Vida e trauma

Hoje fala-se e escreve-se muito sobre identidade sexual e transexualidade. Mas, na maioria das vezes,  o assunto é tratado de forma quase militante, combatendo o preconceito, o discurso do ódio e a violência de género (nada contra, se isso ajudar a corrigir as injustiças, o problema é que por vezes assume uma «gritaria» que tem o efeito contrário). Não é o caso deste livro absolutamente maravilhoso chamado Maus Hábitos, de Alana Portero, que comprei há meses porque a autora estava convidada para vir às Correntes d'Escritas e eu tinha intenção de o ler antes disso. Mas ela acabou por cancelar a viagem e só recentemente peguei no romance. É a história de alguém que, logo aos cinco anos, tem uma noção exacta de que nasceu no corpo errado (um menino que se fecha na casa de banho para se maquilhar às escondidas e que adora sentar-se a ouvir conversas de mulheres sobre roupa e cusquices); e, longe de ser uma obra de agenda política sobre defesa de direitos, linguagem inclusiva, operaçõs de mudança de sexo ou tratamentos hormonais, é toda ela sentimento, carne e sangue, sem filtros, com as palavras todas que magoaram a protagonista enquanto crescia («maricas», por exemplo, aparece em quase todas as páginas) e que a própria usa sem medo nem paninhos quentes. Um livro magnificamente escrito sobre o trauma de não conseguirmos ser quem os outros gostariam que fôssemos e, por outro lado, a dureza de termos de nos esconder, talvez nos piores tugúrios, para podermos ser quem realmente somos nem que seja uma vez por outra. Eu já tinha lido o magnífico As Malditas, de Camila de Souza Viladas, e visto a série Veneno, baseada numa história verídica de uma travesti (é mesmo assim que é descrita no livro, que alega que trans é um eufemismo naquele caso), mas Alana Portero escreveu um livro que não deixa ninguém indiferente cuja acção decorre num bairro problemático dos arredores de Madrid (gente antiquada e bruta, toxicodependentes, rapazes violentos, velhos sozinhos, grupos neonazis...); é mesmo literatura a sério e mostra de forma incrivelmente humana e verosímil o que pode ser realmente o sofrimento de alguém que vive desde sempre uma vida que não lhe pertence. Belíssimo e contudente.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco25 de julho de 2024 às 02:09

    Gostei uma vez mais de a ler, minha Cara e Extraordinária Anfitriã.
    É uma proposta absolutamente honesta em toda a linha, esta que nos traz hoje. Afirmo desde já o meu interesse neste livro, que lerei e vou dar a ler lá em casa, pelas razões de que adiante falarei e todos os que me lerem hoje entenderão.
    Lembro a propósito um livro Extraordinário, "A rainha do cine Roma", que li e foi aquilo que se chama vulgarmente "um murro no estômago", fazendo-me mudar de opiniões. Falámos nisso em tempos, também aqui neste espaço.
    Só não mudam de opinião os estúpidos ou os fracos, também é a minha opinião, e, vale o que vale. Direi mais, o grande "perigo" da boa literatura é justamente esse! Tem o condão de poder fazer-nos mudar... sabem-no aqueles que tentam condicioná-la ou queimam livros.
    Seja como for, a nossa Extraordinária Anfitriã é também uma Poetisa, nada e criada num ambiente que acredito a tenha moldado com essa sensibilidade Extraordinária para compôr e também para fazer com sucesso, aquilo que faz profissionalmente.
    Não conheço o meio da poesia, porém frequentei e conheci bastante o meio boémio no entorno dos toiros e do fado, que são indissociáveis, ao qual acorrem artistas de diversas áreas, onde e por inacreditável que julgue quem o não conhece, existe e com ele coexiste muita homossexualidade agregada, talvez atraída pelas "luces", tal como o brilho deste sítio Extraordinário que aqui temos e estimo que continuemos a tratar com elevação, atrai as traças como eu!

    Não cultivo a homossexualidade, agride a minha sensibilidade se demasiado explícita sim, porém não sou homofóbico, tolero-a, porque sempre convivi com ela e até tenho um caso bem próximo. Esclareço!
    A história deste garoto, ora referido no romance em questão, é justamente a de um sobrinho-neto meu em quem a minha mulher com a sua sensibilidade de educadora e o treino de quem se dedicou sempre às crianças com necessidades especiais, identificou desde muito pequeno esses mesmos traços indicativos do que seria, como ele assumiu aos 16 anos. Para expôr melhor a história e com o fito puramente especulativo para uma analogia literária, do lado paterno do hoje jovem adulto, conheço um caso suspeito mas nunca verificado de homossexualidade masculina, a duas gerações de distância... há quem defenda que não é genético, mas os cromossomas XX e YY que definem o sexo parecem-me indicar que sim.

    A realidade é sempre mais espantosa do que a ficção, e, a vida inspira e é espelhada nos nossos amados livros!

    Saudações inspiradas cá da Cidade Morena.

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