Escritores do presente

Li há tempos um artigo muito interessante sobre o desaparecimento de certos tempos verbais da linguagem escrita (na oralidade, sempre foram tempos menos comuns, como o imperfeito do conjuntivo, o condicional composto e o pretérito mais-que-perfeito; em francês, também o «passé simple» por oposição ao «passé composé»). Dizia o seu autor que este «desuso» pode significar uma falta de capacidade para olhar o passado e aprender com ele e, por outro lado, uma incapacidade de ser prospectivo, de pensar o futuro. Vive-se hoje no hoje, e pronto; e, de facto, muitos dos romances que recebo actualmente nem parecem realmente romances, mas apenas apontamentos para escrever um romance, fichas com ideias para desenvolver mais tarde, do tipo: «Ele encontra a namorada com outro e faz uma cena. Enquanto discutem, o amante desaparece e ela fica admirada por ele não ter ficado ali.» Pois, parece bastante pobre, e é. Mas, se isto seria aceitável em principiantes, a verdade é que muitos dos mais considerados escritores estão a deixar-se contaminar por esta moda em vários países, fazendo pensar que mesmo quem aprendeu a gramática com os velhos professores está cada vez mais tentado a usar a linguagem dos guiões das séries televisivas e contar histórias em tempo real. Estará o presente a absorver-nos ou é só a influência do audiovisual?

Comentários

  1. Tudo isso, a que se soma a influência triste dos "copywriters" e dos novos ativistas literários (uma profissão que descobri recentemente), além de outros que se apresentam com cognomes como "tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor" e que não se cansam de pregar as virtudes do facilitismo na escrita. Estão a desaparecer os tempos verbais e as palavras que não têm a felicidade de entrar na fórmula hodierna da "escrita eficaz".

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  2. António Luiz Pacheco8 de maio de 2024 às 02:35

    Muito interessante este tema que nos traz hoje. Não que os outros não o tenham sido também, aliás a mim quase tudo o que se diz por aqui me interessa e comento não porque sim, mas porque quase sempre me dão que pensar. Como já disse várias vezes, fazem-me falta as pessoas, os temas, os interlocutores para discorrer sobre as nossas leituras.
    No entanto, registo com agrado voltarmos ao que nos é agradável, a escrita, a leitura, os livros!
    Vejamos, será um sinal dos tempos, como alude?
    Claro que não tenho nem de perto o contacto ou as referências da NEA. Porém, pelo que vou lendo, afigura-se-me que sim! Há um certo "modernismo" na escrita, que será certamente influenciada pela imagem, ou seja pelo que actualmente constitui a quase única forma de entretenimento: as séries! Há-as muito boas, diria até que como nunca e para todos os gostos. Pelo que a sua popularidade é contaminante e seguramente condicionam a escrita, teremos escritores, consagrados porém comerciais ou os estreantes e candidatos, a serem influenciados por isso. Certamente que a pretenderem escrever igual para terem sucesso, dirigindo-se ao mesmo público.
    Aqui é que já não sei se é a táctica certa?
    Quem vê séries, lê? Pergunto... não sei, mas acredito que pouco, pois as séries são viciantes e consomem o tempo todo. Quem lê muito, creio que não possa ser espectador de séries pela razão inversa.
    Na verdade e resumindo, o que me parece é haver uma actual tendência para a pobreza linguística na escrita: Resume-se muito, usam-se poucos termos rebuscados, simplificam-se demasiado os diálogos, é-se parco nas descrições e principalmente não se traduzem bastante as emoções, como que deixando isso para o putativo actor que faça essa representação, ou para uma imaginação preguiçosa habituada a ver projectado na tela e nem por isso na sua mente. Acho sobretudo que os autores actuais, escrevem cada vez mais para si mesmo, como espelho de realidades que não conhecem, mas imaginam e portanto são a sua, talvez porque assistam a muitos documentários, falem em circuito fechado só com quem pense igual, as suas experiências e viagens são cada vez mais virtuais ou fruto da consulta internética, e, presumem saber mais do que sabem, todavia escrevem com a profundidade dos grandes autores e pensadores.
    Será a linha da escrita da metade do século XXI? Não sou Editor e nem académico para o saber, mas é o que parece. Posso estar a dizer disparates, evidentemente, há sempre essa possibilidade e me perdoem, mas é o que sinto, até pela rejeição dos meus dois únicos romances, recusados porém publicados da forma menos ortodoxa que foi a que encontrei, todavia bem aceites por quem comprou e leu, se bem que, lá está, são pessoas que comigo se identificam em tanta coisa, do meu círculo. Portanto, se calhar não contam.
    Talvez eu mesmo seja exemplo daquilo que antes disse?
    Acontece que identifico-me muito pouco com o que se vai publicando, na maioria romances absolutamente ficcionais em que se pretende que essa ficção, pessoal, seja imposta como a realidade. Os temas são os na moda, aproveitando a onda para os popularizar junto do leitor-consumidor que é cada vez mais e menos o leitor-diletante, ou gourmet.
    Claro que há muitas e felizes excepções, e o leitor-epicurista ou gourmet, ainda vai tendo o Afonso Reis Cabral, o Paulo Moreiras, o Itamar... e outros que nos deliciam com temas e uma escrita própria e diferente, para sensibilidades mais amplas em que se aprecie a largueza!

