À vontade do... escritor

Lembro-me perfeitamente de o meu pai nos contar que Balzac escrevia de pé, numa espécie de prancheta inclinada, semelhante a um estirador de arquitecto, e ia atirando para o chão as folhas que concluía, apanhando-as apenas ao final da jornada de trabalho. Onde leu ele isto, não sei, pois então não existia Internet, esse depósito de informações inúteis; provavelmente num livro sobre Balzac, ou nem isso,  num livro que apenas o mencionasse en passant, isto para usar uma expressão na língua do autor de A Mulher de Trinta Anos. Bem, a verdade é que foi num livro que li há muito pouco tempo (e também en passant, porque o dito livro não é sobre escritores) que Balzac não estava sozinho na opção de escrever as suas obras nessa estranha posição, pois escreviam igualmente de pé, apoiados numa escrivaninha alta, Hemingway, Virginia Woolf, Dickens, Lewis Carroll e o querido Philip Roth. E que escritores ainda mais excêntricos (em termos de postura a criar) escolhiam escrever deitados, sendo isso mais ou menos esperado num Proust sempre doente, mas já não tanto em Truman Capote, Mark Twain ou até George Orwell que se definiu, aliás, como um autor "completamente horizontal" e incapaz de pensar estando na vertical... Ele há coisas.

Comentários

  1. Já li aqui e ali, menções a essas posições de escrita particulares de certos escritores... não sei precisar onde, mas li.
    O seu pai se calhar leu nalgum "almanach" que eram antes da internet o depósito das informações gerais, úteis e inúteis. Eu mesmo li neles muita coisa.
    Lembro que os citados escreviam à mão ou à máquina. Nenhum escrevia em tablet, ipad ou pc, portanto escrever em pé, vá que não vá, agora, escrever deitado, numa máquina é coisa que não dá jeito nenhum e muito menos numa folha ou caderno, ainda que usando um apoio dos que se usam para ler na cama.
    Escrevessem em que posição escrevessem, faziam-no muito bem, isso é certo.

    Saudações cá do Bairro Ribatejano, com alta médica plena e definitiva... já posso comer umas sardinhas, ainda que me esteja interdito o tintol. Eheheh! Informação completamente inútil mas que expressa a minha satisfação!

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  2. O nosso querido Pessoa também escrevia muitas vezes em pé.
    Consta que escreveu assim O Guardador de Rebanhos, todo de seguida.
    Boas leituras! 📚

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  3. Gaëlle Becker Silva Marques11 de setembro de 2024 às 03:20

    Tenho um carinho especial por este tema, que tanto abrange o tema da literatura como o da diversidade. É curioso, ainda para mais quando surge de uma memória. As associações possíveis tornam-se múltiplas. Obrigada

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  4. Adenda:
    George Orwell morreu tuberculoso com apenas 49 anos, é natural que escrevesse na cama nos últimos tempos, penso eu.
    Lutou em várias frentes de batalhas; ainda assim conseguiu ser um grande, enorme escritor.
    Para além dos livros que todos certamente já leram, eu recomendaria (e quem sou eu para recomendar, dir-me-ão?) a leitura dos Diários. Gostei imenso de os ler.
    Boas leituras!📚

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  5. Diremos mesmo mais, e, quem és tu romeiro... quero dizer, anónimo!
    Ahahah!

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  6. Acredita que eu pensei escrever que era apenas um simples romeiro?
    E ainda dizem que não há coincidências...

    Gostei de saber que já está operacional, digamos assim.
    Boas leituras!📚

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  7. Meu pai, Rómulo de Carvalho/António Gedeão, escreveu toda a sua longa vida, de pé. Aliás só se sentava para as refeições ou para andar nalgum transporte público. Mas todo o trabalho que desenvolveu ao longo da vida - professor, investigador, cientista, historiador da Ciência, poeta - sempre e sempre de pé. Havia uma armário alto, feito de propósito à medida da sua altura, que estava encostado a uma parede lisa no seu escritório. Nessa parede e, portanto mesmo à frente dos seus olhos, uma grande moldura com um retrato de A. Einstein - aquele em que tem a língua de fora, numa ampla careta. Em cima do armário havia um candeeiro, um cavalinho de bronze que não servia para nada, era só bonito e uma caneca com lápis e canetas; depois, havia cadernos e papéis, montes de papéis. Quando era precisa, a máquina de escrever, uma Hermes Baby. Hoje, tenho isto tudo: o Armário, o cavalinho e a máquina de escrever. Tudo isto e muito mais no meu próximo livro que irá sair em Outubro "Gedeão, Príncipe Perfeito"

    Cristina Carvalho

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  8. Cá o esperamos, então!
    Força na caneta... isto é, nos dedos para teclar!

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  9. Que boa notícia, Cristina Carvalho. Vou gostar imenso de ler a biografia de seu pai, um cientista e poeta que muito admiro.
    Aproveito para lhe dizer que adorei o seu livro sobre a Paula Rego.
    Boa tarde!

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  10. Cara Cristina Carvalho,
    Houve uma exposição no "Museu de História Natural" (corrija-me se estiver enganado) que pretendia recordar o ambiente de trabalho de seu pai.
    Penso que teria uma espécie de púlpito com uma altura, relativamente, baixa [tive o privilégio de conhecer seu pai e era um gigante em talento, não tanto em altura] onde ele, supostamente, escrevia os poemas de pé e uma secretária onde trabalhava com compassos, com transferidores, com livros de apoio, onde estaria a máquina de escrever, etc.
    A ideia com que fiquei é que António Gedeão sonhava e escrevia poemas de pé e o "cientista" Rómulo de Carvalho trabalhava e escrevia as "coisas sérias" sentado.
    Fico a aguardar com expectativa o livro que está a escrever.

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  11. pois há (coisas).
    Ainda bem que falou nas escrivaninha alta, logo me bem á memoria (de filmes ?), e valeria a pena saber-se a historia dessa mesa, que mais profissoes a usavam ?
    Seriam as mesas e secretarias mais volumosas e pesadas, enquanto a escrivaninha se podia deslocar ?

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  12. Sim, de facto o nosso grande Eça de Queiroz escrevia de pé. Já tive o privilégio deestar junto à sua escrivaminha.

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  13. Já estive com os Diários do George Orwell na mão mas era um tijolo tão grande que me contive. Todavia, depois da sua sugestão que agradeço, já faz parte da minha lista.

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  14. Espero que goste.
    Poderiam ter feito dois volumes, o formato tijolo obriga a que a leitura seja feita em casa, mas também permite ler com mais calma e reflexão.
    Boas leituras 📚

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