Camões

Celebram-se em 2024 os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, mas, curiosamente, não se tem ouvido falar muito daquele que é sem qualquer dúvida o maior poeta português, o mais prolixo e variado, aquele cuja vida foi realmente uma aventura mas cuja obra demonstra um talento que muito dificilmente será ultrapassável. A editora Guerra e Paz levou o assunto a sério, e ainda bem, dando à estampa, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, a obra de um outro autor de renome, Jorge de Sena, sobre Camões; e, de uma assentada, lança O Pensamento de Camões (quatro ensaios sobre a lírica e a épica do mestre), Os Lusíadas e a Visão Herética (obra que inclui a versão integral d'Os Lusíadas apresentada por Sena) e Babel e Sião, que inclui um conto de Sena sobre Camões escrevendo o belíssimo Sôbolos Rios. E promete para breve mais dois volumes: Cartas e Poemas e ainda o segundo volume do Reino da Estupidez, onde podem ser encontrados mais dois ensaios sobre o grande Luís Vaz. Espera-se ainda, na Contraponto, a biografia do poeta pela pena de Isabel Rio Novo, que deve estar a chegar por estes dias. Não se fala, mas pelo menos publica-se. Caramba, o homem merece.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco30 de abril de 2024 às 02:07

    De facto, fala-se pouco de L.V. de Camões... saiu de moda?
    Para mim que sou suspeitamente ignaro, porém insuspeitamente não consumidor de poesia, Camões é mais do que um poeta!
    Notem que não estou a falar da esgotada simbologia lusa e muito menos a fazer apologia do nacionalismo à estado novo, estou a referir-me ao alcance e à natureza da obra do vate, que me parece ser pouco explicada e divulgada como aquilo que é, não apenas "cantar o peito ilustre lusitano", mas sobretudo destacar o saber e a notável cultura clássica que foram necessárias para compor uma obra cheia de conceitos expressos em episódios ou personagens como "o velho do Restelo" ou "aqueles que por meio de obras valerosas se vão das leis da morte libertando", mesmo "Fernão Veloso", e outras tantas alegorias ou lições de vida e de fazer!
    Penso que, Camões, não sendo embora único pois temos como ele Pessoa ou A. Gedeão, não apenas como poetas mas como expressão de uma cultura e um saber que no meu atrevimento considero iniciáticos, deveria ser mais explicado às actuais gerações, que se julgam possuidoras de saber, que na verdade não têm, pois dependem muito da dita inteligência artificial ou artefactos que os ajudam a consultar instantâneamente a informação, que Camões e os citados, tinham guardada nos seus privilegiados cérebros.
    Enfim, opinião de uma traça livresca expatriada.

    Saudações camoneanas cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
  2. António Luiz Pacheco30 de abril de 2024 às 02:08

    Nota: aguardo ansiosamente a saída do trabalho de Isabel Rio Novo!

    ResponderEliminar
  3. Camões, grande, grande sem dúvida. O maior. D. Luís, o Primeiríssimo.

    ResponderEliminar
  4. As festividades dos 500 anos estavam centradas entre 1 de Junho e 20 de Junho. E digo estavam, porque o novo governo já reduziu 80% nos festejos dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, também ainda não actualizou os eventos previstos pelo anterior governo. O único que se mantêm é o lançamento da moeda, 5 euros, dedicada aos 500 anos no dia em que terá nascido (5 de Junho de 1524). As declamações, placas e estátuas está tudo pendurado, faltando que os governantes decidam se será este ano ou daqui a 500 anos.
    Entretanto, PSD, CDS, Chega e IL, conseguiram aprovar 170 milhões de euros (mais 600 milhões para despesas gerais) na "Comissão de desempenho para avaliação dos eventos a organizar a 25 de Novembro de 2024". Curioso que não é notícias, pois foi aprovado fora da agenda do Parlamento, numa votação feita, no lugar do IRS, que eram 5 propostas e 3 foram votadas, 2 desceram à comissão e sobrou tempo para aprovar essa "grandiosa medida".

    ResponderEliminar
  5. António Luiz Pacheco30 de abril de 2024 às 04:21

    Extraordinário Manuel da Rocha, deixe-me fazer este desabafo:
    - Nenhum ministério ou secretaria de estado de nenhum governo NUNCA deu apoio ou ligou a mínima à cultura... este governo (em que não votei!) está em funções há um mês ou dois e já é culpado por tudo que não foi feito nem previsto pelos anteriores?

    Camões tem de ser celebrado por nós! Falando nele, apreciando-o, divulgando a sua obra, falando sobre ela, seja em público seja entre nós e os nossos. Desse modo se fará justiça e a preservação da sua memória e obra. Não é com "festejos" inúteis que são apenas fumaça e forma de fazer aparecer alguns oportunistas. Pegue-se no dinheiro dos "festejos" e pague-se a divulgação da obra e vida, com acções nas escolas e junto da população estudantil para que o entenda como o que foi e não como uma figura de regime, um "famoso" qualquer.

    Abraço para si.

    ResponderEliminar
  6. E nós? Merecemo-lo?

    A metade do meu agregado familiar em idade escolar diz que não - preferiria autores menos vetustos. E deixariam de bom grado o "zarolho" (como é carinhosamente apodado) para quem enveredasse por Letras. Para ser competente no domínio da língua materna, dizem eles, não precisariam de ser sujeitos a tal "tortura". [Nota: acho que os encarregados de educação deles lhes dão razão]

    Queixumes à parte, e num país com minguantes hábitos de leitura, resta saber "como fomos chatear o Camões". A resposta afigura-se política: https://www.nationalgeographic.pt/historia/10-junho-como-fomos-chatear-camoes_3856

    Boas leituras!