    Enfim, outros dirão aqui muito mais e melhor, fica a minha expressão de traça dos livros.
    Saudações largas cá da Cidade Morena.


    Estarei enganado? A ser injusto?

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  3. António Luiz Pacheco8 de maio de 2024 às 02:39

    Vai perdoar-me, mas agora fiquei mesmo pasmado:
    - Activistas literários? Mas que raio é isso? Poderá ter a gentileza de me elucidar?
    Grato pelo seu eventual e estimado esclarecimento.
    Saudações cá da Cidade Morena.

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  4. Ia inserir aqui um link que remetia para o perfil da autora em que encontrei a designação, mas penso que será melhor não apontar nomes num blogue que não é meu. Se fizer uma pesquisa na internet, encontrará a autora em questão e a obra em que se apresenta como ativista e mentora literária.
    Quanto aos esclarecimentos, não há muito que me ocorra - o conceito mantém relativa obscuridade para mim e é daqueles em que prefiro que assim seja. Terá possivelmente que ver com ajudar os escreventes a "reconquistarem a confiança na escrita", como aparece na sinopse do tal livro e está de acordo com outros que efetivamente li, apenas para me arrepender.
    Retribuo as saudações, que envio da Invicta!

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  5. António Luiz Pacheco8 de maio de 2024 às 03:22

    Grato pela pronta e clara orientação prestada!
    Isso é que é activismo... eheheh!
    Sim senhora, fiquei esclarecido, e, até me parece que faz sentido, aliás gostei do que li sobre as vantagens de ler.
    Parece-me que a onda actual é ser-se activista, seja do que seja. Quanto a nós, Extraordinários, talvez possamos definir-nos como "leitores militantes". Afinal temos de nos integrar na corrente actual ou seremos como os dinossauros.
    Saudações para a Invicta.

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  6. O «Acordo Ortográfico de 1990» também pode ser considerado não só um modo de «facilitismo da escrita» mas também uma forma de «activismo (ou "ativismo", precisamente) literário».

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  7. Isso não é verdade. Primeiro, porque usar uma coisa não implica defendê-la; segundo, porque não há nada de fácil no uso do acordo ortográfico - pelo contrário, o fácil seria continuar a escrever como sempre fiz. No meu caso, tive de me familiarizar com ele por motivos profissionais e decidi continuar a usá-lo porque entendo que cada um de nós tem de escolher as suas batalhas e aquilo em que gasta a sua energia.

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  8. Sim, é evidente que, nesta «batalha», a Sónia nem sequer «combateu», decidiu «render-se», «submeter-se» de imediato. Seria interessante se revelasse quais os «motivos profissionais» que a levaram a isso. Quanto a «gastar energia», diria que a senhora optou por «aumentar (bastante) o consumo», porque afirma que nada há de fácil no uso do AO.

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  9. Podia indicar em que livro se encontra essa frase transcrita ("Ele encontra a namorada com outro e faz uma cena. Enquanto discutem, o amante desaparece e ela fica admirada por ele não ter ficado ali.")?

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  10. A gradual eliminação de certos tempos verbais não é apenas uma questão de simplificação gramatical; pode refletir uma mudança mais profunda na maneira como hoje se interage com o tempo e a história. A ideia de que esta cultura corresponde a uma dificuldade de imaginar futuros é intrigante.

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  11. A nível individual há uma solução: eu pus o meu petiz a aprender o passé simple desde a segunda classe (CE1). Há até meios lúdicos (complementares) para o fazer, umas apps em linha onde se pode praticar a conjugação de todos os tempos verbais. Os miúdos divertem-se à medida que vão subindo de nível e melhorando a pontuação. O problema é que a maior parte da miudagem é vítima do facilitismo. É que embora todo o bicho careta tenha um telemóvel/computador, raros são os que aproveitam esse privilégio em favor da instrução dos próprios filhos.

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