À procura do pai

No Wisconsin – onde está como escritora-convidada pela Universidade –, a narradora deste livro recebe da senhora que lhe alugou o quarto o pedido para que conte a história do marido, que se encontra muito doente no hospital. Embora fique relutante, a escritora acaba por ficar a saber o que aconteceu a Daniel – uma criança que, nos anos cinquenta, foi dada para adoção por uma telefonista solteira, ficando então à guarda de uma instituição. À medida que os dias passam, o médico e a assistente social apercebem-se, porém, de que o bebé é mestiço, o que representa um escândalo num lugar onde a população é maioritariamente branca e num tempo sujeito ainda a rigorosas leis de segregação racial. Caberá à assistente social investigar a paternidade de Dan, coisa que a mãe biológica se recusa a revelar. Mas, se o objetivo de encontrar a família certa para a criança parece ser nobre, nem tudo parece porém corroborá-lo. Anna Kim – de ascendência coreana a viver na Áustria (que virá a Portugal para o Folio em Outubro próximo) – foi especialmente sensível a esta história real e escreve um romance em torno da noção de raça, tema que ainda hoje marca as sociedades e se impõe no espaço privado, dividindo famílias ou impedindo a progressão de carreiras. De um modo inteligente e tocante, História de Uma Criança fala de como olhamos para o outro e do que acreditamos ver nele. A tradução é de Paulo Rêgo.


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Comentários

  1. António Luiz Pacheco6 de maio de 2024 às 02:24

    O melhor romance austríaco, passado no Winconsin, do ano... portanto.
    Escrito por uma austríaco-coreana.
    O que é portanto a globalização elevada à potência máxima!
    Entendo pelo que se apresenta não fazer o meu género, pelo que não o lerei.
    Todavia fica o notável registo de apresentação, aliás prevejo já vários prémios pois o tema está bastante na moda.
    Notável como os portugueses, povo que se acusa entre si de ser racista, porém que tanto mestiço originaram, nunca proibiram a miscigenação - aliás socialmentea ceite - como sobretudo, sempre reconheceram e perfilharam os filhos mestiços.
    Penso eu na minha ingenuidade de africanista praticante, que isso deveria ser destacado e apresentado como exemplo ao Mundo, mas é capaz de não interessar e até ofender os elevados desígnios dos bem-pensantes que determinam que somos racistas, e, ponto.

    Votos de uma Extraordinária semana, proveitosa e inspirada, aberta e oxigenada, cá desde a Cidade Morena, justamente e talvez das mais mestiças do Mundo.

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  2. Mas isso também fez parte da estratégia colonialista de povos como os portugueses e os espanhóis, ao contrário dos ingleses, por exemplo, que tinham por hábito não se misturar. Não o fazíamos por fraternidade nem igualdade, mas por lascívia, por solidão, muitas vezes por violação, por domínio, para marcar o território como os cães quando levantam a pata. E claro, "socialmente aceite" se fosse um homem com uma nativa, jamais uma mulher branca com um nativo, havia de ser bonito... Refiro-me a tempos passados, claro. Agora, de livre vontade, a miscigenação é positiva e natural. Outra coisa: não é por homem se relacionar com uma negra que deixa de ser racista, tal como não é por um homem se casar com uma mulher que deixa de ser machista. É mais complexo do que isso.
    Sei que não entenderá/concordará, porque é de uma geração diferente da minha e tem uma vivência diferente da minha, mas há raciocínios que têm de ser rebatidos.
    Paula

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  3. António Luiz Pacheco6 de maio de 2024 às 03:57

