Cidade auto-suficiente
Cheguei domingo ao fim do dia de Roterdão, de um Festival de Poesia para o qual me convidaram: traduziram-me, aplaudiram-me, vão pagar-me, tudo coisas boas. Claro que a temperatura não era a portuguesa e havia um vento gelado com rabanadas súbitas bastante incomodativo; mas soube que por cá também houve trovoada, pelo que não devo ter perdido muito em dias soalheiros. Roterdão é uma cidade de que os arquitectos costumam gostar, com muitos edifícios realmente assinaláveis; e é também uma cidade "simplex" (para os de lá, claro, pois está tudo escrito em neerlandês), embora me tenha muitas vezes faltado alguém a quem perguntar uma direcção ou pedir ajuda (no metro só há máquinas, ou estrangeiros tão perdidos como eu). Num museu, por exemplo, não havia bilheteira: era suposto, disseram-me, ter comprado o bilhete online! Num restaurante, havia um código para fotografar e ler o menu (pois, mas não havia uma lista em inglês, por isso era difícil escolher o jantar). Tudo foi pago com cartão, ninguém aceita dinheiro para nada (é prático, não nego, mas, se o cartão falha por qualquer motivo, podemos ficar apeados ou em jejum). Já me tinham contado que, em Pequim, até os mendigos têm um código ao peito para a esmola ser paga por transferência via telefone, mas, queridos leitores, eu ainda prefiro falar com uma pessoa, ainda confio mais na pessoa do que na máquina. Este sistema holandês (ou de Roterdão) deve ser bestial para os mais jovens, que abraçaram o digital para tudo e mais alguma coisa, mas nada substitui, para mim, a voz humana, a mão humana. Devo estar decididamente a ficar velha. (O festival correu muito bem, diga-se em abono da verdade.)
Ainda bem que bem correu, bom regresso se lhe deseja!
ResponderEliminarEstive em Roterdão, talvez em Novembro de 2001, dois dias, para uma entrevista numa empresa de recursos humanos de onde resultou a minha passagem pelo Univeg Group of Companies. Fiquei num hotel na parte velha, perto do centro e onde estavam as empresas. Cidade escura, sombria, fria e húmida. Construcções em tijolo, na arquitectura tradicional, relativamente baixas e discretas. Limpa e organizada, com facilidade nos transportes. Nessa altura não me apercebi da mecanização ou artificialismo que mais desumanizará essa cidade, portuária e um grande centro de entrada de pessoas e bens.
A desumanização das cidades e das sociedades já foi tratada por muitos autores, penso que sobretudo da área da ficção cientívica, todavia longe daquilo que se perfila e está a ser... nem eles conseguiriam ficcionar por muito imaginativos que fossem.
Talvez esteja na altura de surgir um grande romance passado nestes tempos e por alguém da época em que parece que a ficção científica se tornou realidade.
Aguardemos...
Votos de uma Extraordinária semana para todos!
Realmente os relacionamentos analógicos são mais interessantes, que os digitais. Hoje em dia tudo é digital, e perdemos um pouco do toque, abraço, etc. Meu celular estragou e to tentando viver mais no mundo real. Espero que dê certo.
ResponderEliminarBoa semana!
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Até mais, Emerson Garcia
Emerson: desculpe lá... você é chato paca!
ResponderEliminarOpinião meramente pessoal e assumida.
Abraço cá da Cidade Morena!
Bom dia!
ResponderEliminarMuito boa essa do QR code para pedir esmola.
De Roterdão, a imagem que guardo não é da cidade e da sua arquitectura, mas sim do interminável porto... Da Holanda, o que ficou na memória foram duas coisas: uma língua intransponível e uma gastronomia nem sofrível, para usar um eufemismo.
Sobre a iliteracia digital (e outras iliteracias), sobre a desumanização da cidade, poderia relatar o caricato episódio de quatro(!) idas à CGD, para abrir duas contas bancárias para os petizes.
Para além dos jovens colaboradores terem-me dado informações imprecisas, que obrigaram a duas visitas extra, manifestando um óbvio desconhecimento do produto que vendiam, o sistema (o famigerado sistema) não deixou criar as contas no próprio dia.
Junte-se uma vintena de pensionistas, em luta com a máquina das senhas, cujas possibilidades francamente desconheciam, para ter ficado com uma maravilhosa impressão do funcionamento da instituição. Especialmente quando a subgerente interpelou a fila, a bem da eficiência organizativa, e qual mestre escola ditou: "Têm de aprender, não podemos estar todos os meses a explicar isto!". (Que luxo, eu poder dizer isto a um cliente...)
(Aqui chegados, já perceberam qual a minha geração: a geração sanduiche. Entalado, portanto, entre mais novos e mais velhos.)
Como alguém me vaticinou em finais do século passado: o analfabeto do século XXI será aquele que não possuir competências informáticas. Contudo, há coisas que estão sempre na moda, como a simpatia e as boas maneiras. Não chega para tudo, mas ajuda bastante.
Por instantes, senti-me regressar ao dia em que, pela primeira vez, fui fazer o Bilhete de Identidade. Do outro lado da rua, uma dúzia de letrados ofereciam-se para o preenchimento dos impressos, mediante uma módica quantia. Fiquei surpreso com tal mister, confesso.
Atavicamente, da caneta para o computador, parece por vezes retornarmos à casa de partida.
E, mesmo assim, do que me é dado a ver, Portugal é um paraíso, Lisboa um oásis: https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/admiravel-mundo-novo-54483
Boas leituras!
para nao confirmar que estamos a ficar velhos...digo só que continuo a insistir nas receitas (médicas ) em papel. Tambem porque nao tenho outro modo de ir adquirindo (controlando ) medicaçao prolongada.
ResponderEliminarE já me vi a pensar se os jovens se preocupam com estas dificuldades tipicas de muitos velhinhos.
Quanto ao receio da autora das consequencias se o cartao falhar, imagino que haja tipo prestaçao de serviço minimo, garantido por seguro.
Bem-vinda ao mundo brilhante das cidades digitais, onde nos podemos esquecer do “por favor”' e do “obrigado”, a menos que seja para ativar o nosso assistente de voz! É magnífica esta crónica de Roterdão, uma cidade que trocou os bilheteiros e os empregados de mesa por QR codes e pagamentos contactless. O avanço tecnológico simplifica as rotinas, mas, aqui entre nós, quando será que vamos poder fazer download de um pouco de calor humano?
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