Luto

Talvez uma parte considerável das coisas que escrevi seja sobre o luto; e são-no decididamente os meus poemas preferidos, quase todos pertencentes ao livro O Canto do Vento nos Ciprestes. Tirando Paula, de Isabel Allende, que comecei há décadas e não consegui acabar, gosto geralmente de livros de outros autores sobre o assunto. Poderia enumerar muitíssimos textos que me agarraram desde a primeira página e que abordam a morte de alguém próximo: O Ano do Pensamento Mágico é um dos títulos mais emblemáticos, mas poderia perfeitamente falar também do pequenino livro sobre a morte do pai que escreveu a nigeriana Chimamanda, ou ainda de Luto, de Eduardo Halfon (parte de um projecto literário muito interessante, que combina ficção e memória), ou mesmo de uma ficção declarada, como Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, na qual um miúdo tenta perceber o que estaria o pai a fazer nas Torres Gémeas quando elas se tornaram pó no 11 de Setembro para poder aceitar a sua morte. No festival em que estive na semana passada em Roterdão, fui especialmente tocada pelas leituras da poetisa norte-americana com ascendência taiwanesa Victoria Chang; parte dos textos que leu pertenciam a um livro chamado Obit (Óbito) que fala, entre outras, das mortes dos seus pais. Recomendo esta autora a quem, como eu, goste de ler sobre a morte e o luto. Pode parecer macabro mas não é.


 


 


 

Comentários

  1. António Luiz Pacheco12 de junho de 2024 às 00:29

    Muitos poetas cantam as perdas... o luto se quiserem, seja do tempo perdido ou das pessoas, de idéias, de sensações.
    Portanto nem me admiro nem classifico, apenas constato que parece ser algo recorrente e digamos, perfeitamente compreensível e coerente.
    Que sei eu que não sou poeta?
    Eu que não sou literato nem artista, um comum mortal que anda por aí, pelo contrário não sou afectado pelo luto, não ligo muito a isso e nem às perdas. Sigo em frente, atrás de uma luz que é a vida que celebro em cada momento que posso, a beleza do que me rodeia.
    Se fizesse poesia era isso que cantaria, mas não sou, limito-me a ver e a usufruir.
    Sinto-me bem, confesso.

    Saudações e votos de felicidade, cá da Cidade Morena.

    Por falar nisso, morreu esta noite a cantora Françoise Hardy... significou bastante para a minha geração, tenho pena sim.

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  2. Do livro Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Foer, existe um filme com o mesmo título que me parece "extremamente" interessante.

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  3. António Luiz Pacheco12 de junho de 2024 às 05:06

    É um filme Extraordinário!!!! Só lhe digo.
    Tom Hanks e Sandra Bullock, vale a pena ver, aliás acho que deve mesmo ser visto!

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  4. O melhor livro que li sobre a morte, aliás sobre o sentido da vida, foi A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi. É uma pequena novela mas é o melhor livro que li depois de D. Quixote, de Cervantes.

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  5. Na época em que o li gostei mesmo muito de Paula que não aborda apenas a dor da perda ou a forma de a tentar suportar, é uma história de família para ser contada a quem, se acordasse, regressava com a mente em branco, a estrear o mundo. Muito mais à frente no caminho da dor, calou-me fundo O Ano do Pensamento Mágico. São duas escritoras muito diferentes que catalogo em mundos de leitores diferentes.

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  6. Da mesma autora de "O ano do pensamento mágico", vale a pena ler "Noites Azuis", sobre a morte da filha.

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