque em certos casos é preciso fazer investigação sobre determinados assuntos ou buscar sinónimos para palavras (e o dicionário também é bom de ler, acreditem). Até para uma simples crónica, por exemplo, abro sempre pelo menos dois ou três livros para confirmar isto ou aquilo e não meter a pata na poça, confiando demasiado nas minhas memórias; mas, mesmo que não seja matéria de pesquisa, ler dá-nos ideias, ensina-nos novas técnicas narrativas, aumenta o nosso vocabulário, ilustra-nos sobre a forma como podemos estruturar uma história e por vezes até nos dá vontade de começar uma coisa nova. Stephen King fala de tudo isto em Escrever, um livro maravilhoso para os que estão a começar no ofício de escritores, mas há muitos outros guias que podem ajudar, sendo que todos eles dizem o mesmo: que a leitura é o primeiro passo para quem quer escrever.

Comentários

  1. Bom dia e boa semana que começa com uma boa conversa, aqui, sobre livros e escrita.
    Na minha presunção de traça dos livros, creio que tem muitíssima razão naquilo que diz.
    É como gostar de cozinhar sem gostar de comer... não me parece que resulte.
    Penso que tudo começa pela leitura, por mim falo, que até comecei a "ler" vendo imagens nos livros o que me deu uma vontade enorme de saber ler. E adorava fazer redacções o que presumo ser um princípio de gostar de escrever, que só muito mais tarde se consubstanciou em artigos para jornais e revistas temáticas. Claro que nem sou nem me considero escritor estou apenas a reflectir num tema que me apaixona, e que me parece muito claro:
    - Para ser escritor tem de se ler, muito! Por todas as razões apontadas, que serão as básicas, e, podemos descobrir ainda várias outras.
    É extraordinário como alguém que não goste de ler, goste de escrever! Se calhar nem lê o que escreve... mesmo alegando que escreve porque não gosta do que lê, e, escreve o que gostaria de ler, ainda assim tem que ter lido para saber que não gosta do que leu!
    Também conheço escritores que durante a fase em que estão a escrever, não lêem! Enfim não lêem, nada que não se relacione ou seja necessário ao seu trabalho, como aliás foi aqui referido. E julgo que se compreende.
    Já uma vez pensei que gostaria de ser escritor, de ter antes estudado letras, que me tivessem proporcionado essa formação e possibilidade, mas teria enveredado por outro caminho e não seria na mesma o garante de que teria sido de facto escritor, não é verdade? Seria, segundo penso, outra pessoa e quem sabe que outras experiências teria tido? Há coisas que teria na mesma feito, mas muitas outras teriam sido diferentes.
    São coisas em que gosto de pensar às vezes, discorrendo.

    Enfim, votos de uma boa semana, cheia de experiências, coisas boas e evidentemente de boas leituras, cá desde a Cidade Morena, onde o Verão tarda em entrar!

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  2. Relacionado com o tema hoje trazido à baila, gostei muito de ler O Perfume das Flores à Noite, de Leïla Slimani. Uma excelente reflexão sobre o mister da escrita.
    Mais técnico (se assim se pode dizer), repleto de referências literárias, burilado e picaresco, li também algures no tempo Quem disser o contrário é porque tem razão, de Mário de Carvalho.
    Boas leituras

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  3. PS: Aceito recomendações para uma leitura partilhada com uma aluna do 8ºano.

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  4. Quando leio Camões, Vieira, Camilo, Aquilino, Mário de Carvalho, por exemplo, fico abismado com o que eles leram antes de escreverem.
    Autores de tessituras pobres cuja leitura abandono precocemente fazem-me sempre suspeitar que leram pouco.

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  5. Maria Do Rosário Pedreira23 de setembro de 2024 às 04:49

    O Velho Que Lia Romances de Amor, de Luis Sepúlveda

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  6. "A NETA DO SENHOR LINH"- Philippe Claudel

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  7. Um bom conselho que, pensava eu, nem precisaria ser dado a quem quer escrever, é atitude que chega naturalmente ao verdadeiro aspirante.
    Prefiro o "Escrever" de Vergílio Ferreira. É um livro tão bonito. De certeza, diverso desse, basta-lhe a marca que o escritor deixou em cada obra.
    Também é verdade que nunca ouvi ou li um escritor afirmando que se guiou por este ou aquele manual que ensina a escrever; que começou por aí e lhe serviu a escrita dos primeiros romances, por exemplo. Serão eles a não querer desvendar o segredo? Ou o trabalho do escritor é outra coisa. Aturado, sim, ainda que mais nuns que noutros.

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  8. Concordo. Considero-me uma leitora primeiro e, só depois, uma escritora. O amor pela leitura, as horas passadas a ler, proporcionaram-me tanto que foi uma das razões porque comecei a escrever (e a publicar, embora isso tenha acontecido muito depois).

    O livro do Stephen King é muito bom, também recomendo. Anotei as restantes sugestões, que agradeço.

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  9. A presunção da ignorância. Em tempos conheci alguém, que agora é, nos media, a Gisela Casimiro, que tem 6 livros nas estantes, 4 são dela, e o restante é para ler quando calhar.

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