    Entender talvez não entenda... não tem tanto a ver com a idade mas sim com a vivência, com a experiência até pessoal ou familiar.
    Não sei se alguma vez viveu na África portuguesa ou anglófona, francófona, germanófila? É que faz muita diferença, entre o teorizar na Europa ou viver nesses países, trabalhar e privar com as pessoas de outras raças e culturas, nas diferenças que fazem a maravilha da criação, a diversidade! Muito fácil é dizer que se é anti-racista, convictamente, sem ter sido posto à prova. Outra coisa é prová-lo no terreno, experimentando-o no dia a dia.
    Concordar, até concordo e está certa em parte daquilo que diz, o que, todavia, não contraria aquilo que eu afirmei e é um facto: os portugueses sempre perfilharam os filhos mestiços! Fossem eles mero fruto da lascívia ou do impulso de se constituir familia, mestiças com toda a naturalidade. "Jamais uma mulher branca com um nativo", já essa sua afirmação é completamente falsa, fruto sim de um preconceito que é seu e certamente formado em informação errada. Esse jamais, venha cá a Benguela e logo verá quão errada está!
    Creio que lhe escapa a realidade de que muitos milhares de portugueses, a maioria dos que se misturaram, fundaram famílias afro-portuguesas como fundariam família em Portugal. Tenho uma tia ainda viva, com quase cem anos, que casou com um goês, meu avô era pessoa de elevada condição militar e social e não foi escândalo nenhum! Onde é que foi buscar essa idéia? As famílias de que falo, ainda existem e continuam a desenvolver-se, com casamentos entre mulatos-negros-brancos. Quantos casais conheci e conheço, assim compostos. Isso são os mitos criados pelo anti-racismo pouco esclarecido e que até alimenta uma supremacia e a intolerância, por estranho que possa parecer.
    Que fosse política de assimilação, não me parece que seja correcto, porque o português sempre teve essa tendência, a de se integrar e fazer parte daquilo que passava a ser a sua terra - aliás ainda tem, pelo menos a minha geração, talvez a sua a tenha perdido, não sei, mas como tenho sobrinhos espalhados por vários países até à Austrália, tendo uma casada com um turco, outra com um espanhol e ainda outra com um inglês de origem industânica, pela nossa parte mantivémos essa tendência portuguesa de nos integrarmos.

    Este é um local de livros, não de discutir política, mas teria muito gosto em continuar esta conversa, trocar pontos de vista e até esclarecer alguns.
    Creia.
    Saudações cá da Cidade Morena e multi-racial.

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  4. Parece ser um livro grandioso, com muitas reflexões.

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!

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    Até mais, Emerson Garcia

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  5. Muito bem, António. Nada como o conhecimento da História, enriquecido com o saber da experiência feito, para ajudar a dissipar ideias erradas.

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  6. Não tenho por certo que no Wisconsin tenham existido «rigorosas leis de segregação racial», e não só na década de 50 do século passado. Aquele é um Estado do Norte dos EUA em que praticamente não existiu escravatura.

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  7. António Luiz Pacheco7 de maio de 2024 às 02:20

    Extraordinária Paula, se me permite a sugestão, vem aí o Verão e indico-lhe uma leitura que penso ser própria para a época e através da qual se poderá entreter, ao mesmo tempo ler sobre uma África que nem todos conhecem e não é a dos programas de desenvolvimento nem das ONG's, é aquela do dia a dia, de que falei.
    Chama-se "Não tem Domingo na Equimina", a Editora é a Primeiro Capítulo e é da minha autoria. Apesar de sermos de gerações diferentes, talvez encontre algumas respostas.
    Votos de Boas Leituras.

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  8. Caro António,
    agradeço a sugestão, mas creio que tresleu o meu comentário, em que falo de colonialismo e não da África actual, pós-colonialista, portanto. Já agora, deixo também uma sugestão sobre a questão de os portugueses "perfilharem sempre" os filhos nos países por onde passaram: "Furriel não é nome de pai", de Catarina Gomes.
    Boas leituras!
    Paula

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  9. António Luiz Pacheco7 de maio de 2024 às 04:14