    ResponderEliminar
  7. Aquilo que foi feito, sim é um indicador?
    A fobia e o obscurantismo político, para não utilizar outro termo, são demasiado evidentes neste comentário, de que não vejo nenhum interesse senão uma reação... reacionária.

    ResponderEliminar
  8. Teriam o meu apoio se assim procedessem. Mas o momento é sempre outro. Como se depreende. É o "daqui não saio, daqui ninguém me tira". Vamos lá a ver: Camões???! Interessa a quem? Talvez fosse uma das formas de contribuir para a leitura. Homenagear os nossos maiores, se não for mais, é um dever cívico.
    Gosto de saber que Manuel da Fonseca continua a pelejar pelas letras portuguesas. Boa ideia essa de se associar à Gulbenkian na divulgação do Poeta a quem tanto devemos.

    ResponderEliminar
  9. Camões, Luís Vaz de Camões. Ora aqui está uma pessoa a quem, hipocritamente, de vez em quando, anunciam grandes homenagens, que, normalmente, não têm qualquer intenção de prestar.
    A única homenagem que eu, na minha modesta opinião, acho que lhe devia ser feita é entender-se, e divulgar-se, que a sua vida e obra, não são mais do que um guião, um programa de vida e um espelho, para o qual temos medo de olhar.
    Camões tem todos os defeitos e virtudes portuguesas. Quem o ler não pode deixar de reflectir na coragem, competência e saber que se encontram reunidos em Camões.
    Disfarçadamente, continua a tentar ignorar Camões: ou porque é difícil, ou porque está ultrapassado. Quem melhor do que Camões nos descreveu, como gente e como povo?
    Se os nossos jovens seguem tantos ídolos, tantas personalidades, que nada têm a ver connosco, o que terá faltado para que Camões continue a ser um ilustre desconhecido? Como é possível não conseguirmos “servi-lo”
    Eu, felizmente, tive a sorte de ter dois professores que me ensinaram a gostar de Camões e respectiva obra. Ao longo dos anos, fui adquirindo versões, em várias línguas e outros meios de comunicação, de “Os Lusíadas”, num total de cento e cinco, e variadíssimos ensaios, biografias, etc. Sempre encontro algo de novo. É um manancial de inspiração.
    Manuel Dias da Siva

    ResponderEliminar
  10. Luísa Santos disse:
    '' (...) conseguiram aprovar 170 milhões de euros (mais 600 milhões para despesas gerais) na "Comissão de desempenho para avaliação dos eventos a organizar a 25 de Novembro de 2024".'' Nos comentários desvalorizou-se a parte polémica - no mínimo - do comentário de Manuel da Rocha. Então, a serem certos aqueles números, será que o dinheiro vai chegar?
    Camões, sempre! Com certeza.
    Cumprimentos
    Luísa Santos

    ResponderEliminar
  11. António Luiz Pacheco1 de maio de 2024 às 03:46

    Comungo inteiramente daquilo que disse! Penso o mesmo e tive a mesma sorte no liceu.
    Saudações cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
  12. Fiz a minha tese de doutoramento sobre a importância de Os Lusíadas em Espanha. Pouco tempo depois da publicação da obra, já ela era mencionada no país vizinho por importantes eruditos. Só em 1580 foram publicadas duas traduções de Os Lusíadas, o que não era nada normal naquela época. No final do século XVI e princípios do século XVII, Camões foi um dos poetas épicos mais seguidos e imitados por autores de língua castelhana. Desde grandes episódios como o de Inês de Castro, a pequenos pormenores como rimas, Os Lusíadas foram uma obra modelo inclusivamente para poetas tão importantes como Alonso de Ercilla ou Lope de Veja. É verdade, Camões merece mais...

    ResponderEliminar
  13. António Luiz Pacheco2 de maio de 2024 às 04:55

    Desconhecia! É que vale mesmo a pena divulgar... eu bem digo.
    Grato pela informação.

    ResponderEliminar
  14. Obrigada! Aproveito para emendar o nome do autor espanhol que é obviamente Lope de Vega e não Lope de Veja.

    ResponderEliminar
  15. "...daquele que é sem qualquer dúvida o maior poeta português...": exprimindo mera opinião pessoal (visto que é com plena ciência de que há opiniões diferentes), a autora fala como se enunciasse uma constatação de facto. Mas, sabendo quem atinge ou pretende atingir (os que atribuem tal título a F. Pessoa), acrescentou por impulso irresistível: "o mais prolixo e variado"... Independentemente das rivalidades, seria caso para perguntar: onde está o Livro do Desassossego de Luís Vaz? E o que relega para segundo plano o autor de O Guardador de Rebanhos? A hipótese subjacente é que Pessoa não é suficientemente "português ", o que deixa à vista o implícito nacionalista que sustenta, ainda, a glorificação de Camões.

    ResponderEliminar
  16. António Luiz Pacheco2 de maio de 2024 às 11:37

    Vi logo que não... eheheh!

    ResponderEliminar
  17. Foi também lançado, pela Penguin, um pequeno livro infantil que apresenta Camões aos mais novos: https://www.wook.pt/livro/camoes-sergio-franclim/29702045. A biografia é contada de forma divertida e muito simples, e gostei das ilustrações. Fica a dica.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório