O que ando a ler

Há uns tempos, por causa de uma crónica que eu tinha escrito sobre uma empregada que os meus pais tinham na minha infância a quem eu chamava «mamã Fernanda», fui convidada a integrar um painel de discusssão na Biblioteca de Oeiras sobre o trabalho doméstico e partilhei a mesa com Manuel Abrantes, um investigador que estuda o este assunto. Gostei de o ouvir e de o conhecer e soube mais tarde que, longe de se limitar aos escritos académicos, estava a atrever-se a uma ficção que se centrava numa rapariga que vem da aldeia, ainda antes do 25 de Abril, para, como então se dizia, «servir» em Lisboa. Pois o romance saiu há pouco, chama-se Na Terra dos Outros e foi lançado nas Correntes d'Escritas, onde tive a oportunidade de pedir o autógrafo da praxe. Gira em torno de uma personagem feminina, Maria do Carmo, que toda a sua vida limpa e trata de casas, mesmo quando emigra com a família para Roterdão; desde senhoras finas e antipáticas até patroas companheironas com boa onda, passando por casos bicudos em que se torna involuntariamente cuidadora de um homem de idade com uma doença degenerativa, tudo calha a esta pobre mulher comum, igual a tantas, que é uma anónima a quem talvez só mesmo Manuel Abrantes dedicasse um romance. Mas o final grito do Ipiranga é uma boa surpresa e João Tordo dedica-lhe um elogio. Uma ficção que é também um documento e dá que pensar...

Comentários

  1. Sem dúvida um tema que merece ser tratado... foi o espelho de um tempo, de que me lembro muito bem. Era hábito ficarem a servir, as raparigas dos "ranchos" que vinham trabalhar por exemplo no Ribatejo. Algumas assim ficavam connosco, por anos até casaram depois lá de casa com enxoval e tudo. Outras iam para casa de pessoas conhecidas que não tinham acesso ao "rancho" mas sempre pediam a minha mãe e avó que identificassem uma moça para o serviço. Para elas era a sorte grande, coisa que hoje espantará muita gente e às novas gerações que ignoram o que então se vivia - e sobretudo como!
    Os "impedidos", que meu pai sempre tinha, eram outra figura de outros tempos e igualmente incompreensíveis nos dias de hoje... mas era assim, foi assim, ainda bem que há quem se lembre delas. Hoje há moldavas, cabo-verdianas, romenas, as portuguesas rareiam, sinal de que as coisas mudaram, resta saber se para melhor. No meu caso pessoal já vou na quinta geração doméstica, fomos herdando... há coisas que se mantêm, não sei classificar, mas por mim ainda bem!

    Saudações domésticas cá da Cidade Morena, onde algumas têm a sorte de ainda ter esse emprego e sustento, pois a vida aqui está cada vez pior. Já há "senhoras de família" a pedir trabalho doméstico. Histórias que conheço davam para romances.

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  2. Acabei "Tasmânia", de Paolo Giordano.
    Merece que diga alguma coisa, pois o fosso entre mim e a crítica é cada vez maior e começo a duvidar das minhas competências de leitor. Ainda cheguei a pensar ter ocorrido engano e terem posto a capa errada, pois os encómios da contra-capa nada não condizem com o que li.
    Bem escrito, um romance óbviamente fruto do actual interesse nas alterações climáticas e no efeito das nuvens, que o autor explora bem, mas expõe mais o seu pensamento e teorias do que escreve um romance, deveria considerar antes um ensaio... o romance em si é fraco e mal-conseguido, os personagens cheios de saber científico que se movem num ambiente internacional são no entanto fracos, vazios de sem interesse, a começar pelo principal e é pífio o seu relacionamento e crise com a mulher.
    Enfim, a quem queira estar na moda, leia! A quem aprecie literatura, um bom romance, esqueça. É a minha opinião.

    "Os passageiros da sombra" - Jaime Nogueira Pinto.
    Ando a ler e ainda nem vou a meio.
    Aprecio o autor como ensaísta, gosto da sua clareza e considero-o uma mente das mais esclarecidas do nosso panorama nacional.
    Nunca tinha lido nenhum romance dele. O romance espelha aliás a sua mundividência e o seu conhecimento dos locais e dossiers, a sua veia de investigador.
    Para já fica-me a sensação de estar a ler um guia de grandes cidades como S.Paulo, Rio, Nova Iorque, Paris... se o objectivo é mostrar o conhecimento das ruas e dos edifícios, está cumprido, mas parece-me excessivo, tendo a pular estas partes, sou franco.
    No resto, parece-me estar a ler o roteiro de um bom filme de espionagem! Estou sempre a ver quando aparecem o Mat Damon, Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Penelope Cruz, Rosamund Pike. O romance é um cliché absoluto, aceita-se, embora o ambiente seja menos comum, pois é sobretudo passado em Angola durante a guerra civil e o conflito com os Sul-africanos. São temas que o autor conhece perfeitamente e soube criar ambiente e os intervenientes para conseguir compor o que me está a parecer uma trama bem conseguida.
    Talvez estranhe porque não estejamos muito habituados a que haja romances portugueses neste género e escritos com tanto realismo e verosimilhança aos factos?
    Disto não sei, deixo para os críticos, que aliás pouco me interessam, prefiro ler aqui neste Espaço Extraordinário as vossas opiniões, porém sei que estou a gostar e até recomendo a quem seja apreciador do género - eu sou!
    Darei notícias mais conclusivas quando acabar, lá para o início do próximo mês.

    Saudações cá do palco deste romance, a Cidade Morena!

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  3. Acabei o romance de Salinger "À Espera no Centeio". Apreciei a definição psicológica dos personagens vista pelos olhos do principal, senti-os vivos e próximos de quem lê e isso é para mim o critério decisivo. O estilo modernista, muito apelativo no início, acaba por se tornar repetido deixando a impressão de que degrada a qualidade literária. Pode ser defeito meu pois já sentira o mesmo com Jon Fosse (mas não com Celine, por exemplo).

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  4. A propósito de empregadas domésticas, acabei de ler "Negro e prata", de Paolo Giordano. Um livro que, em meras 100 páginas, descreve de forma simples e honesta a enorme entrega de uma empregada doméstica a uma família de um casal com um filho pequeno. É uma história lindíssima.
    Levei o Paolo Giordano deste blogue, como tantos outros que vou lendo! A próxima leitura será precisamente o "Tasmânia". Fico ainda mais curiosa depois de ler a opinião do Extraordinário António Luiz Pacheco.
    Bom dia e boas leituras!

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  5. Post bem incrível. Obrigado por compartilhar.

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!

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    Até mais, Emerson Garcia

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