    Caríssima Paula
    Conheço a obra de que fala. Furriel não é nome de pai? Pode ser sim... mas para isso é preciso entender e conhecer África, a de antes como a depois do colonialismo.
    Cambalhota é nome de alguém? É sim... como são muitos outros que se punham e põem às crianças por cá e roçam o absurdo. Olhe uma funcionária minha foi mãe há pouco tempo, de uma menina, perguntei se tinha nome, "ainda". Disse eu, então vou chamar-lhe "ela" até ter... bom, não é que gostaram e ficou Ela?
    Não estou a troçar nem a classificar, apenas relato, pois é África, tem de ser percebida.
    Não tem Domingo na Equimina fala disso mesmo, daquilo que é e deveria ser percebido.
    O livro a que alude só fala de uma vertente, aquela que interessa à autora, o que é habitual e tem de ser percebido também, pois ela tem o objectivo de acusar. É óbvio que atingiu o que pretendia, consigo, que alude a ele e lhe terá ajudado a si a criar uma idéia que no entanto pode não ser a única e muito menos a última. Sabemos que muitos livros, obras boas, dão apenas a versão de quem os escreve e esta é dirigida para um objectivo. Não digo que não se leiam, pelo contrário devem ser lidos, mas com capacidade crítica e de análise.
    Ficou por cá muito filho de tropa portuguesa? Claro que sim... porém e ao contrário do que se pensa aí, que a autora nunca entendeu até porque a sua vivência africana é mais de messe de oficiais do que de bairro, isso não constituía problema e continua a não constituir. Pode acreditar. A mulher africana é MÃE, é a mãe suprema e absoluta, mãe por natureza, coisa que é bem referida e elogiada no tal Não tem Domingo na Equimina, o próprio Domingo sendo filho de pai que não conhece, que foi na tropa e veio nunca mais. Qualquer das minhas empregadas, tem vários filhos de vários pais... alguns deles estão fora, até desapareceram, nenhum deles é furriel mas um é segundo-sargento da marinha, esteve aqui colocado o tempo suficiente para lhe fazer dois filhos e abalou para Cabinda, nunca mais voltou. Perfilhou-os, mas pouco participa no sustento dos filhos, bem menos do que eu por exemplo. Tive uma no Huambo, cujo marido de circunstância foi embora, deixou os dois filhos do casal e dois que eram dele, o que fez a Teresa? Pois criava os 4 como se dela fossem, tinha-os aceite e pronto ficaram com ela. Para elas é igual o pai estar ou não estar, pois aqui é assim, quem governa a casa e provém aos filhos é a mãe, o regime ainda é esse, coisa que a Paula nem entende, não saberá e se calhar nem aceita. Mas é, foi e será.
    Sabe de quantos garotos eu conheço que estão a viver com famílias que não são as deles, porque não há condições para os criar? Negritos em casa de brancos ou de mulatos, até um filho que um português fez a uma prostituta bêbeda e louca que vive na praia... vestido, alimentado e na escola, em casa de um casal meu amigo que vive na praia e recolheu o garoto. Chama-se "Chinho". É nome? É só o que se sabe, era como o pai era tratado...
    Nem queira saber o que há aqui para se escreverem romances de todo o género, o filho de furriel é só mais um caso, por muito que tenha impressionado a autora e a quem a leu, sem ter noção da realidade, nem da de então nem da de hoje, que não é nada diferente, acredite.
    Peço desculpa pela sugestão, feita na melhor das intenções. No entanto, faço notar que só se sabe e está informado depois de ler muito e as várias versões sobre o tema, não basta ler apenas uma e porque nos sensibilizou, acharmos que é a única e a tomemos como exemplo absoluto.
    Furriel não é nome de pai, relata uma realidade, mas está longe de esgotar o tema e não significa que não tenham por cá ficado muitos milhares de famílias, mistas, espontâneamente constituídas, que dizem exactamente o contrário, sem negar aquilo.
    Talvez eu perceba isto porque sou de outra geração, que viveu bastante, tem visto muito e lido muito também, sobretudo tendo lido uns e outros.

    Sempre ao seu dispôr, saudações cá da Cidade Morena.

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