Excerto da Quinzena

Chegado aqui, vejo-me como se fosse o Fabrice del Dongo, esse personagem do Stendhal, no início da Cartuxa de Parma, que avança, no nevoeiro de Waterloo, ouvindo vagamente o ruído da batalha, mas que não consegue encontrar o ponto em que os exércitos entram em confronto, limitando-se a enterrar as botas na lama num esforço para encontrar o inimigo. Posso dizer, por experiência própria, que não há nada mais cansativo do que andar em cimade um lamaçal. Levantar uma perna é um esforço tão grande como puxar um balde de água de um poço; isto, claro, depois de já termos puxado muitos outros baldes de água. E se o poço for fundo, não vemos sequer se há ou não água que chegue para tirar ainda mais baldes; mas o peso de cada balde redobra quando o puxamos, ouvindo-o bater contra as paredes do poço, provocando um eco que nos bate no ouvido até que não conseguimos ouvir mais nada. Posso comparar esta sensação à que tive ao ler, pela primeira vez, a Cartuxa de Parma sem conseguir parar da primeira até à última linha, como se cada página fosse um desses baldes que eu puxava do fundo da imaginação de Stendhal até chegar à vista dos meus olhos. Fiquei exausto, isto é, ficava exausto no fim de cada página, mas era um cansaço que me obrigava a continuar, sem descanso, sabendo que só no fim, quando o poço ficasse seco nessa última página, e eu estivesse mergulhado num oceano, de tanta água que tirara do poço, teria o repouso ambicionado, embora quase não conseguisse respirar, afogado naquele dilúvio de palavras.


Nuno Júdice, O Café de Lenine

Comentários

  1. "Distance in space and time degrades intensity of awareness. So does magnitude. Seventeen is a figure which I know intimately like a friend; fifty billion is just a sound. A dog run over by a car upset our emotional balance and digestion; a million jews killed in Poland cause but a moderate uneasiness. Statistics don’t bleed; it is the detail which counts. We are unable to embrace the total process with our awareness; we can only focus on little lumps of reality."

    Adapted from Arthur Koestler, “The nightmare that is a reality”, New York Times (January 9, 1944), pp 5, 30.

    Published in The Analog Sea Review nr 4

    https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/the-screamers-by-arthur-koestler-18305

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  2. António Luiz Pacheco22 de março de 2024 às 02:47

    Todos os homens sonham, mas não da mesma forma. Os que sonham de noite, nos recessos poeirentos das suas mentes, acordam de manhã para verem que tudo, afinal, não passava de vaidade. Mas os que sonham acordados, esses são homens perigosos, pois realizam os seus sonhos de olhos abertos, tornando-os possíveis.
    T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria.

    Votos de um Extraordinário fim de semana, cá desde a Cidade Morena

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  3. António Luiz Pacheco22 de março de 2024 às 02:56

    Estava a ver que não haveria referência ao Extraordinário Nuno Júdice. Coisa que muito me admirou esta semana e aguardava pelo mote, nenhum Extraordinário dele se lembrou?
    Foi sem dúvida e mais do que o poeta. um vulto da cultura, multifacetado e sobretudo culto, esclarecido.
    Pessoas como ele não há muitas e fazem muita falta a este triste país mergulhado em causas absurdas que em nada o beneficiam, só distraem daquilo que é importante.
    Falta gente culta e de cultura, o que se ressente na educação e civilidade, só temos histéricos ou presumidos.
    Nuno Júdice estava acima dessa mediocre mediania, até pela sua discrição.


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  4. E é que estava mesmo acima. Por essa razão o secundo, pouco ouvi acerca da sua morte. Não sei mesmo se algum canal de televisão chegou a dar a notícia. Parece ironia, mas é verdade, neste tempo estranho que nos calhou viver, morrem esquecidos os poucos que ficarão.

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